Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.
A Colônia de Tóquio nº 1 é um capítulo que, como já reforçado em episódios anteriores e que apresenta um aspecto que faltou em Sobre a Migração à Extinção, encontra sua força ao aceitar a cadência explicativa de suas peças mais simples para construir um conjunto explicativo de estratégia. Nesse episódio, a densidade combativa da direção de Gege Akutami não apenas traduz quadros em movimento, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de exposição – aqui, dissolvido principalmente nas falas de Fushiguro – no qual esta pausa na narrativa não é um defeito, mas uma ferramenta estética de desenvolvimento. Porém, já adianto duas ressalvas: (1) por que tal estratégia – a de dissolver explicações na narrativa ao invés de despejá-las – não foi utilizada em episódios como o terceiro da série? E (2) por que Jujutsu Kaisen ainda prefere privilegiar o desequilíbrio de ritmo em sua terceira temporada? Perceba que, desde o terceiro, não há um episódio que minimamente siga o ritmo do anterior. Até aqui é, no mínimo, uma coletânea heterogênea de excelentes ou mesmo impecáveis episódios, mas ainda sim de um todo rítmico irregular.
Me parece que o arco de Shibuya torna-se um exercício quase obrigatório para entendermos o que mudou na estética da produção. Em Shibuya, o ritmo era ditado por uma força centrípeta de desespero; uma vez que o selamento de Gojo ocorreu, a narrativa entrou em uma queda livre imparável e ali a fluidez era garantida pela própria continuidade física e geográfica dos combates. Já nesta terceira temporada, o Jogo do Abate impõe uma fragmentação burocrática. A necessidade de explicar o contrato, as regras e o próprio sistema de pontuações atua como uma força centrífuga, que joga a narrativa para diferentes colônias e núcleos, quebrando qualquer possibilidade de uma sequência coesa como a que vimos anteriormente. Se isso realmente terá impacto na qualidade final da temporada, bom, veremos somente ao final dela.
A linguagem visual adotada neste episódio revela-se como um exercício equilibrado entre o risco da estagnação e a segurança das convenções do gênero shonen. Fundamento novamente as muletas narrativas conhecidas, como o uso recorrente de diálogos expositivos para fundamentar as regras do Jogo do Abate – acostumem-se, senhores leitores, pois não chamarei tal jogo de Migração à Extinção –, conferindo à trama uma segurança lógica que dialogue com o espectador atento aos sistemas de poder.
O episódio inicia-se envolto na escuridão de um futon, no qual uma adolescente confronta a presença de Kenjaku – que retorna aqui após um sumiço nos episódios anteriores. Nesta interação, a polidez do pedido da jovem para que a violência não ocorra em sua vizinhança é recebida pelo riso de Kenjaku – uma decisão de roteiro que espelha a própria natureza da prosa irônica e cruel da obra, muito retratante da própria realidade japonesa contemporânea. Ao agradecer a jovem Sasaki por sua amizade com seu filho, Yuji Itadori, Kenjaku estabelece uma conexão emocional que transcende a barreira física do Jogo do Abate.
Enquanto isso, a narrativa organiza-se em torno de um núcleo de personagens que tentam processar perdas irreparáveis. Yuji, Megumi Fushiguro e Panda informam a Kinji Hakari e Kirara Hoshi sobre o selamento de Satoru Gojo e o falecimento do Diretor Masamichi Yaga. O que se observa na tela é uma fidelidade extrema à atmosfera de luto e urgência – com cenas realmente muito boas de Hakari, um personagem que tem se desenvolvido muito bem. A dor que antes era latente torna-se o motor para a aliança: Hakari concorda em ajudar a impedir o Jogo do Abate, ainda que por um preço – impagável, já que Maki dizimou o clã Zeni’n –, demonstrando que a ética neste universo é frequentemente mediada por interesses pragmáticos.
Em última análise, A Colônia de Tóquio nº 1 funciona porque entende que a beleza da trama não está na ausência de pausas expositivas, mas na harmonia criada entre a explicação e a ação. Ao remover a dependência de grandes clímax imediatos, a direção expõe o esqueleto tático da história, entregando um capítulo que é completo em seu propósito de transição. No entanto, fica o questionamento se Jujutsu: Kaisen tem sido sábia em termos de ritmo, pois já cansa a presença de episódios impecáveis e outros nem tanto – simplesmente porque, apesar de conter os melhores episódios de toda a série – a terceira temporada ainda não conseguiu engrenar uma sequência de episódios totalmente coesa e desenvolvimentista.
Jujutsu Kaisen – 3X07: A Colônia de Tóquio nº1 (東京コロニー1号) — Japão, 2026
Direção: Shouta Goshozono, Takeru Satoh
Roteiro: Hiroshi Seko (Baseado na obra de Gege Akutami)
Elenco: Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 24 min.
