Crítica | Johnny English 3.0

“Nós estamos indo a uma missão, não a uma lua de mel.”

O Retorno de Johnny English, sequência da primeira empreitada de paródias a obras de espionagem, e que foram ambas estreladas por Rowan Atkinson, não parece ser tão antigo. O filme, contudo, já data de um presumidamente longínquo ano de 2011, antigo ao menos para as mentes por trás do encerramento dessa trilogia. A tecnologia em si, desde então, mudou, senão completamente, consideravelmente, o que principia, por algum motivo, a premissa de Johnny English 3.0. O protagonista é um agente já aposentado, mas que precisa retornar à atividade por causa de eventos recentes – e a incompetência da primeira-ministra interpretada por Emma Thompson, em um dos piores papéis de sua carreira. O contraste entre gerações, agentes do passado e agentes do presente, consegue ser realmente aproveitado ou minimamente justificado?

Uma das primeiras piadas mais “elaboradas” mostra English rodeado por outros agentes aposentados, que são curiosamente vividos por lendas como Michael Gambon e Charles Dance. O engraçado é que Johnny English 3.0 faria muito mais sentido se aproveitasse esses personagens. A verdade é que parece que meio século se passou entre um projeto e outro, e não apenas sete anos, o que também aponta a anacronia do conteúdo da obra. O antagonista, por exemplo, nos remete a uma paranoia com a tecnologia que se comunica muito mais com o início da década do que com agora, em que não se cabe mais tratar a questão com a mesma superficialidade. O cinema que David Keer, responsável pelo longa, apresenta, logo em seu debute cinematográfico, soa um cinema ultrapassado, em que todas as piadas já foram feitas antes – e superiormente até.

Johnny English não quer usar celulares e meios digitais, o que é interessante. O uso de uma cabine telefônica, entre alguns dos casos exemplificados, parece ser coisa do século passado. Mas tudo isso, misturado com o antagonismo, apenas cria uma rejeição do público às tecnologias. Essa não é uma obra que desconstrói o viés careta de Johnny English. Muito pelo contrário, o personagem principal acaba conquistando os seus objetivos através dessas atrapalhadas contínuas, sendo todas margeadas pelo pretexto do offline enquanto ideologia. Se o público está rindo do protagonista, a espiã russa genérica com a aparência de Olga Kurylenko não está, como se o senso de retrocesso do personagem – até acerca do papel feminino – não fosse uma coisa que o enredo apontasse como equivocado. A graça não é com o passado, porém, com o presente.

O problema é que supostamente deveríamos estar rindo do protagonista, o que enaltece uma grande diferença, pelo menos aqui, entre a ingenuidade de um Charlie Chaplin ou Buster Keaton, que promoviam o sucesso como recompensa, da incompetência de Johnny English enquanto espião. English é uma pessoa, nesse terceiro longa-metragem de sua própria franquia, que se enxerga como vitorioso, como aquele que pode ensinar o sucesso ao próximo – por exemplo, até mesmo virou professor. A costumeira prepotência, que o texto não quer interferir, não é justa com a inocência. Já a narrativa não amarra o que o protagonista está investigando com o que o vilão está aprontando, unindo-os pela mera conveniência do roteiro. Johnny English é uma bagunça nesses sentidos. O resultado é um projeto com pouca inspiração – com exceção de uma única sequência.

O protagonista, em uma cena que antecede o terceiro ato do longa-metragem, entra em uma experiência de realidade virtual, mas acaba confundindo o que é real com o que é ficção. A criatividade, ausente na maior parte do tempo de duração da obra, dá as caras nessa situação ímpar. O problema é que os roteiristas de Johnny English 3.0, na verdade, não possuem a menor ideia do que estão parodiando. A realidade virtual, por exemplo, não funciona do modo como é retratada. O texto é escrito por pessoas tão desatualizadas quanto o próprio Johnny English. Não é à toa que a cena inicial posicione um agente numa sala de computadores, mas se entretendo em um jogo de celular, ao invés de prestar atenção nas telas – uma aparente crítica irônica ao vício. O jogo que ele está jogando, porém, é o “pré-histórico” Temple Run, criado no início dessa década.

Johnny English 3.0 (Johnny English Strikes Again) – Reino Unido, 2018
Direção: David Kerr
Roteiro: William Davies, Robert Wade
Elenco: Rowan Atkinson, Emma Thompson, Olga Kurylenko, Ben Miller, Jake Lacy, Eddie O’Connell, Adam James, Michael Gambon, Charles Dance, Edward Fox
Duração: 89 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.