Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.
Primeiramente, há em A Colônia de Tóquio nº 3 a utilização de uma direção de arte impecável, que confere à fotografia da animação uma segurança estética que dialoga com as mais sofisticadas convenções do cinema noir e do drama jurídico. Sem se render a referências hollywoodianas, este episódio é, com certeza, o que todos esperavam da terceira temporada, sendo, em mais um recorde, o melhor episódio do anime que já vi. Contudo, essa escolha estética, longe de ser uma limitação temática, serve como alicerce para que a poesia do conflito se manifeste, elemento ausente em temporadas anteriores e muito presente aqui. O domínio de Higuruma, o shikigami Judgeman, não busca o extraordinário pelo choque visual gratuito, mas pela constância de uma sobriedade melancólica que envolve o espectador em um ambiente de julgamento metafísico. É a luta mais inteligente do anime até este ponto, precisamente por substituir a catarse da força bruta pela tensão do argumento e da moralidade.
O que se observa na tela é uma fidelidade extrema à atmosfera de desolação ética que permeia o arco da Migração à Extinção. A dinâmica se inicia quando Yuji Itadori, em um ímpeto de resolução, tenta subjugar Hiromi Higuruma antes que este ative sua técnica. O soco que estanca a centímetros do rosto do advogado é o marco zero de uma transição tonal absoluta: a interdição da violência física em favor da violência burocrática. Ao ser transportado para o banco dos réus, sob a égide do já citado Judgeman, Yuji é confrontado não com um monstro, mas com o seu próprio passado trivial. A acusação inicial – a entrada em um estabelecimento de jogos de azar sendo menor de idade – atua como uma ironia narrativa que prepara o terreno para discussões muito mais densas sobre a natureza da integridade.
A construção de Higuruma como antagonista (ou um anti-herói!?) é o auge do desenvolvimento de personagens nesta fase da obra. Sua trajetória, marcada pela busca tenaz da justiça no sistema legal japonês e pela formação na prestigiada Universidade de Tokyo, espelha uma desilusão humanista que o torna profundamente trágico. Para Higuruma, a feiura dos clientes que defendia tornou-se um espelho de sua própria exaustão ética. No entanto, o embate com Yuji subverte essa lógica. A luta dialoga diretamente com os valores de ambos: enquanto Higuruma opera sob a frieza do código, Yuji opera sob o calor da responsabilidade individual.
A narrativa organiza-se em torno de um conceito de “poesia jurídica” (olhe aonde viemos parar), onde o que comove não é a habilidade marcial, mas a inevitabilidade do afeto e da honestidade. Quando confrontado com a evidência de sua entrada no Maji Vegas, Yuji hesita, tenta a mentira como recurso de sobrevivência, mas sucumbe à sua própria natureza transparente. A sentença de confisco de energia amaldiçoada, longe de enfraquecer o episódio, potencializa a tensão física que se segue. A luta sem poderes, onde Higuruma manipula seu martelo metamórfico contra a proeza física bruta de Itadori, é uma coreografia de desesperos cruzados.
O ponto de inflexão que eleva este episódio ao status de obra-prima ocorre no segundo julgamento. Ao exercer seu direito de apelação, Yuji é confrontado com a acusação de assassinato em massa em Shibuya. Aqui, a obra abdica da muleta do plot twist convencional para sustentar seu argumento emocional na mais pura sinceridade. Sem qualquer hesitação, Yuji admite a culpa. É um momento de uma sofisticação humanista avassaladora: ele assume a responsabilidade por atos cometidos por Sukuna, não por uma questão de lógica jurídica – já que Higuruma, através das evidências do Judgeman, sabia da inocência factual do rapaz – mas por uma questão de correção de falhas existenciais.
Higuruma, ao empunhar a Espada do Executor, depara-se com o paradoxo do culpado inocente. A admissão de Yuji é o que o quebra. O advogado compreende que a empatia, que antes o fazia ver os outros como seres “feios”, encontra em Yuji uma pureza que aceita a própria destruição em nome da ética. O cancelamento da técnica no último instante e o subsequente diálogo entre os dois sobre o peso de matar alguém por vontade própria é, talvez, o momento de maior maturidade da série. A dor que antes era apenas conceito torna-se, na animação, uma constatação compartilhada de solidão.
Em última análise, A Colônia de Tokyo nº 3 funciona porque entende que a beleza da narrativa não está na ausência de conflitos morais, mas na harmonia criada entre indivíduos que reconhecem suas falhas. Ao remover a dependência de reviravoltas puramente físicas e focar no esqueleto emocional da lei e da culpa, a direção entrega um capítulo que caminha com as próprias pernas, independente da grandiosidade das batalhas anteriores.
Jujutsu Kaisen – 3X09: A Colônia de Tóquio nº3 (東京コロニー3号) — Japão, 2026
Direção: Shouta Goshozono, Yôsuke Takada
Roteiro: Hiroshi Seko (Baseado na obra de Gege Akutami)
Elenco: Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 24 min.
