Crítica | Juan e Evita – Uma História de Amor

estrelas 3,5

Quem lê o título bobinho desse filme – mais uma mancada da tradução brasileira – acredita que vai ao cinema ver a história de amor entre Juan e Eva Perón. Mas não vai não. Juan e Evita é  quase que unicamente a história da ascensão de Perón ao poder na Argentina, usando como fina camada narrativa a relação pessoal do Coronel com a atriz de rádio por quem se apaixonou logo após as mobilizações sociais empreendidas por seu governo (ele era o militar responsável pela pasta do trabalho) para solidarizar com a população de San Juan, abalada por um forte terremoto em 1944.

É claro que há cenas unicamente voltadas para o casal, o flerte e o complicado e curto relacionamento entre eles, devido a morte de Eva, mas esse não é o tema principal do filme. O ponto de partida, como dito acima, foi o terremoto de San Juan, mas a partir daí, vemos as ideias de tendência populista de Perón serem aplicadas em momentos cruciais e num curto espaço de tempo na Argentina, alcançando uma fama que lhe valeria apoio popular num momento delicado, quando foi preso, e três futuros mandatos presidenciais.

Dirigido por Paula de Luque, Juan e Evita é mais um capítulo das atuais páginas de revisão da História da América Latina, tendo em cada país de notável indústria cinematográfica uma onda de filmes revisionistas, cada um procurando defender ou mostrar um lado da moeda, algo que, em se tratando de História Latino-americana, terá ainda muitos e muitos lados para serem mostrados.

A produção de Juan e Evita é bem simples e a diretora se vale de alguns materiais de arquivo para enriquecer o roteiro e trazer um pouco do momento histórico retratado para seu filme, o que se revela uma escolha acertada, em primeiro lugar, porque ela não exagera nesse uso; em segundo lugar, porque atribui à película uma identidade que não necessariamente faz parte dela (o documentário) e que ajuda a classificar melhor o desenho de produção, mesmo com seus obstáculos técnicos, algo como “cenas de um documentário de época”. O amplo uso de fades entre as cenas e a divisão em capítulos aumentam ainda mais essa percepção.

Contudo, esse mesmo acerto estético se constituiu um obstáculo para o andamento do filme. A despeito da montagem ser eficiente ao tornar orgânicos tantos blocos separados por fades, eles são um pecado pelo excesso, dificultando a criação de uma unidade maior na obra, o que cairia melhor num filme com esse assunto, como a construção de um fluxo temporal ininterrupto, na minha opinião, único uso narrativo ideal para se trabalhar dados sequenciais (em linha do tempo) no cinema.

Osmar Núñez e Julieta Díaz estão incríveis como Juan e Evita, tanto na aparência, resultado de um ótimo trabalho de maquiagem da equipe, quanto pela caraterização gestual e vocal, muito parecidas com as dos políticos que representam. O elenco de apoio está correto, mas nada brilhante. Destacamos apenas a atuação de Fernán Mirás, como Ávalos, cuja presença mostra uma interessante evolução psicológica no filme, acompanhando as mudanças políticas que ele ajudou a moldar.

Juan e Evita é uma revisão história de um momento crucial para melhor entendermos a América Latina hoje, o grito e vitória do populismo. Mesmo que a diretora tenha uma tendência puxa-saquista em sua abordagem (ninguém está livre disso, e creio que a essa altura do campeonato o leitor já tenha abandonado a utopia da neutralidade na arte – qualquer arte), o resultado de seu filme é satisfatório, tendo até a capacidade de emocionar o público com toda a mobilização e conquista dos trabalhadores, mesmo que o processo para isso tenha sido cinematograficamente pouco trabalhado. E o melhor ainda é que não temos a face “Madonna” de Evita Perón ou um Juan Perón caricato, monstruosamente comunista ou falso-esquerdista, como é pintado em obras cinematográficas nos últimos anos. Não caindo no oito ou no oitenta, Paula de Luque dirige um filme que vale a pena ser visto tanto por sua proposta quanto por seu conteúdo histórico.

Juan e Evita – Uma História de Amor (Juan y Eva) – Argentina, 2011
Direção: Paula de Luque
Roteiro: Paula de Luque
Elenco: Osmar Núñez, Julieta Díaz, Alfredo Casero, Fernán Mirás, Sergio Boris, María Ucedo, Alberto Ajaka, Lorena Vega, Fabián Arenillas, Gustavo Garzón, Pompeyo Audivert
Duração: 110 minutos

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.