Crítica | Joyland, de Stephen King

Quando Stephen King anunciou em 2012 que seu próximo romance, intitulado Joyland, teria como palco principal um parque de diversões, todos os fãs do autor ficaram extremamente empolgados, afinal, existem poucos ambientes que oferecem tantas oportunidades de transformar o lúdico em horror macabro quanto parques de diversão. Mas o que o autor entrega neste livro não é uma história de terror, pelo menos em sua maior parte, e sim um conto nostálgico sobre a dor juvenil do primeiro coração partido e a chegada da vida adulta.

Na trama, narrada em primeira pessoa, acompanhamos Devin Jones, um universitário de vinte um anos, que no verão de 1973, aceita um emprego temporário trabalhando como assistente em Joyland, um parque de diversões situado em uma pequena cidade litorânea da Carolina do Norte. Entretanto, quando a namorada de Devin termina com ele por telefone, o rapaz entra em uma depressão profunda. Ajudado pelos novos amigos que fez entre os funcionários do parque, o rapaz tenta se recuperar emocionalmente do baque que sofreu, ao mesmo tempo em que se torna obcecado pelo mistério envolvendo supostas aparições fantasmagóricas de uma garota que assombra o trem fantasma há vinte anos, desde que foi morta ali por um serial killer que nunca foi capturado.

 Joyland é um livro mergulhado em nostalgia, um tipo de atmosfera narrativa que King sempre dominou muito bem, vide o seu trabalho em obras como It- A Coisa. O autor faz uma escolha sábia ao situar a trama durante a década de 70, não só para atingir a atmosfera nostálgica pretendida, mas também por obviamente ter consciência de que vai ter bem mais facilidade em entender de forma mais profunda as angustias de um jovem daquele período do que as de um jovem do Século 21. Optar pela narrativa em primeira pessoa, característica relativamente incomum dentro da escrita do autor, também mostrou-se outra decisão acertada devido ao caráter fortemente intimista que é impresso à obra.

 O livro talvez seja uma das narrativas mais ligeiras já escritas em um romance de King, o que por um lado é positivo, pois torna a leitura rápida e fluída. Mas confesso que em alguns momentos achei que um pouco mais de desenvolvimento para alguns personagens teria feito bem para a história, pois Joyland é um livro muito mais de personagens e atmosfera do que de narrativa, vide a competência com que o autor faz o parque de diversões e suas diferentes atrações, como o trem fantasma e a roda gigante Carolina Spin ganhar vida em nossas mentes.

Devin também é muito bem desenvolvido como protagonista, com suas angústias e ansiedades muito bem trabalhadas pela prosa do autor. Embora tenhamos um personagem principal mergulhado em melancolia por boa parte da narrativa, existem momentos de alegria juvenil muito bem inseridos que impedem que a história torne-se pesada demais, como a noite de bebedeira na praia que Devin divide com Tom e Erin, casal de jovens que também estão trabalhando no parque; ou o prazer que Devin descobre em alegrar as crianças que visitam Joyland ao se fantasiar como “Howie: O Cão”, o mascote do parque, uma função que todos os funcionários evitam devido ao calor de ter que usar uma fantasia de pelúcia no Sol, mas que Devin adora. Mas se este núcleo jovem é muito bem trabalhado, outros personagens como a mãe solteira que vive na beira da praia, nas proximidades do parque, junto com seu filho — um menino cadeirante em estado terminal — não são tão bem escritos, parecendo tropos de personagens de King já vistos em outras obras de forma mais eficiente.

 Mas este é um livro de Stephen King situado em um parque de diversões, cenário que pode ser bem sinistro, e parece que o autor se sentiu na obrigação de inserir elementos sobrenaturais e um mistério de assassinato na trama. Fica-se com a impressão de que o escritor não está realmente interessado na narrativa policialesca e sobrenatural que surge na segunda metade da obra. Ele está muito mais interessado na história de amadurecimento de Devin superando a perda do primeiro amor e de como a amizade com funcionários e clientes que vai conhecendo em sua estadia no parque (e na cidade) o ajudam a crescer, do que em espíritos fantasmagóricos ou assassinos em série. Senti que esses elementos acabaram entrando na trama mais como uma espécie de obrigação que o autor impôs á si mesmo do que parte natural da evolução da narrativa.

 Claro, devo admitir que eu ficaria um pouco frustrado se King usasse um cenário tão horrorífico como um parque de diversões e não se aproveitasse dele. Mas terminando de ler o livro, chego à conclusão de que o romance seria muito melhor se apenas focasse em seus aspectos dramáticos e sua história de amadurecimento, deixando os aspectos sobrenaturais e policialescos para outra ocasião. Isso acaba dando ao livro um sabor bem agridoce, já que estes aspectos que escapam ao caráter mais intimista que a obra mantém na maior parte do tempo ganham importância numa velocidade incômoda, sem a devida construção, e são resolvidos na mesma velocidade incômoda.

 Ao lerem Joyland, não esperem um suspense e terror mais intenso como o existente nas obras mais famosas do autor, pois estes elementos surgem aqui quase como um desnecessário cartão de ponto. Ainda é uma leitura que vale a pena por seus personagens simples, mas cativantes, e o drama contado com bastante sensibilidade por King. Mas acaba pecando por apresentar certa falta de identidade em sua segunda metade, quando o autor abandona a narrativa intimista e singela que vinha trabalhando para entregar de forma rápida e burocrática o que supostamente se espera dele.

Joyland (Estados Unidos, 2013)
Autor: Stephen King
Editora: Suma das Letras, 2015.
Tradução: Regiane Winarski
239 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.