Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.
A impressão que fica, ao término dos dois primeiros episódios que inauguram a terceira temporada do aclamado anime Jujutsu Kaisen, agora no arco do Jogo do Abate: Parte I, é a compreensão de que o trauma coletivo de Shibuya não foi um fim, mas o catalisador de uma arquitetura narrativa muito mais densa e impiedosa. Nestes dois episódios que inauguram o pós-incidente, o que se observa não é apenas a continuidade das boas cenas de ação – as quais já elenquei como excelentes na crítica da primeira temporada –, mas uma dilema sofisticado entre a herança maldita (vista nas milhares de mortes causadas pela possessão de Sukuna no final da primeira temporada) e a necessidade de expiação. A série abandona o deslumbramento juvenil por completo para abraçar uma sobriedade melancólica, em que a beleza das imagens – agora mais do que nunca – serve como um registro de sensibilidade no qual a violência não é um espetáculo vazio, alegável em certos trechos de Shibuya, mas uma imersão na psique de seus protagonistas.
A utilização de uma nova estética que flerta mas com o contemplativo confere à fotografia uma segurança cromática que permite à poesia visual se manifestar brilhantemente nos cenários de devastação. A luta entre Choso e Naoya Zen’in apresenta, a meu ver, o melhor uso do preto e branco 3D nas animações que já assisti; uma escolha técnica que, longe de ser um mero recurso estilístico, funciona como o alicerce para que o sistema de lutas alcance sua maturidade máxima, tornando-se visualmente instigante e narrativamente de alto nível.
No primeiro episódio, Execução, a narrativa organiza-se em torno das cinzas de Tóquio. Após a queda de Naobito Zen’in, a leitura de seu testamento introduz o arrogante Naoya, célere, mas sua imponência nos novos desafios de Jujutsu Kaisen é estabelecida de forma cirúrgica. O episódio ganha contornos de tragédia quando Yuta Okkotsu, voltando em um grande estilo, surge como o executor implacável. A presença de Yuta traz uma competência rara à tela: como sempre, mas agora magistralmente, ele não precisa de alardes para demonstrar sua força física imensa (o conflito dele com Yuta revela isso, num embate entre força física máxima e o melhor uso de energia amaldiçoada deste Satoro Gojo). O momento em que Yuji tem seu coração apunhalado por Yuta – com a icônica Rika voltando – é de uma dor lírica, apesar de não imprevisível, mas muito bem montada. Só não acho criativa a sempre ferramenta de reversão de feitiço para curar os protagonistas à beira da morte – lembremo-nos de Gojo, no filme protagonizado por Yuta.
O segundo episódio, One More Time, começa com a revelação de que Yuta agia sob as ordens de Satoru Gojo para proteger Itadori. Aqui, a narrativa organiza-se em torno de um conceito de “conserto”: Yuta, marcado por suas próprias experiências, enxerga em Yuji um reflexo de sua solidão, ao mesmo tempo que deve lealdade a Satoro Gojo. O destaque absoluto reside na revelação da ascendência de Yuji como filho de Kenjaku; a imagem de sua mãe, Saori, com as marcas de pontos na testa, é uma mensagem que resolve de forma brilhante a lacuna narrativa proposta no passado, provando-se narrativamente mais bem elaborada do que qualquer arco da temporada anterior. O ponto é que a terceira temporada equilibra melhor que a segunda as cenas de luta com a amarração narrativa.
Embora se possa argumentar que a aliança imediata entre Yuji e Yuta resolve de forma excessivamente rápida a tensão do final de Shibuya, essa decisão de direção espelha a urgência narrativa desse novo arco. O surgimento de Megumi Fushiguro (Yuma Uchida) para anunciar os Jogos de Extermínio de Noritoshi Kamo redireciona o foco para uma coletividade inesperada – temos até um espírito amaldiçoado na equipe. O que se observa na tela é uma atmosfera de urgência: os personagens, em suas dores e solidões, são imperfeitos, buscando no outro uma forma de sobrevivência. A caminhada de Yuji, Choso e Megumi até a câmara subterrânea de Tengen, onde reencontramos a resiliência de Maki Zen’in (Mikako Komatsu) e a presença de Yuki Tsukumo (Nana Mizuki), consolida os dois primeiros episódios como excelentes preparativos para o futuro narrativo da série.
Jujutsu Kaisen – 3X01 e 2: Execução (執行) e One More Time (もう一度) — Japão, 2026
Criação: Gege Akutami
Direção: Shota Goshozono
Roteiro: Hiroshi Seko
Elenco (Vozes): Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur
Duração: 24 min por episódio
