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Crítica | Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato

por Ritter Fan
258 views (a partir de agosto de 2020)

– Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, é o primeiro longa metragem da franquia completamente dedicado à Nova Geração, cuja série havia sido cancelada meses antes da estreia do filme anterior, com a concomitante Deep Space Nine mantida na ar e Voyager nascendo em 1995. Assim, Jornada nas Estrelas estava, de certa forma, ainda bem viva na mente dos fãs de ficção científica em geral e um novo filme, mesmo com a recepção crítica mais fria a Generations, foi logo autorizado, com orçamento 10 milhões de dólares superior.

E, muito semelhante ao que aconteceu na série de filmes com a tripulação original, quando Leonard Nimoy dirigiu dois filmes seguidos, Jonathan Frakes, o ator que faz Will Riker, também o segundo em comando da novíssima Enterprise-E (já que nada sobrou da D ao final de Generations), assumiu a direção, debutando em longas (ele já havia dirigido episódios de A Nova Geração e Deep Space Nine) e permaneceria na direção também do filme seguinte. E, coincidência ou não, assim como Leonard Nimoy, Frake dirige filme que tem na viagem do tempo seu artifício narrativo principal. Melhor ainda, assim como em A Volta para Casa, Primeiro Contato é excelente.

No entanto, as comparações entre as duas obras param por aí: na qualidade e no uso do artifício narrativo da viagem no tempo. Afinal, os dois não poderiam ser mais diferentes em sua “pegada”. Enquanto em A Volta para Casa a ameaça à Terra é externa à narrativa da série – uma sonda misteriosa que tenta contato com as extintas baleias jubarte, destruindo tudo em seu caminho – em Primeiro Contato ela está intimamente ligada à mitologia de A Nova Geração. Os inimigos são os Borg, uma coletividade alienígena parte biológica, parte máquina que vive de “assimilar” vítimas pela galáxia e surgiu no 16º episódio da segunda temporada de A Nova Geração e que, no antológico episódio duplo The Best of Both Worlds, cuja primeira parte encerra a terceira temporada e a segunda começa a quarta, conseguem assimilar o próprio Jean-Luc Picard (Patrick Stewart), capitão da Enterprise. No filme, eles ressurgem atacando a Terra com uma nova arma: uma esfera que cria um vórtex temporal que leva os seres até o passado da Terra, de maneira que eles possam impedir que o “primeiro contato” do título aconteça, ou seja, o momento em que, com o primeiro voo de dobra (velocidade da luz) dos terráqueos, depois da devastação da 3ª Guerra Mundial, todo o futuro utópico que vemos na série, com a Federação dos Planetas Unidos é criada.

Pode-se notar, apenas com a explicação acima, como o roteiro de Primeiro Contato é profundamente enraizado na série, algo que, em mãos menos hábeis, poderia ser um desastre total. Afinal, um filme baseado em uma série de TV ou qualquer outro material pré-existente precisa ter vida independente do que veio antes e quanto mais ele fica preso à mitologia criada, mais potencial existe para tornar-se hermético e compreensível, apenas, para aqueles fãs do material base. Esse, aliás, é um dos pontos negativos do próprio filme anterior da série, curiosamente escrito pelos mesmos roteiristas de Primeiro Contato.

Digo “curiosamente”, pois, diferente do que vimos no filme anterior, uma claudicante e frustrante experiência em narrativa alquebrada, Ronald D. Moore e Brannon Braga acertam no alvo com perfeição agora, enxertando mitologia pesada em um texto quase que completamente livre de didatismo e perfeitamente cadenciado entre o lado cerebral que aprendemos a esperar de Jornada nas Estrelas e o lado aventureiro, também muito presente na série. É como uma aula desse tipo de roteiro, que não perde tempo e já estabelece Picard como alguém traumatizado por sua experiência passada com os Borg e que consegue ainda detectar sua presença, ao ponto dele já saber que os beligerantes seres estão próximos de invadir a Terra, invasão essa que ocorre em pouquíssimos minutos em uma progressão narrativa espetacular que equilibra imagens e diálogos para deixar muito claro o panorama para não iniciados ao mesmo tempo que massageia o ego dos que conhecem a mitologia profundamente. São referências que abundam, mas nunca atrapalham ou seja tornam o foco da ação.

