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Crítica | Jujutsu Kaisen – 3X03: Sobre a Migração à Extinção

Maratona para o Enem em Jujustu Kaisen.

por Ismael Vilela
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spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.

Existe aqui uma tensão entre o fragmento expositivo – que é esse próprio episódio – e a totalidade da tensão que a temporada promete, sendo que o terceiro episódio de Jujutsu Kaisen se alicerça justamente em sacrificar-se para uma temporada mais assimilável, revelando-se um capítulo que, paradoxalmente, encontra sua fragilidade ao aceitar a imperfeição de sua cadência rítmica extremamente preguiçosa para construir um mosaico de conceitos e regras que possivelmente salvará a temporada. Já adianto: o fato do episódio ser importante para explicação geral da série não impede que seja tenebrosamente preguiçoso em termos narrativos. Ao transpor para a tela – sob a didática quase vestibulanda de Tengen – a densidade do arco Migração à Extinção, a direção assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de didatismo no qual a exposição não é apenas um detalhe, mas uma ferramenta estética de transição que, infelizmente, interrompe a fluidez visceral que vínhamos acompanhando.

Sobre a Migração à Extinção (até o título do episódio é excessivamente pedagógico, pasmem), revela-se como um exercício arriscado em termos de convenções narrativas. A utilização de uma aulinha interminável é, sem dúvidas, uma muleta estética – o que o olhar mais cínico poderia classificar como um powerpoint místico – para conferir à trama uma segurança informativa necessária para o que está por vir. Contudo, essa escolha, longe de ser uma virtude absoluta, atua como um abismo de má narração que parece querer abandonar toda a tensão proposta pelo final cataclísmico de Shibuya. Ao resolver as proposições mais urgentes, como as sentenças de morte de Yuji Itadori e as consequências políticas para a Escola de Tokyo em apenas dois episódios, a série incorre em uma quebra de linearidade que soa maldosa à narrativa tão bem construída, outrora em tensão constante.

Neste episódio, continuamos a acompanhar Itadori, Megumi Fushiguro, Maki Zen’in e o restante do grupo até a tumba de Tengen. A entidade onisciente, que sustenta as barreiras do Japão, apresenta-se como um eixo de sofisticação humanista e grotesca. A voz de Tengen guia o espectador por uma torrente de informações sobre Kenjaku, o ser que outrora habitou o corpo de Noritoshi Kamo e agora reside na forma física de Suguru Geto. Aqui, a animação gameficada cuidadosa tenta mitigar a pobreza textual herdada do mangá, onde a imortalidade de Tengen é explicada não como imunidade ao envelhecimento, mas como uma evolução forçada pela ausência do Vaso de Plasma Estelar, Riko Amanai, assassinada anos antes por Toji Fushiguro. Veja, isso poderia muito bem ser melhor apresentado como um plot twist, mas se rende a um despejo de informações por todo o episódio.

A revelação de que Tengen agora é mais próximo de uma maldição do que de um humano se junta ao objetivo de Kenjaku, exposto com clareza cirúrgica: forçar a evolução da humanidade através da técnica de Manipulação de Espíritos Amaldiçoados, assimilando a população a Tengen para espalhar o mal pelo mundo. É uma estrutura que organiza a narrativa em torno de um “aquecimento” para o horror que se seguirá pelo restante da temporada. Por isso a ideia de sacrifício: morno, o terceiro episódio só serve para, reitero que preguiçosamente, preparar o terreno para o que está por vir.

A maior parte do episódio é dedicada ao detalhamento do Jogo do Abate. Toda essa quebra de ritmo foi feita com um objetivo claro: limitar os conceitos a um único momento de imersão teórica. As dez zonas de batalha, ou Colônias, espalhadas pelo Japão (excluindo Hokkaido), são apresentadas como o palco de um ritual que exige pactos e regras estritas. A narração dos fatos nos leva a entender que os jogadores, despertados pela Transfiguração Ociosa, devem entrar em uma colônia em 19 dias sob pena de anulação de suas técnicas – o que presumivelmente envolve a morte. O sistema de pontos, em que um feiticeiro vale cinco pontos e um não-feiticeiro vale um, e a possibilidade de negociar novas regras com o Mestre do Jogo ao atingir 100 pontos, transformam o anime, momentaneamente, em um exercício de estratégia fria, uma gamificação que admito gostar. 

Entretanto, é impossível ignorar que a série retorna a uma certa preguiça textual após uma temporada primorosa. A fidelidade ao texto original aqui funciona como uma faca de dois gumes; se por um lado o filme da alma do mangá é preservado, por outro, a sofisticação contemplativa é sacrificada em prol de uma aula expositiva. Choso e Yuki Tsukumo decidem ficar para trás para proteger Tengen, enquanto o restante do grupo se divide em uma operação de resgate e infiltração. A busca pela “porta dos fundos” do Reino Prisão para libertar Satoru Gojo e a necessidade da ajuda da jogadora Hana Kurusu, o Anjo, estabelecem os próximos passos com uma precisão que beira o mecânico. Não há surpresa nenhuma, ao menos no que tange à divisão de grupos proposta pelo texto.

A transição da dor quase lírica e a tensão contante de Shibuya para o planejamento logístico do Jogo do Abate é brusca. As histórias entrecruzadas de Maki, que parte para recuperar ferramentas amaldiçoadas no cofre Zen’in, e de Yuji e Megumi, que saem em busca do veterano Kinji Hakari, parecem isoladamente rasas neste estágio.

Para o espectador que busca a fluidez orgânica da ação (que elogiei excessivamente em Shibuya e nos dois primeiros episódios da temporada), este episódio situa-se em um terreno perigoso de estagnação informativa. É um capítulo regular, necessário para a fundamentação do todo, mas que falha em manter a chama da urgência acesa, carecendo da alma avassaladora que define os melhores momentos da obra.

Jujutsu Kaisen – 3X03 Sobre a Migração à Extinção (死滅回遊について) — Japão, 2026
Criação: Gege Akutami
Direção: Shota Goshozono
Roteiro: Hiroshi Seko
Elenco (Vozes): Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur
Duração: 24 min.

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