Crítica | Ju-On – O Grito 2

Em Ju-On: O Grito 2, o cineasta Takashi Shimizu traz para o público o que podemos chamar de um bom filme, mas com a mesma premissa, num ciclo de repetições que depõe contra a criatividade do realizador, um homem que possui domínio da técnica, mas parece gostar de contar sempre a mesma história para o público, afinal, as perseguições de Kayako e Toshio neste segundo filme não perfaz nada de diferente do que os espectadores já haviam contemplado antes. Há, não podemos deixar de exaltar, um interessante jogo metalinguístico com a linguagem audiovisual e uma ousada crítica social aos desserviços da mídia, seara discursiva tão tenebrosa quanto o campo da comunicação ocidental, focado na tragédia e na capitalização da miséria alheia como estratégia de manutenção da audiência.

Mais uma vez, somos informados que diante das circunstâncias expostas pelo filme, isto é, a morte de alguém durante um momento de ódio, uma maldição se estabelece. É assim que ao longo de seus 92 minutos, Ju-On: O Grito 2 apresenta o desdobramento de situações, tendo como centro a maldição, com personagens em “crise” a gravitar em torno de seus males. Há recapitulações da história anterior, tendo em vista situar os espectadores diante dos fatos que serão explanados. Uma equipe de televisão resolve promover a investigação acerca de uma lenda urbana sobre uma suposta maldição envolvendo a casa que é o ponto de contato entre humanos incautos e a maldição que se alastra com aqueles que decidem adentrá-la.

O problema é que não parece ser bem uma lenda, mas uma maldição de verdade, pois acontecimentos macabros começam a ocorrer com os envolvidos na produção sensacionalista, responsável por buscar uma espécie de reencenação de fatos, sem sequer imaginar que a ficção está prestes a se provar realidade. Os tons macabros começam a se expandir e o envolvimento dos personagens com a dupla Kayako e Toshio ameaça as suas respectivas existências. Todos que cruzam os caminhos de tais entidades encontram um final nada desejável, padrão narrativo da franquia, afinal, em todos os filmes, não há possibilidade de escapatória para os que tem a infelicidade de cruzar o caminho da maldição.

Sob a direção de Shimizu, desta vez, acompanhamos mais uma narrativa despreocupada com a linearidade, tampouco com a exatidão dos fatos contados. O que temos é um conjunto de blocos narrativos que dialogam bem rapidamente entre si, envolvidos apenas pela maldição que centraliza a história, o que faz com que os seus personagens tenham o habitual encontro fatídico com as entidades que os arrastam para o além. No entanto, mesmo que tenha caráter episódico, Ju-On: O Grito 2 focaliza um pouco mais na trama da atriz, espécie de ponto nevrálgico da história. A tal atriz citada é Kyoko (Noriko Sakai), jovem conhecida por suas incursões em filmes de terror, espécie de Jamie Lee Curtis do cinema japonês. Ela está envolvida na gravação de um especial de TV, telefilme sobre fantasmas, comandado por Kusuke (Shingo Katsurayama).

Em seu trabalho, ela ainda divide o tempo para dar atenção ao marido, o jovem Masashi (Ayumu Saitô). Certo dia, eles sofrem um acidente de carro logo depois de atropelar um gato e ter contato com uma entidade no automóvel que os guiava. Ele morre e ela fica perdida ao trafegar pela história sem compreender a presença do ominoso em seu cotidiano, principalmente depois de algumas revelações sobre a sua gravidez e o possível fato de ser uma possível veiculadora do mal dentro de si. Tanto ela quanto qualquer um que cruza o seu caminho encontra um destino abominável. Apenas questão de tempo, distribuído no filme entre os personagens aparentemente isolados e os recursos narrativos mirabolantes para reforçar que estamos diante de uma história de horror genuinamente nipônica.

Um dos recursos interessantes da empreitada foi empregar a câmera aparentemente solta, como se fosse um ponto de vista a vagar pelas ruas de Tóquio, espécie de alegoria para os fantasmas que trafegam pela cidade em busca de suas próximas vítimas. É um abordagem de linguagem oriundo de uma história que se preocupa com a forma que será contada. Temos os bons efeitos visuais de Majime Matsumoto, o design de som de Masaya Kitada, inquietante e atmosférico, o design de produção de Toshiharu Tokuia, captado pelas imagens produzidas no setor de direção de fotografia, assinado por Takushô Kikumera, além da básica, mas funcional trilha sonora de Shiro Sato, menos imponente que os efeitos sonoros de Kitada, mas ainda assim, um recurso que sabe se fazer presente. Importante lembrar que o cineasta que comanda a produção assumiu estar conectado profundamente com todos os setores, sendo colaborador, inclusive, dos famosos efeitos de ordem sonora, emitidos pelas espasmódicas entidades do filme.

Ademais, o que podemos reforçar é o que foi considerado na abertura desta reflexão, isto é, a observação acerca do aproveitamento que a mídia faz em relação ao potencial dramático da história de Toshio e Kayako, vítimas de uma tragédia que pode ser alegoria dos tantos acontecimentos mortais que ocorrem cotidianamente nos quatro cantos do planeta, parte de nossa existência envolta pelo aterrorizante tecido da violência. O processo de narração com o filme dentro do filme é também um dos acertos do filme, pois potencializa os temas abordados no desenvolvimento crítico da história, sem precisar impactar com sangue e gore, marca registrada de Takashi Shimizu, cineasta que logo adiante iria partir para o comando as versões estadunidenses de seu “bestiário”.

Ju-On – O Grito 2 (Ju-On 2) — Japão, 2003
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Takashi Shimizu
Elenco: Megumi Okina, Misaki Itô, Misa Uehara, Yui Ichikawa. Kanji Tsuda, Kayoko Shibata, Yukako Kukuri, Yuya Ozeki, Takako Fuji
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.