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Crítica | Joy: O Nome do Sucesso

por Matheus Fragata
217 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2

Obs: como o próprio título nacional do longa traz spoilers, a crítica possui algumas revelações do enredo.

Ah, histórias de superação! Lindas, emocionantes, nos fazem chorar. Nos mostram como a vida nos espanca diariamente para então acreditarmos que com nossa determinação, criatividade, boa vontade e esperança, coisas boas surgirão em nosso caminho. Não é por menos que nos solidarizamos com os protagonistas dessas obras, afinal todos são lutadores ferozes, mas também muito vulneráveis. Da safra boa desses filmes temos obras memoráveis como Gênio Indomável, Rocky, À Procura da Felicidade, Carruagens de Fogo, Billy Eliot, Sociedade dos Poetas Mortos e A Felicidade Não Se Compra. Porém, por mais que esse subgênero seja incrivelmente generoso para nos proporcionar histórias incríveis, ele também dá origem a filmes ruins, como este Joy – possivelmente o longa mais medíocre desse ano que mal começou.

David O. Russell estava caminhando lentamente para um declínio criativo em meio a tantas indicações a diversos Oscar – isso afeta a cabeça. Depois do sucesso de um bom filme, O Vencedor e de O Lado Bom da Vida – este, excelente, O. Russel começou a dar indícios de que estava encurralando a própria obra. Isso é nítido em Trapaça, um filme um tanto irregular, mas é aqui em Joy que a coisa desanda a tal ponto que o diretor deixou de ser o queridinho da Academia nas indicações deste ano.

Russell nos apresenta Joy já quando criancinha. Incentivada pela avó, Joy tem sonhos de ser uma grande inventora. Alguém que fará a diferença no mundo. Porém, os sonhos da infância logo são enterrados por um casamento fracassado, um emprego insatisfatório e duas crianças pequenas para sustentar, além de ter que assumir a posição de ser líder da família ao socorrer as neuroses de seus parentes descontrolados. Joy acredita que sua vida será fadada ao fracasso e a depressão, porém, em um dia, a jovem mulher tem uma grande epifania: decide inventar um esfregão revolucionário. A partir dessa invenção, a vida de Joy muda completamente, porém, para atingir o sucesso, ela terá que superar muitos obstáculos.

Logo de início, O. Russell já avisa que o longa é sobre “mulheres fortes”, ou seja, se trata de uma tentativa de roteiro que fisga o feminismo. Porém, assim como em O Vencedor onde o protagonista era avacalhado por sua família neurótica, o mesmo acontece com Joy. A tentativa, ao menos nesse, é abordar a família de uma maneira próxima às comédias de Woody Allen como Tudo Pode dar Certo, mas o que realmente acontece é que tudo dá errado.

Primeiro pelo formato um tanto dúbio escolhido para tratar a narrativa. Russell escolhe usar uma narração over e como já dizia Kaufman em Adaptação: narração over não é para qualquer um. O uso é deslocado ao tentar contextualizar com um formato a la contos de fada, além do uso muito similar à Crepúsculo dos Deuses – só que no clássico agregava alguma coisa para a obra. Nessa narração, o diretor apresenta a malha principal de personagens com uma preguiça notória seguindo a estética de vídeos caseiros/familiares. Exposição jogada ao léu.

Nesses primeiros minutos de Joy, eu mesmo já tive uma catarse. Já desconfiei que O. Russell pesaria a mão tanto no roteiro quanto na direção. Para a minha infelicidade, estava certo. O diretor prejudica o ponto vital de um filme: a relação entre espectador-personagem. Aqui ela é quase inexistente. É atropelada pelo constante vai e vem de personagens coadjuvantes e de novos conflitos que são ignorados tão rapidamente quanto são apresentados.

Para o roteirista, a constante é uma só: malhar sua protagonista até o limite. A personagem sofre abusos psicológicos, é humilhada e desacreditada pela família durante o filme inteiro. Todos a tratam como uma serva, mas o pior é que ela não reage às opressões despropositadas dos outros. Sim, Russell repete a mesma fórmula protagonista vs. família que nós já vimos em O Vencedor. Porém, no filme anterior, havia lapsos de carinho entre as neuroses dos familiares. Como havia dito, em Joy, é um rodeio de personagens tresloucados, caricatos, superficiais, repetitivos e chatíssimos. É possível fazer até mesmo um drinking game de quantas cenas temos que suportar vê-los dizerem abobrinhas à protagonista complacente.