Quando a ação vai para o passado (para eles, pois ainda é o nosso futuro), o mesmo acontece. O inventor do motor de dobra, Zefram Cochrane (vivido pelo sempre ótimo e carismático James Cromwell) é um personagem também com razoavelmente longas raízes em Jornada nas Estrelas (tendo surgido pela primeira vez ainda na Série Original!) é apresentado eficientemente, criando a primeira grande pergunta do filme: o que é ser uma lenda? Afinal, ele, no futuro desse universo, é o homem responsável por absolutamente todo o sucesso da raça humana. Sem escolha, a equipe da Entreprise acaba contando o que ele será e, como um mulherengo que vive bêbado, ele simplesmente não aguenta o bombardeio de informações. E é muito interessante ver como o roteiro aborda isso, criando frustrações para os dois lados. Riker e especialmente La Forge (LeVar Burton) idolatram a imagem que têm de Cochrane, imagem essa que simplesmente não corresponde à realidade. Do outro lado, Cochrane não quer o que ele em tese se tornará. Pensem em quantas personalidades históricas admiramos e o quão diferentes elas devem ter sido na vida real. É fascinante a abordagem aqui.

Enquanto um lado da narrativa lida com a decolagem do foguete Fênix de Cochrane, o outro lida com uma invasão Borg na própria Enterprise, o que coloca Picard em rota de colisão com seus inimigos mortais. E é prazeroso ver Patrick Stewart atuar com todo seu vigor, demonstrando uma obsessão cega em liquidar os seres cibernéticos que não param de assimilar tripulantes da nave sob seu comando. Picard está pronto para sacrificar todos em prol de sua vingança pessoal. Sua bússola moral é Lily Sloane, do passado, que é levada para a Enterprise para lidar com seus ferimentos. Vivida pela ótima Alfre Woodard, a personagem é intensa e poderosa, uma versão feminina de Picard, mas que não perde a cabeça em razão dos Borg. A metáfora literária utilizada por ela é a mais óbvia possível, mas muito percuciente: Moby Dick. Picard é, por alguns momentos, o Capitão Ahab em sua fúria ensandecida para liquidar a baleia branca que o mutilou. Ainda que haja exagero nas menções à obra de Herman Melville, a construção dessa situação é muito bem concatenada dentro do roteiro a ponto de eu realmente ter preferido que o filme focasse ainda mais tempo em Picard em modo vingativo, já que ele não dura muito tempo assim.

Finalmente, ainda dentro da Enterprise, temos a fascinante situação de Data (Brent Spiner). Ele é um androide e, como tal, não pode ser assimilado, não é mesmo? Pense novamente. A Rainha Borg (Alice Krige), personagem complexo criado para o filme, que reúne atributos humanos e robóticos em uma fusão criativa e sensual, mostra a Data que ele pode ser mais humano ainda do que ele já é ao trocar parte de sua pele sintética por pele humana, dando-lhe sensações nunca antes imaginadas. A cadenciada transformação “frankensteiniana” de Data é ao mesmo tempo bela e bizarra, com Spiner trabalhando profundamente seu personagem com nuances de desejo contido, luxúria mesmo em uma performance que parece se mirar na do sensacional Ian Holm como Ash, em Alien, o Oitavo Passageiro. Aqui, há uma nova pergunta e uma que assombra Data e, por que não, nós todos: o que exatamente é ser um humano? Não espere uma resposta, mas a pergunta é muito bem colocada e trabalhada no típico estilo da criação de Gene Roddenberry.

Com um orçamento mais polpudo, a produção pode se dar ao luxo de também se esmerar nos efeitos especiais. Há pouco CGI comparativamente com o filme anterior, já que ele fica quase que completamente concentrado nos 20 ou 30 minutos iniciais em uma bem coreografada batalha espacial contra um Cubo Borg. Depois, os efeitos práticos ganham destaque, notadamente na variedade dos Borg e no detalhamento da Rainha Borg e na transformação de Data. A criação da Enterprise-E, bem diferente da nave anterior, merece destaque, tomando uma forma mais esguia que mantém o espírito das naves da Federação, mas a diferencia de todas as demais até então. O figurino também ganhou redesenho para acompanhar a nova nave, com uma pegada mais sóbria exatamente como a atmosfera do filme merecia.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato é, talvez, a joia da coroa desta franquia cinematográfica. Viagem no tempo, referências fortes à mitologia da série, desenvolvimento de questões inteligente e uma dose da boa e velha aventura são costurados em um roteiro impecável que, por sua vez, é abraçado por uma direção competente e uma produção que faz jus ao texto. É ficção científica da mais alta qualidade para qualquer um, sendo ou não fã da série.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato (Star Trek: First Contact, EUA – 1996)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Ronald D. Moore, Brannon Braga, com base em história de Rick Berman, Ronald D. Moore e Brannon Braga e na criação de Gene Roddenberry
Elenco: Patrick Stewart, Jonathan Frakes, Brent Spiner, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Marina Sirtis, Alfre Woodard, James Cromwell, Alice Krige, Michael Horton, Neal McDonough, Marnie McPhail, Robert Picardo, Dwight Schultz, Adam Scott, Jack Shearer
Duração: 111 min.


