Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.
O que se observa em A Colônia de Tóquio nº2 é uma fidelidade extrema, não apenas ao enredo, mas à atmosfera de transição que a narração da temporada tem pedido. O episódio dedica uma parcela considerável de seu tempo a um interlúdio que nos transporta ao ano de 2016, apresentando a gênese moral de Hiromi Higuruma. Aqui, a narrativa organiza-se em torno de um conceito de “justiça impossível”, na qual a trajetória de Higuruma, o advogado que não se esquivava de casos perdidos mesmo diante de um sistema onde 99,9% dos julgamentos terminam em condenação, é tratada com uma competência artística muito bem pensada e rara. Nesse sentido, o ponto forte desse trecho inicial diz respeito ao fato do roteiro de Hiroshi Seko compreender que adaptar não é apenas copiar a ação, mas transmutar o dilema ético dos personagens em ritmo narrativo.
Mesmo ciente da fragilidade da alegação de Oe – que afirmava ter encontrado a arma do crime por acaso –, Higuruma escolhe acreditar na inocência, uma decisão de direção narrativa que espelha a própria natureza da justiça como uma construção humana imperfeita (e essas sutis relações com a contemporaneidade são minhas partes favoritas do anime). A interação entre Higuruma e seu sócio, Shimizu, revela o humanismo da obra: a ideia de que as habilidades de um homem se deterioram com vitórias fáceis. Quando o sistema falha e a condenação perpétua é proferida sem novas provas, a ruptura mental de Higuruma não é apenas um ponto de trama, mas um grito metafórico contra a ineficiência das instituições. A manifestação do shikigami e a declaração de que era “hora de um novo julgamento” consolidam um dos momentos mais poderosos da temporada, sem dúvida alguma.
No presente, a narrativa fragmenta-se para seguir Fushiguro e Itadori em suas buscas paralelas. Em Ikebukuro, o encontro entre Yuji e Rin Amai permite um breve exercício de memória, revelando a essência protetora de Itadori desde a infância. Essa suavidade narrativa é necessária para equilibrar a tensão que se acumula. Quando Yuji finalmente encontra Higuruma – bizarramente sentado em uma banheira cheia no centro de um palco de teatro –, a direção de arte atinge seu ápice. A recusa do advogado em colaborar, fundamentada na crença de que a Migração à Extinção possui um potencial punitivo que a lei jamais alcançou, estabelece um conflito ideológico sofisticado, adequado mesmo à figura jurídica de Higuruma.
Ao abdicar da urgência frenética como motor principal, o diretor permite que a obra respire por meio de conceitos. A Expansão de Domínio de Higuruma, Sentença Mortal, é executada com uma habilidade surpreendente para um feiticeiro recém-despertado. Ela subverte a lógica do combate físico tradicional ao transformar o campo de batalha em um tribunal. É um exercício de ética onde o que está em jogo não é apenas a força bruta, mas a verdade do réu. Enquanto isso, o núcleo de Megumi lida com a traição de Remi e o surgimento de Reggie, cujas teorias sobre o verdadeiro plano de Kenjaku injetam uma dose necessária de mistério e antecipação.
Assume-se, fatalmente e novamente, que o episódio da semana é uma peça de preparação. Ele é imperfeito se analisado isoladamente como uma unidade de nula ação pura, mas é perfeito como parte integrante de um todo maior bem narrado. A cena final, com o enigmático Kenjaku sentando-se à mesa com nove homens sem rosto, funciona como o cliffhanger ideal. É o fechamento de um ciclo de preparação que prepara o terreno para o avassalador – que já não aparece há um tempo na terceira temporada.
Portanto, A Colônia de Tokyo nº 2 funciona porque entende que o peso das peças micro só é verdadeiramente compreendido quando se olha para o tabuleiro completo. A direção entrega um episódio que é completo em seu propósito de situar o espectador no novo paradigma do mundo dos feiticeiros. Ao remover a dependência de resoluções imediatas, a direção expõe o esqueleto emocional e político da história, entregando um capítulo que caminha com as próprias pernas, rumo a um destino que, embora doloroso, promete ser esteticamente e narrativamente arrebatador.
Jujutsu Kaisen – 3X08: A Colônia de Tóquio nº2 (東京コロニー2号) — Japão, 2026
Direção: Shouta Goshozono, Yôsuke Takada
Roteiro: Hiroshi Seko (Baseado na obra de Gege Akutami)
Elenco: Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 24 min.