De início, pode parecer que Russell mira somente nos personagens masculinos apresentando-os como imprestáveis, atrasos de vida e danificados, mas não demora muito para que ele também direcione a metralhadora para as figuras femininas da fita. Temos três figuras que castram Joy deliberadamente, ao contrário dos homens que são molengas em sua maioria.

A mãe de Joy, Terry é completamente viciada em telenovelas de qualidade duvidosa. Ela transfere todas as responsabilidades de matriarca da casa para Joy, optando por viver em reclusão, se protegendo de um divórcio, pouco se importando com o destino da filha. Aliás, todas as cenas com a personagem são vergonhosas devido ao teor ridículo dos diálogos e da encenação pobre. A madrasta, Trudy, fonte do dinheiro para Joy se lançar no empreendedorismo é uma personagem que transita entre a confiança na protagonista para então passar a condená-la como todas as outras. Também há sua meia-irmã, Peggy, uma invejosa que se intromete em todos os assuntos para nos enervar com frases desbaratadas em momentos críticos do longa.

Somente a avó, Mimi, é quem sempre apoia Joy seja lá por qual motivo divino. O problema é que mesmo sendo a única personagem do núcleo familiar que nós temos a chance de gostar, ela é desperdiçada pelo filme. Some, reaparece e torna-se um clichê previsível. Já com seus filhos, o relacionamento de Joy também é prejudicado na mão do roteirista. As interações são sempre rasas usando a filha para forçar algum drama frívolo. Já com o filho, O. Russell praticamente oculta o menino durante toda a projeção. Na única cena que Joy é obrigada a interagir com ele, o diretor encobre a figura da criança com uma porta. É absolutamente ridículo e desproposital, pois não há motivo dentro do filme para essa aversão cinematográfica com o garoto.

Já Joy somente é salva pela performance assustadora de Jennifer Lawrence que carrega esse filme nas costas. Dessa vez a indicação ao prêmio Oscar foi muito merecida e se vencer, também não vejo problemas. Lawrence faz milagre e suplementa as deficiências que Joy tem no roteiro. Mesmo que a personagem não reaja às provocações da família, Lawrence nos oferece olhares e expressões que dizem muito do interior da personagem: sempre enclausurada, melancólica e perdida em meio a tantas aventuras de empreendedorismo.

Os talentos de Robert De Niro, Isabella Rossellini, Virginia Madsen e Diane Ladd são completamente desperdiçados com as boçalidades surreais dos personagens.

O roteiro também trabalha mal sua protagonista. É difícil compreender a relação dela com alguns personagens por conta da caricatura dos coadjuvantes. É tudo muito infantil e neurótico para ser levado a sério. As relações mais equilibradas de Joy com sua avó, sua melhor amiga, seu pai e com o ex-marido também não ajudam muito. São todas rasas que nivelam a personagem por baixo servindo como sustentação algumas poucas vezes. Já sobre o trabalho de Joy, também há pouco a ser dito. O roteirista apresenta uma cena dedicada a isso para destacar ainda mais como a vida da mulher é difícil, porém, logo depois ele esquece completamente dessa rotina da personagem.

Russell também define mal o desenvolvimento da protagonista. Durante o longa, Joy tem três catarses – quando o normal é ter apenas uma. O problema é que as três catarses são repetitivas servindo apenas para mover a personagem atrás de seu sonho ou para resolver algum problema. Aliás, é risível ver como ele lida para solucionar os múltiplos conflitos que ele cria durante a jornada da inventora. Muitas vezes as coisas são omitidas para o espectador, são resolvidas via deus ex machina ou são ignoradas. Também pela pressa em contar muito e não contar nada, Russell dificulta o processo para nós assimilarmos sobre a situação financeira real na qual Joy se encontra – principalmente quando o esfregão dela começa a fazer sucesso.

