Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Júlia Kendall – Vol. 8: Se as Montanhas Morrem

Crítica | Júlia Kendall – Vol. 8: Se as Montanhas Morrem

por Kevin Rick
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Giancarlo Berardi criou uma certa rotina macabra com os leitores de Júlia Kendall. Não é uma regra, vide Jerry Desapareceu e Dilúvio de Fogo, mas, normalmente, logo quando iniciamos a leitura da edição, o autor nos apresenta as vítimas, seja indivíduos ou famílias, e a espera do crime hediondo nos mergulha imediatamente no suspense. De forma praticamente instantânea, entramos num modo de espera e ansiedade por qual ato cruel irá se proceder. É um ótimo artificio do roteirista, já que nos engaja rapidamente a ficarmos interessados no caso, e como Júlia pegará o monstro da vez. Todavia, o início trágico é um dos poucos elementos apresentados em Se as Montanhas Morrem que nos fazem lembrar de edições anteriores, pois a oitava aventura da criminóloga configura uma história bem diferente do que visto anteriormente.

Primeiro que a investigação imediatista, ou a perseguição contínua como no arco da Myrna, sai completamente de cena. O assassinato inicial da família de George Valadier aconteceu há cinco anos atrás, e uma série de crimes, aparentemente de ódio ou/e motivação política, sucederam-se em Dakota do Sul, através de rituais indígenas macabros. Júlia é encarregada da tarefa de apurar a ligação das transgressões, em meio à rachadura ideológica do local, com movimentos nativo-americanos de extremismo e moderados em relação ao diálogo e convívio com brancos. Dessa forma, a narrativa da investigação não é apenas mais ampla e geral, mas é preenchida por contexto histórico, bem fora da curva dos casos anteriores da criminóloga.

É interessante como a criminólogia costumeira da série vai perdendo espaço para o argumento histórico, e o desenvolvimento de exploração cultural toma conta da narrativa. Aliás, toda a edição tem uma pegada de descobrimento aventureiro, com uma injeção de buddy cop entre Kendall e Leo Baxter – personagem este que merece sua própria série -, e posteriormente de dupla investigativa romântica com George. Com exceção dos usuais painéis sobre mortes horripilantes, a trama cria uma atmosfera de mais estudo sociocultural do que necessariamente criminoso, mantendo o ideal da série de ser chocante mas, de certa forma, um aprendizado de conjunturas sociais terríveis, só que de uma nova perspectiva.

Além disso, é importante notar o uso cada vez maior do fantástico na narrativa. Tivemos vislumbres de eventos oníricos anteriormente em sonhos da protagonista, que aparentavam ser um elemento para aumentar a dramaticidade de viver entre a morte da personagem, além de dar um quê surreal para a série, recurso comum em quadrinhos da Bonelli, contudo, aqui, Giancarlo abraça o místico. Pode ser uma consequência do roteiro enraizado na cultura nativo-americana, mas me leva a perguntar se o mecanismo irreal terá espaço em futuros capítulos, e como será seu paralelo com a narrativa embasada em questões científicas da criminologia. Aqui, felizmente, termina por funcionar muito bem, preenchendo o quadro geral da ambientação cultural indígena.

Meu problema com a edição vem ao final, com o desfecho um tanto anticlimático – um problema que tem se tornado comum nestas histórias contidas -, especialmente pela falta de uma construção de análise criminosa da Kendall, mais resolvida por acaso do que por mérito. Ainda assim, Se as Montanhas Morrem é um capítulo inovador no molde da série, demonstrando uma Júlia Kendall exploradora, enquanto se mantém fiel à elaboração da malignidade humana e a mesquinharia daqueles no poder, com um toque histórico que rouba a cena. Termina por ser uma navegação em uma pequena parte da História, e, honestamente, gostaria de ver mais aventuras amplas da criminóloga.

Julia – Se as Montanhas Morrem Le (avventure di una criminologa #8: Se le montagne muoiono | Itália, maio de 1999
Roteiro: Giancarlo Berardi
Arte: Giorgio Trevisan, Laura Zuccheri
Capa: Marco Soldi
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Mythos, 2005 e 2020
132 páginas

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