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4 comentários

Paco Miguel 16 de janeiro de 2021 - 19:49

Estando em quarentena devido a uma operação,decidi pegar todo o meu acervo de filme e,ou revisitar ou assistir,pois tenho estranha mania de baixar um monte de filme e não conferir a metade desses. Esse estava entre os renegados.

Lembro bem quando surgiu nas locadoras como lançamento,mas na época não tinha dado a menor bola,pois nunca gostei de ST. Tinha até tentado dar uma chance a alguns episódios,que então passavam na saudosa Rede Manchete,mas,ou por impaciencia juvenil ou por ser fanboy de SW sempre havia um que de desconfiança em relaçao a Trek. Só fui realmente gostar do titulo a partir do brilhante trabalho de Abrahms,que me convenceu de que sim,aquilo poderia ser interessante.

No entanto,baixei o primeiro filme de 79 e achei um sono do cão,um puta saco e voltei a estaca zero. Só fui realmente dar uma chance novamente qdo assisti na tv paga “A volta para casa”,a primeira vista me estranhando bastante,mas no fim uma experiencia satisfatoria.

Baixei então “Primeiro Contato”. Do tempo que baixei até agora a pouco,quando terminei a sessão,acho que se foram uns 9 anos rs. Mas,como sempre temos que provar para poder falar,la vai eu. E devo admitir,que baita surpresa!

Não posso dizer que entendi plenamente tudo,pois fica obvio que o filme é uma extensão dos acontecimentos da série,e portanto me despi de qualquer preconceito. Com uma ótima direção,segura em todos os aspectos,fotografia austera,roteiro agil e afiado e boas e convincentes atuações,o filme é empolgante. Com efeitos especiais modestos,a produção caprichou nos praticos,sendo que adorei cada detalhe dos Borgs e mesmo da tripulação,com exceção do Klingon.

E por falar em atuação,Stewart esta soberbo,mixando alienação e vingança,correção e duvida,liderança e confusão. Alfre surge como a ilha segura do Capitão, com atuação correta. Cronwell muito carismático. Mas são Brent e Alice que fazem valer a pena. A quimica entre os atores é espetacular,e o trato do texto nas artimanhas filosóficas e no jogo psicológico entre estes é um tesão. E sim,a Rainha Borg é um espetáculo da cabeça aos pés,seja na maquiagem,figurino ou na atuação sensual da atriz que,se seduz um andróide,como não poderiamos tambem não cair.

Desculpe a longeva resenha,mas realmente curti o filme,e lamento pelo preconceito que tive ao renegá-lo. Mas o PC é isso: um site que nos tira as escamas dos olhos,pois foi por essa resenha que decidi conferir o filme. Adoro o trabalho de voces. E agora,vou tentar baixar “A Ira de Khan”,pois tudo indica tambem ser ótimo. Abraços Ritter!

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planocritico 16 de janeiro de 2021 - 19:50

Que legal seu relato, @disqus_0viOvU67Yd:disqus ! Especialmente por ter sido minha crítica que o levou a finalmente conferir o filme. E fico feliz por ter gostado. Esse para mim, é um dos melhores filmes da franquia, um verdadeiro marco.

Sobre a franquia como um todo, ela exige paciência mesmo e eu te entendo 100% quando você disse que tentou o filme de 79 e ficou com sono, porque aquele filme é CHATO demais… Nada mais é do que um episódio da Série Original só que extremamente alongado.

A Ira de Khan é outro que vale a pena e, mesmo que, como Primeiro Contato, ele faça referência a um grande inimigo da Série Original, ele é perfeitamente apreciável sem conhecimento prévio.

Divirta-se!

Abs,
Ritter.

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Paco Miguel 17 de janeiro de 2021 - 17:56

Ah,tinha me esquecido (que pecado!). Jerry continua inspirado,criando temas discretos dada a austeridade da direção,não permitindo que atraves da Musica o filme se perca (o que infelizmente vemos de balde em mto filme por ai). E SIM,eu adoro o tema criado por ele em 79,meio que “surfando” na onda do tema de John mas com um senso de aventura camp. Honestamente,um dos meu compositores favoritos! Abração Ritter!

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planocritico 17 de janeiro de 2021 - 17:56

O cara é bom mesmo. E extremamente versátil!

Abs,
Ritter.

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