Porém, nem mesmo a megalomania e presunção de David O. Russell conseguem estragar o filme por completo. Toda vez que a narrativa se afasta do ambiente claustrofóbico e irritante da família de Joy, o longa ganha um vigor absurdo. Isso se dá com a apresentação do personagem do sempre ótimo Bradley Cooper, Neil Walker, um figurão de uma rede televisiva. Aqui, o roteirista apresenta material bom, enfim. Mostra a voracidade do consumo das televendas, do crescimento do setor, da direção dos programas, além de um bom establishing histórico sobre o assunto – algo muito pouco explorado pelo cinema por enquanto. Nesse microcosmo, Russell traz as melhores cenas do longa com muito vigor de câmera, direção, trilha musical e montagem. Finalmente vemos o diretor brilhar. Porém, rapidamente isso tudo é cortado para retornarmos para mais sequências chatas com a família de Joy. Além disso, o texto se contradiz em uma das viradas mais importantes sobre as chances da protagonista na televisão. Um erro crasso que poderia ser limado facilmente na montagem.

Nessa dicotomia da televisão entre a mãe, Terry, e Joy, Russell até apresenta uma camada mais complexa. Enquanto Terry se limita, aliena e acovarda diante de telenovelas sufocantes, Joy tem a oportunidade de expandir, extravasar, se revelar, consolidar seu produto e provar seu valor. É um contraste sutil e muito interessante. Fiquei até surpreso que o diretor não tenha martelado isso de modo explícito, nada elegante.

No campo da direção, Russell atenta menos contra a sua obra, mas ainda não foge da má realização. O trabalho de movimentação de câmera com steadicams está melhor do que nunca conferindo a boa agilidade de cena presente em seus filmes. O diretor também consegue apresentar bem os objetivos de Joy, dizer o que ele quer com a personagem. Fora isso, entrega cenas boas – a maioria fora do núcleo da família, ainda que ele use técnicas ultrapassadas e clichés para montar as sequências – como a do pitch do produto de Joy. Também há uma boa apresentação para o personagem de Bradley Cooper. Ele opta por revelar Neil Walker em partes, enfocando primeiro nas mãos dele afim de revelar um suntuoso anel indicando poder e riqueza.

Enquanto entrega momentos pontuais satisfatórios, Russell esbanja um trabalho ruim na maioria do filme tedioso. Em uma cena em particular, o andamento é tão artificial e bizarro que chega a assustar. Reparem quando Joy, Trudy e os outros familiares se reúnem para observarem um questionário que a viúva faz com a protagonista. A execução é uma vergonha, pois, além do teor do texto ser ruim, o diretor insere a amiga de Joy em algumas inserções nada funcionais para dar prosseguimento à cena. Até mesmo ele sabe que seus personagens são tão repetitivos que é preciso outro fator para as coisas se movimentarem no filme.

Em outro momento, na verdadeira primeira boa cena do filme, Russell estraga tudo novamente ao dar mais um desfecho apressado, além de fazer a protagonista ser hostilizada por uma estranha no estacionamento do mercado. Também, durante a apresentação do esfregão no programa televisivo, Russell conclui tudo com pressa. Não somente aí, o diretor tem pressa até para terminar o filme. Tanta pressa que coloca um flash forward para revelar o grande futuro glorioso que a vida reserva para a personagem. Não satisfeito, na sequência final, o diretor consegue criar uma cena que mistura um plano sequência inspirado em A Invenção de Hugo Cabret fornecendo um tom tosco resultante da mistura adicional com Cidadão Kane e O Poderoso Chefão da matriarca de sucesso poderosa facilitadora de sonhos impossíveis. É risível, mas essa não era a intenção do cineasta.

Joy é o ponto derradeiro que explicita como o queridinho do Oscar de outrora entregou um produto ruim. Em sua pressa de criar conflitos, tornar sua protagonista amorfa que nunca reage às loucuras de sua família, David O. Russell esquece da boa comédia, do drama bem dosado e do prosseguimento natural do desenvolvimento da história durante o filme. Apesar de contar com algumas boas cenas, da excelente trilha musical e da forte presença e bom trabalho de Jennifer Lawrence no elenco, Joy simplesmente não vale a pena em meio tantas fragmentações tresloucadas. É um filme que traz uma história de superação como qualquer outra, porém sem o encanto e paixão presentes em outros longas clássicos.

Joy é uma tristeza cinematográfica.

