Crítica | Juan dos Mortos

Zumbis são universais e Cuba, apesar de isolada, não poderia deixar de ter seu exemplar desse sub-gênero popularizado por George A. Romero a partir de seu seminal A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Escrito e dirigido por Alejandro Brugués em seu segundo longa e estrelado pelo engraçado Alexis Diaz de Villegas, no papel-título, Juan dos Mortos é uma refrescantes pegada cômica para a praga dos desmortos na linha do britânico Todo Mundo Quase Morto, de sete anos antes.

Juan (de Villegas) é um dos maiores especialistas cubanos na arte de não fazer absolutamente nada. Quando somos apresentados ao personagem, ele está boiando em uma balsa improvisada junto com Lázaro (Jorge Molina), seu melhor amigo Lazaro, em uma sequência criada para emular a fuga de cubanos para o sonho de viver em Miami. Mas, claro, isso dá muito trabalho e os dois estão mesmo é pescando, mas sem se esforçarem muito na tarefa, não tenham dúvida.

A vida não poderia ser melhor – considerando-se que ele moram em Cuba, claro – até que eles se deparam com um corpo putrefato boiando no oceano, corpo esse que, de repente, ganha vida, obrigando-os a sacudir o torpor que pesa sobre seus ombros e a matar a criatura novamente a golpes de remo. Mesmo assim, porém, esse bizarro evento quase não registra na cabeça de Juan, que simplesmente prefere voltar para sua vidinha normal de todos os dias. Esse prelúdio serve de tira-gosto para o retorno de Juan e Lázaro para Havana, momento em que as semelhanças com a citada obra de Edgar Wright fica mais evidente, já que a percepção de que a infestação de zumbis aconteceu se dá vagarosamente, ao mesmo tempo enervando e divertindo o espectador tamanho é o absurdo da situação que, ao mesmo tempo, cumpre sua função de criticar as rotinas diárias, o trabalho repetitivo e o pouco que nos preocupamos com quem está ao nosso redor.

Sem perder muito tempo com divagações e trabalhando em cima da estrutura clássica de filmes do gênero, o roteiro de Brugués logo acrescenta novos personagens à história, como Vladi (Andros Perugorría), filho de Lázaro e a bela Camila (Andrea Duro), filha de Juan, , além dos pitorescos China (Jazz Vilá), um travesti, e Primo (Eliecer Ramírez), um brutamontes que tem medo de sangue, o que garante muita sanguinolência de baixo orçamento que jamais descamba para o gore exagerado, daqueles que chamam atenção para si mesmo, e sempre mantém a atenção do espectador aguçada. A narrativa simples logo evolui graças ao oportunismo de Juan que logo passa a oferecer serviços de extermínio por telefone a partir do telhado de seu sobrado, o que empresta aquela camada crítica sempre bem-vinda que comenta a vida do cubano que precisa saber se virar em todas as circunstâncias, por mais adversas que sejam, em razão da inexistência de fartura na ilha da família Castro e amigos.

Falando na ilha, a Havana dilapidada pela ação do tempo e inação do (des)governo é muito bem utilizada como constante subtexto crítico. Afinal, pouco foi necessário trabalhar em termos de design de produção para fazer com que a cidade parecesse o cenário de um apocalipse zumbi. E não pensem que estou falando mal de uma mítica cidade que muito enxergam como sendo o paraíso que simplesmente não é, pois a capital cubana é exatamente isso que Alejandro Brugués quer passar com suas lentes ferinas: uma cidade destroçada, que parou no tempo (e sim, já estive lá…). A fotografia inclusive amplifica essa sensação trabalhando tomadas em plano geral que são cuidadosas em transformar o dia-a-dia em fim de mundo, com uma paleta de cores árida, mas que não deixa de pontilhar as belas cores vivas dos figurinos locais.

Além disso, o sistema castrista é demolido em diversos momentos, especialmente quando vemos que a primeira coisa que o governo faz é culpar os americanos pela praga (os zumbis são considerados dissidentes políticos e assim referidos durante todo o filme). Mas Brugués não para por aí e desfila uma lista de críticas ao comunismo imposto na ilha. Ao mesmo tempo, a existência de uma pegada tão abertamente crítica é interessante, pois mostra uma certa abertura do castrismo às pancadas mais contundentes, já que a obra foi produzida com dinheiro cubano (além de espanhol). No entanto, tenho para mim que o equilíbrio do roteiro de Brugués entre a crítica ao sistema e o nacionalismo (Juan é um orgulhoso cubano, que não larga a pátria, mesmo com todos os defeitos) é que permitiu que esse filme saísse da maneira que saiu. Não que Brugués tenha se sentido compelido a fazer o que fez simplesmente para usar o dinheiro de Cuba em sua produção. Acho, genuinamente, que esse tal equilíbrio já fazia parte da história antes mesmo de sua execução. E, no final das contas, é isso que tira Juan dos Mortos da vala comum.

Com efeitos práticos típicos de filmes B, algo que o orçamento enxuto exigia, Juan dos Mortos é uma divertida sátira que usa os zumbis como elemento catalisador bem na linha romerista. Brugués poderia ter sido mais econômico na duração da obra que, apesar de relativamente curta, acusa uma certa lentidão na narrativa lá pelo segundo terço que poderia ter sido evitada com algumas podas aqui e ali. Mas não é nada que retire o brilho e a simpatia da película e de seu esperto, mas preguiçoso protagonsita.

Juan dos Mortos (Juan de los Muertos, Espanha/Cuba – 2011)
Direção: Alejandro Brugués
Roteiro: Alejandro Brugués
Elenco: Alexis Díaz de Villegas, Jorge Molina, Andros Perugorría, Andrea Duro, Jazz Vilá, Eliecer Ramírez, Blanca Rosa Blanco, Susana Pous, Antonio Dechent, Eslinda Núñez, Elsa Camp, Pablo Alexandro González Ramy, Juan Miguel Mas, Argelio Sosa, Marisol Egurrola
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.