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Crítica | Jujutsu Kaisen – 3X10: A Colônia de Tóquio nº4

Comédia de qualidade.

por Ismael Vilela
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spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.

O que há, em A Colônia de Tóquio nº 4, é uma verdadeira construção de lutas poéticas. Na terceira temporada, a animação não busca o extraordinário pelo choque gratuito, mas pela constância de uma beleza técnica que envolve o espectador em cada golpe e movimento tático. O desempenho da direção ao conduzir o embate de Fushiguro contra Reggie Star e seus aliados tende propositalmente ao detalhismo – com destaque para uma fluidez muito positiva e até concretista nas cenas de combate–, uma decisão que espelha a própria natureza da obra original, com alterações substanciais nas dinâmicas, mas que, a meu ver, são sempre muito positivas. Se o espectador considera o arco da Migração à Extinção uma sucessão de hipérboles táticas e existenciais, o episódio abraça essa característica sem pudor, tornando-se uma extensão fidedigna da alma do material base.

O episódio inicia-se com Reggie Star revelando a Megumi que Kenjaku pretende lançar uma “bomba” na Migração à Extinção para cumprir seu propósito oculto. Essa informação, carregada de um peso lírico e sombrio, é traduzida para a cinematografia com uma competência rara. A narrativa organiza-se em torno de um conceito de fluidez visual onde o que comove não é apenas a sobrevivência, mas a inevitabilidade do conflito. Aqui reside, talvez, a maior e mais sofisticada diferença entre o arco atual e os momentos anteriores da obra: a revelação nítida das reações de Megumi em contraste com as de Yuji Itadori. Enquanto o episódio anterior nos mostrou um Itadori mergulhado em dilemas morais, este episódio nos entrega um Fushiguro pragmático, cuja ética é moldada pela necessidade avassaladora de proteger Tsumiki.

A sequência de eventos no condomínio é executada com precisão. A súbita interrupção do diálogo por um feiticeiro de garras (Chizuru Hari) e a subsequente explosão causada por Iori Hazenoki – que utiliza partes do próprio corpo como bombas – são exemplos de como a direção utiliza o ritmo para prender a atenção. A imagem de Hazenoki arrancando um dente ou lançando um globo ocular explosivo é descrita, visualmente, como um grito de horror tático. É impossível para o espectador não se deixar levar pela tensão, vendo o rosto do protagonista ser marcado pelas chamas.

A transição da luta do interior para o exterior, com Megumi e Hari despencando de uma janela enquanto o shikigami Nue garante o pouso seguro, revela a independência das viradas narrativas. Megumi finaliza Hari para obter cinco pontos, e o faz com uma melancolia que substitui o choque pelo argumento emocional: ele não sente prazer na morte, mas aceita a mácula para manter sua irmã fora do jogo. A chegada de Fumihiko Takaba, o comediante de energia amaldiçoada poderosa e vestimenta excêntrica, subverte a lógica da tensão. Takaba é o elemento de “imperfeição” que traz harmonia ao todo; sua recusa em roubar o sorriso de alguém, mesmo em meio ao massacre, funciona como uma sofisticação contemplativa sobre o que significa ser um “jogador” naquele cenário. O ponto mais alto do episódio é, inclusive, quando todo esse encontro torna-se uma espécie de faroeste – uma menção honrosa à trilha sonora espetacular do episódio.

Olhando para a estrutura narrativa do episódio, percebe-se um emaranhado de técnicas e intenções que, isoladamente, poderiam parecer desconexas. As revelações de Reggie Star sobre a natureza de sua técnica – a Recriação Contratual – elevam o combate para além da força física. A utilização de recibos como contratos vinculativos, transformando papel em objetos tangíveis como vasos de flores, facas e até caminhões, é um exercício de comédia visual. A direção de animação merece um destaque particular dentro dessa engrenagem: a forma como os objetos surgem do nada, respeitando a lógica dos contratos, é fundamental para a tradução da mídia literária para a visual.

O clímax, marcado pela ativação da Expansão de Domínio: Chimera Shadow Garden, é o ponto onde a poesia visual se manifesta com maior intensidade. Megumi, ao perceber que o espaço fechado do ginásio permite a criação de um espaço artificial sobre a realidade, arrisca-se no terreno mais perigoso de sua própria alma. O domínio não é apenas um golpe final; é a manifestação da coletividade de suas sombras buscando o conserto para uma situação desesperadora. A emoção que transborda desse momento não advém de um sentimentalismo barato, mas da constatação de que aquelas narrativas dolorosas e propositalmente focadas no combate compõem um todo profundo e coerente.

O que funciona nesta temporada é a sofisticação intrínseca à imagem, a fluidez do movimento que dita o tom da sobrevivência. A obra reitera a potência do texto original, consolidando esta fase de Jujutsu Kaisen como uma das melhores representações da luta no gênero. Ao evidenciar a diferença de reações entre Itadori e Fushiguro entre os episódios, o diretor expõe o esqueleto emocional da história, entregando uma experiência que caminha com as próprias pernas, independente dos grandes confrontos que virão a seguir.

Jujutsu Kaisen – 3X10: A Colônia de Tóquio nº4 (東京コロニー4号) — Japão, 2026
Direção: Shouta Goshozono, Takumi Ichikawa
Roteiro: Hiroshi Seko (Baseado na obra de Gege Akutami)
Elenco: Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 24 min.

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