Joy: O Nome do Sucesso (Joy, EUA, 2015)
Direção:
David O. Russell
Roteiro: David O. Russell
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Édgar Ramírez, Diane Ladd, Virginia Madsen, Isabella Rossellini, Dascha Polanco, Elisabeth Röhm, Susan Lucci.
Duração: 124 minutos.

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11 comentários

LexGirl 23 de janeiro de 2016 - 01:54

Melhor critica sobre o filme. Concordo com tudo e olha que eu nunca concordo com nada

http://i.imgur.com/hikXbRE.gif

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Matheus Fragata 24 de janeiro de 2016 - 15:43

Lex, fico lisonjeado, tanto pela opinião quanto pelo gif do saudoso Alan Rickman. Ganhar aplausos de Snape não é para qualquer um. Retorne para mais críticas e comentários! Abs!

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Maitê 22 de janeiro de 2016 - 21:24

Caramba, Matheus, eu é que fico falida ao comprar ações da Petrocinzas e é você que fica mal-humorado. Vou seguir sua crítica, porque como sempre está bem embasada e amanhã vou assistir O Novíssimo Testamento e hei de sobreviver na pátria dos petr… Deixa prá lá. Abraços.

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Matheus Fragata 24 de janeiro de 2016 - 15:55

Maitê, você precisa parar de comprar ações da Petrobrás. As bananas estão mais caras já. O Novíssimo Testamento? Os Dez Mandamentos? Abraços!

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Maitê 25 de janeiro de 2016 - 18:37

Os Dez Mandamentos, estou fora! Eu falava de O Novíssimo Testamento, filme indicado pela Bélgica ao Oscar 2016. Imagine o mote do filme “Deus existe e mora na Bélgica.” Dá medo desse Deus, porque imagino que exista tantos maridos e pais assim…. Eu gostei.

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Gabriel 21 de janeiro de 2016 - 12:28

Heey Matheus!

Concordo em parte com a sua crítica.

Achei a trama de Joy muito inconstante e concordo com os péssimos momentos do núcleo familiar da Joy. É um saco…

Adorei a química dela (de novo) com o Cooper e algumas cenas deste núcleo me conquistaram bastante. JLaw está fantástica, como sempre. Criticaram tanto ela, pra no final, ela mostrar novamente o talento que possui.

Daria 3 estrelas ao filme.

Abraço!

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Matheus Fragata 21 de janeiro de 2016 - 14:31

Mas do que discorda especificamente? A família é uma tristeza infindável. Cada cena mais insuportável que a outra. O roteiro é um desastre completo ao ser tão arbitrário para resolver os problemas que ele mesmo cria. A quantidade absurda de personagens caricatos, céus.

Lawrence mereceu a indicação. Pela segunda vez eu concordo com a indicação dela ao prêmio, aliás. Praticamente todas as cenas que se afastam da família se sobressaem. As com o Cooper certamente são as melhores e mais bem pensadas. Acreditei, quando ele surgiu, que o filme fosse melhorar bastante. Estava enganado.

Abs!

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Helder Zemo 21 de janeiro de 2016 - 08:39

David O. Russel é um bom diretor, porem muito superestimado pela academia, pra ele nao ter concorrido por esse filme e pq ele realmente é mediocre kkk Uma pergunta primordial, Lawrence merece a indicação por falta de escolha ou ela faz uma intepretação realmente fora da curva??

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Matheus Fragata 21 de janeiro de 2016 - 14:27

Até agora só consigo gostar mesmo de O Lado Bom da Vida, mas ele sabe fazer filmes bons, sim. Helder, você matou a charada. Se até os velhotes do Oscar não conseguiram aguentar Joy, é porque a coisa é ruim mesmo, creia. Lawrence merece a indicação pela personagem. É um trabalho muito bom, mas se for comparar, tem o mesmo nível do desempenho de Wahlberg em O Vencedor – achei os personagens semelhantes também. Dentre o elenco, ela se destaca. Merece estar sim entre as indicadas, mas ainda acho que ela estava fantástica em Silver Linings. Talvez esta seja sua segunda melhor interpretação da carreira. ABS!

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Kate Bishop 21 de janeiro de 2016 - 05:11

tô chocada.

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Matheus Fragata 21 de janeiro de 2016 - 14:24

Yep. Eu também fiquei na cabine.

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