Crítica | Johnny Guitar

estrelas 4,5

Johnny Guitar foi o segundo western de Nicholas Ray (o primeiro foi Paixão de Bravo, lançado dois anos antes) e o seu primeiro filme em cores. E que cores! Utilizando o processo Truecolor, desenvolvido por uma divisão da Republic Pictures – estúdio que produziu o filme –, o fotógrafo Harry Stradling Sr. colocou na tela uma bela composição cromática em forte contraste e de alternância entre filtros suaves e luz dura, jogo estético que contribuiu para a construção do pódio de western cult que o longa alcançaria no futuro, após o fracasso de público e crítica no momento de seu lançamento.

Nicholas Ray se aventurava na terra sagrada do gênero americano por excelência desestruturando suas premissas e politizando o cenário com veladas indicações, tais como a escalação de um elenco envolvido até os dentes no episódio da Caça às Bruxas do Senador McCarthy e diálogos sintomáticos, como aquele no qual ouvimos a seguinte frase, “Eu não aperto a mão de atiradores canhotos”.

O texto foi creditado a Philip Yordan, embora Ben Maddow e o próprio Ray tenham contribuído na escrita e reajuste de alguns rumos dramáticos, especialmente os que envolviam a atriz Joan Crawford, conhecida por seus ataques de estrelismo e difícil trato com alguns colegas no set. Em Johnny Guitar, a triz conseguiu fazer de sua antagonista diegética, a atriz Mercedes McCambridge, uma nova inimiga na vida real. Nicholas Ray, que via um enorme potencial dramatúrgico nessa briga, não fez nada para aplacá-la, já que pretendia usar a inimizade entre as atrizes como trampolim para suas personagens, algo que funcionou perfeitamente bem no longa.

O que se destaca à primeira vista em Johnny Guitar é a colocação das mulheres como dominadoras dos negócios da cidade e os homens como (nas palavras de Truffaut) “bailarinas que desmaiam e se veem em pequenas brigas por coisas pequenas”. Em certo ponto vemos também a covardia masculina desfilar na tela enquanto a bravura das duas mulheres protagonistas é destacada quase religiosamente. E vejam que não coloco isso como algo negativo, é apenas uma interessantíssima constatação e certamente o motivo pelo qual o público e a crítica americana rechaçaram o filme.

Mas além da revolução conceitual em colocar a mulher no pódio de atenções, o roteiro de Johnny Guitar possui uma composição no mínimo literária, com camadas e camadas de filosofia e frases de efeito por personagem. É como se cada um quisesse deixar uma marca de ironia, cinismo ou alfinetada verbal para a posteridade ou para as lendas do Oeste. Todos são agressivos à sua maneira e tentam desbancar seu oponente com tiradas que nos fazem rir e assentir com uma estranha cumplicidade, porque é justamente essa a postura que adotamos quando estamos em uma discussão verbal com alguém – essa similaridade de comportamento alcança um patamar dual no longa porque a fotografia e o desenho de produção são irreais (já comentamos sobre método Truecolor) e esse contraste entre verbalização e essência estética ora nos confunde, ora nos encanta e por fim nos faz entender a louvável intenção de Nicholas Ray na construção teatral e ao mesmo tempo realista do cenário do Oeste.

Na esteira dos conflitos, a história de rancho e da Union Pacific se misturam, colocando o medo da chegada da ferrovia ao lado de problemas já presentes na pequena cidade. Várias leituras podem ser feitas em torno disso e o mesmo vale para as personagens de Crawford e McCambridge no que toca ao possível caso/sentimento homossexual velado entre elas.

Com uma única grande falha – o incoerente beijo final – Johnny Guitar é uma das grandes obras da transformação e variação do western nos anos 1950. Um ousado filme de Nicholas Ray.

Johnny Guitar (EUA, 1954)
Direção:
Nicholas Ray
Roteiro: Philip Yordan (baseado na obra de Roy Chanslor)
Roteiristas não creditados: Ben Maddow, Nicholas Ray
Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward Bond, Ben Cooper, Ernest Borgnine, John Carradine, Royal Dano, Frank Ferguson, Paul Fix, Rhys Williams
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.