Crítica | John Wick: Um Novo Dia Para Matar

“Quem vier, quem quer que seja, eu matarei. Eu matarei todos.”

Buster Keaton, em preto-e-branco e mudo, é projetado nas paredes de uma cidade na primeira cena de John Wick: Um Novo Dia Para Matar. Essas imagens, correspondentes ao clássico Sherlock Jr., de 1924, combinam-se com o som do longa-metragem de ação, criando uma unidade enquanto o protagonista-título persegue um motociclista. Em referência a um cinema de outrora, Um Novo Dia Para Matar apresenta o mesmo ar espetacular e puro de antigamente, que encorpará as suas duas horas. Dirigida por Chad Stahelski, essa é a continuação do bem-sucedido De Volta ao Jogo. Mas o cineasta vai além da conquista anterior, encontrando noções mais lúdicas, menos truncadas em uma seriedade. A trama da obra brinca com premissas se reinventando, originando novos pretextos narrativos soltos. O drama do protagonista, que teve o seu cachorro assassinado e seu carro roubado, é pontuado com simplicidade, em vista da apresentação de uma sequência bem mais desprendida de quaisquer amarras a não ser “apenas” a grandiosidade do gênero por si.

Tão simples em termos de enredo, simplesmente acontecendo, quanto extraordinário em termos de encenação, o projeto é um dos mais revigorantes representantes do cinema de ação dos anos 2010, superando o original em coesão e encontrando um propósito mais espetacular e imagético. Como no mundo do saudoso ator de comédia, tudo é encenação no universo de John Wick (Keanu Reeves). O cenário em Marinho de Encomenda, por exemplo, destruía-se ao redor do artista de outros tempos, como parte de uma construção de mise-en-scène e não de uma busca por um realismo, uma pretensão por apresentar a realidade em si e ter que lidar com ela. Aqui, o ato conclusivo nos transporta a uma sala de espelhos. Os únicos momentos mais gratuitos são os que intendem uma estilização, como na morte de uma personagem, um tom épico a troco de pouca coisa. De resto, a cinematografia de Dan Laustsen captura bem o espaço mais formal – museus, shows secretos – a um caráter mais sórdido. A violência e o sangue surgem do “limpo”, purificados.

Keanu Reeves, em John Wick, é mesmo como Buster Keaton. O ator preenche a sua interpretação de semblantes entristecidos e também submete o seu corpo como sendo o grande centro das atenções nas cenas de ação. Na primeira grande sequência do longa, o astro de cinema é arremessado por carros, entretanto, sempre retorna a levantar. Sejamos sinceros, Reeves não é um artista que demonstrou ter muito talento para trabalhos com vieses dramáticos mais acentuados. Por isso que o roteiro de Um Novo Dia Para Matar é esperto ao dar poucas linhas de diálogo para o protagonista, quase monossilábico, preferindo encenar a maioria de seus momentos com pouco texto. O seu personagem personifica um mito muito próprio, como Keaton: um tanto apático, consequentemente carismático aos espectadores. O público consegue se associar as suas feições deprimidas e ao seu sofrimento contínuo. John Wick apanha e apanha muito, assim como Keaton, envolvendo-se em gigantes enrascadas e aguentando os maiores danos nos corpos.

O bicho-papão, porém, não amedronta porque meramente mata a todos, mas pois não importa quantas pancadas sofrer, irá se reerguer. O bicho-papão amedronta por ser imortal. Ora, o outro personagem da cultura popular a personificar essa criatura fantasmagórica é o próprio Michael Myers, antagonista de Halloween conhecido por ser invencível, como o primeiro exemplar da franquia apontava. A grande questão é que John Wick e o seu intérprete são parte de toda uma conjuntura bem maior que eles e que precisa de um avatar a personificar o espectador dentro dos cenários. Uma manivela para que sejamos espirituosamente conduzidos a um espetáculo audiovisual auto-consciente e aproveitador de suas oportunidades. O cinema é uma mentira – e também uma verdade -, composto por ilusões que se transformam em uma realidade inventada. Na ação e na comédia que obriga o impossível a ter forma em busca do entretenimento, que exige situações inimagináveis, a imortalidade é até uma necessidade. John continuará vivo – e matando.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2) — EUA, 2017
Direção:
 Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Ruby Rose, Common, Claudia Gerini, Lance Reddick, Laurence Fishburne, Tobias Segal, John Leguizamo
Duração: 122 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.