Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Júlia Kendall – Vol. 18: Voltando Para Casa

Crítica | Júlia Kendall – Vol. 18: Voltando Para Casa

Um assassino imparável.

por Luiz Santiago
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Voltando Para Casa é uma das histórias mais infames que já tivemos aqui em Julia Kendall, e olhem que nesses dezoito números muita coisa horrorosa aconteceu! Escrito a seis mãos por Giancarlo Berardi (editor e principal autor do título), Giuseppe De Nardo (que chegou à série em A Longa Noite de Sheila) e Maurizio Mantero (que chegou à série em Dilúvio de Fogo), a trama nos conta a história de um jovem pai de família chamado Jimmy Nichols, que após tomar uma decisão dramática e “definitiva” em sua vida, desencadeia uma tragédia sem precedentes em Garden City, tornando-se um matador impulsivo (spree killer).

Os autores se inspiraram no roteiro de Um Dia de Fúria, de Joel Shumacher, e também em casos famosos de matadores impulsivos que agiram nos Estados Unidos, em diferentes cidades, sempre com algum tipo de trauma ou condições complexas que contextualizam os horrendos atos que cometeram. Ainda na primeira fase das matanças, o leitor descobre que Jimmy Nichols não mata mulheres velhas, e lá pelo meio da história vamos descobrir o motivo disso. O trabalho de Júlia, aqui, começa de maneira indireta, mas se torna essencial para a criação do perfil do assassino e, principalmente, para a “leitura” das ações do spree killer, indicando o que a polícia deveria fazer a seguir.

É então que o título do volume passa a fazer sentido, pois ele indica o rumo que Jimmy está tomando em suas andanças. Toda vez que me deparo com tramas desse tipo (ou notícias de assassinos impulsivos na vida real) me destroça a ideia do quão banal e do quão desimportante torna-se a vida humana para esses indivíduos. E muitas vezes o surto de violência não acontece de maneira estereotipadamente escandalosa, com o criminoso gritando ou chamando todas as atenções para si. Nem sempre é assim. E esses casos “silenciosos” são os que me dão mais medo, pois exibem uma disposição de espírito de falsa calma, quando, na verdade, há um furor infernal acontecendo na mente dessa pessoa.

Como já estamos acostumados nas histórias de Julia, o contexto serve para nos fazer pensar as escalas da justiça, o contexto social do indivíduo criminoso e as consequências irreparáveis que ele deixa pelo caminho. Em nossos tempos, toda vez que algo próximo de um “contexto para estudo de caso” é solicitado, sempre haverá extremistas que atacarão o analista com frases feitas do tipo “direitos humanos para humanos direitos“, esquecendo-se de que todo tipo de análise cuidadosa do cenário de onde um criminoso vem não é uma busca desesperada para fornecer circunstâncias atenuantes. Criminosos devem pagar pelo que cometeram, devem ter direito a um julgamento justo e uma pena condizente com o resultado, sem floreios, sem escape. O estudo de um contexto não serve para atribuir inocência, mas para entender de onde veio tamanha infâmia e como é possível mudar essas condições para que o mesmo não aconteça com outras pessoas.

O estudo de perfis psicológicos aliados a questões familiares, sociais e até políticas estão o tempo inteiro na mídia. No Brasil de 2021 (ano em que escrevo esta crítica), por exemplo, tornou-se muito famoso o “caso Lázaro“, que embora tenha sido um choque para a sociedade, as mortes em sequência, a sensação de perigo e a ideia de um maluco assassino andando fortemente armado e tendo proteção de alguns latifundiários da região acabou tornando-se algo banal, como se “fizesse parte” do cotidiano. Na presente aventura, vemos o texto tocar indiretamente nesse tipo de abordagem, o que nos leva para a conclusão com uma excelente interrogação e também com um dilema moral. Estaria Julia errada no traço do perfil de Jimmy? Ele a mataria se não tivesse sido alvejado pelos homens de Webb? Ou iria se entregar de verdade e Webb se precipitou?

Voltando Para Casa é uma história que dá pano para manda em discussões sobre assassinos impulsivos e tudo aquilo que os envolve, desde histórico pessoal até a forma como sua caminhada de sangue termina. Um “retorno à casa” que faz mal para todo mundo e torna a sociedade mais medrosa, mais paranoica e cada vez mais insensível à violência progressiva.

Julia – Le avventure di una criminologa #18: Tornando a Casa — Itália, março de 2000
No Brasil:
Mythos Editora, 2021
Roteiro: Giancarlo Berardi, Giuseppe De Nardo, Maurizio Mantero
Arte: Luca Vannini, Laura Zuccheri
Capa: Marco Soldi
132 páginas

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