Crítica | John Wick 3: Parabellum

“O que você quer?
Armas. Muitas armas.”

Enquanto John Wick (Keanu Reeves) está correndo de assassinos que caçam a sua cabeça, posta a um preço extraordinário, uma pausa solene acontece para que acompanhemos um balé, após vinte minutos completamente delirantes darem reinício à jornada do personagem. Toma-se forma, imediatamente depois dos acontecimentos do último longa-metragem, mais um ato da dança cinematográfica que começou com De Volta ao Jogo e continuou com Um Novo Dia Para Matar. As pausas que conectam um exemplar a outro não existem, o que consequentemente gera um peso a mais à primeira incursão da franquia, mais truncada em termos dramáticos e criativos que as demais. Já Um Novo Dia Para Matar e Parabellum não pensam em pausas, quer seja John Wick movimentando-se ao redor do mundo, quer seja o personagem participando de sequências de ação conduzidas com muito esmero. É uma composição artística que visa nos entreter, ao passo que o protagonista precisa confrontar as regras e as consequências da tal Alta Cúpula. O mundo em questão enxerga o espetáculo na mentira, existente para ser arte e não tentar emular realidade.

Tão significativa quanto a comparação que a franquia tem com as comédias de Buster Keaton ou com o cinema asiático de ação, a dança é, no entanto, uma associação ainda mais necessária, primordial, às coreografias nesse terceiro exemplar dessa saga cinematográfica. Como acontece com a bailarina, que revela-se com machucados pela sua perna – uma outra até arranca a unha -, a ação em Parabellum é executada da mesma maneira. Chad Stahelski aproxima a sua obra da pureza em espetáculo, colocando todos os elementos do longa à serviço desse cerne, mas também mistura-a com a morbidez de assassinatos que, curiosamente, tornam-se mais plásticos e acessíveis, mesmo que permaneçam incômodos. Existe a violência em si e existe o seu controle cinemático, que permite o grosso tornar-se orquestra. Ao passo que outras obras usam o neon e uma estilização na cinematografia para tentar dar um ar cool um tanto falso às imagens, John Wick brinca com a iluminação para corroborar a intenção de reunir um ideal belo a um propósito cru. A própria performance de Reeves reúne a sua índole brucutu a pontuais usos acentuados de técnica.

O roteiro, tendo história de Derek Kolstad, novamente desprendeu-se de certas correntes, como complexidade narrativa e nuances dramáticas, para originar uma estimulante experiência imersiva, muito mais autônoma. Ao passo que o Sr. Wick vai até a Biblioteca Pública de Nova Iorque recolher certos objetos importantes, por exemplo, o drama da esposa morta do personagem principal é pincelado brevemente enquanto outras coisas, necessárias para a narrativa, são apresentadas: eis um crucifixo e um marcador. Os roteiristas estabelecem com agilidade as suas premissas e consegue as aproveitar sem as esgotar. Ao invés de se aprofundar em apenas uma ponta, Parabellum sugere questões incessantemente, vide o relacionamento entre Wick e a personagem de Anjelica Huston e a apresentação de Sofia (Halle Berry). É uma expansão de mitologia ao mesmo tempo instigante e paralelamente despreocupada em ser mais importante do que precisava. Funciona como um motor charmoso para que John continue a caminhar e a matar pessoas. Quando urgir uma motivação maior para Wick, a simplicidade será mais que convincente.

Tudo até parece um videogame, desde a essência de chefes e sub-chefes para cada fase, passando pela maleabilidade da cenografia, renovando a ação e também renovando-se por conta própria, aos enquadramentos. A melhor sequência da obra nos apresenta a um combate de facas que, por sinal, é uma proeza. As estantes com várias lâminas penduradas vão gradativamente perdendo os seus exemplares, jogados entre e pelos combatentes em cena. O som de John Wick é imensamente importante nesse sentido, porque cria o incômodo supracitado, visto que existe um trabalho com o macabro. Mas mescla-se isso com a intenção de um conjunto que ainda prenderá o espectador de uma forma bem mais estilística que a natural. Os jogos eletrônicos, ora, são basicamente uma pretensão de controle ao jogador. Contudo, tudo não passa de dados sendo pensados e repensados visando uma experiência mais enervante. O combate que une John e Sofia juntos, no caso, usa os cachorros da assassina de um modo ritmado, pensando o tempo todo a estética, a coreografia, a encenação e um senso de espetáculo muito puro e descompromissado.

O próprio teor mitológico de John Wick baseia-se em aparências e um jogo de controle presumindo descontrole, como é a noção da Alta Cúpula, controlando os assassinos, e da direção, controlando a ação. As pessoas ao redor do protagonista, que estão dispostas nos tantos cenários propostos, como até mesmo uma Times Square preenchida por cabeças, não são exatamente figurantes a simularem a Times Square como realmente é no nosso mundo. Todos podem ser assassinos – ou seja, personagens posicionados objetivamente pela obra. Esse universo, enquanto criação de artistas, é pautado numa mística própria, que compreende o espetáculo enquanto missão dos seus responsáveis. A mitologia é maior que a realidade – não é à toa que ninguém usa dinheiro nessa franquia, apenas moedas especiais. Esse ar imaginativo e tão conciso curiosamente nos remete à Matrix, em que tudo é pensado para ser um ilusionismo do que é a verdade, do que é natural e não é. John Wick cavalga em meio a carros, a exemplo, situando-nos a um breve anacronismo que só existe para o longa referenciar o gênero como um mar de muitas possibilidades e impossibilidades.

Como em musicais, nos quais dançarinos podem surgir de qualquer lugar, assassinos brotam paulatinamente, transformando rostos amigáveis em desagradáveis à base de uma conveniência. Em Parabellum, as sombras tornam-se parte dessa estrutura de encenação que origina uma das mise-en-scène mais ricas do cinema de ação norte-americano dos últimos anos. Mesmo o sangue, que é oriundo de um conceito brutal de realidade, é transformado em meio a uma estética mais limpa, em que a violência torna-se em si natural e espetacular. Um estábulo cheio de cavalos, em uma cena, não é usado como mero adereço da ação. Muito pelo contrário, a coreografia dos atores se mescla aos ambientes, criando uma unidade em que a encenação é assumida como parte da experiência como um todo. O quanto uma sala transparente se renovará? O sangue tem que ser controlado pela juíza – nova personagem -, assim como pelo longa. John pode até estar indo contra a Alta Cúpula, personificação do controle sistemático na obra, porém, estará sempre sendo controlado pelo cinema enquanto arte, que visará a tua sobrevivência para o nosso entretenimento.

John Wick 3: Parabellum (John Wick: Chapter 3 – Parabellum) – EUA, 2019
Direção: Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins, Marc Abrams
Elenco: Keanu Reeves, Halle Berry, Ian McShane, Laurence Fishburne, Anjelica Huston, Saïd Taghmaoui, Mark Dacascos, Lance Reddick, Jerome Flynn, Asia Kate Dillon, Jason Mantzoukas, Boban Marjanović, Robin Lord Taylor
Duração: 131 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.