Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Júlia Kendall – Vols. 9 e 10: Ecos do Passado e O Ex-combatente

Crítica | Júlia Kendall – Vols. 9 e 10: Ecos do Passado e O Ex-combatente

por Luiz Santiago
176 views (a partir de agosto de 2020)

As edições Ecos do Passado e O Ex-combatente formam um arco bem diferente nesta série Aventuras de uma Criminóloga. Durante a visita de uma escola, o piso do Museu de Ciências Naturais em Garden City se abre, revelando um esqueleto humano. Como resultado de uma investigação preventiva (temendo impactos na bolsa de valores e má reputação midiática) o advogado da poderosa família Luscombe procura Júlia Kendall para investigar separadamente o caso. É aí que começa uma jornada bem diferente de tudo o que tivemos na série até agora, a começar pela estrutura narrativa.

Embora o arco de Myrna (formado pela tríade Os Olhos do Abismo, Objeto de Amor e Na Mente do Monstro) tenha focado em uma única sequência dramática, o escritor Giancarlo Berardi tratou esses eventos de forma individualizada. A ligação entre eles estava clara na continuidade da investigação e da criminosa em cena, mas não na sequência temporal de eventos. Isso, porém, é o que ocorre aqui. Escrevendo o roteiro ao lado de Maurizio Mantero (que começou a colaborar com a série em Dilúvio de Fogo), Berardi organiza os acontecimentos de forma a concentrar a tensão e a perseguição a Júlia e Leo na parte final de Ecos do Passado, estendendo, de maneira diegética, o mesmo tempo de ação para a revista seguinte, O Ex-combatente.

Embora os núcleos narrativos sejam diferentes de um volume para outro, a continuidade é assumida e isso gera uma curiosa reação no leitor, que não sabe exatamente como dosar o nível de ação que está consumindo, o que deixa tudo coberto por uma grande aura de surpresa. Em alguns momentos eu achei que o enredo tinha chegado ao seu clímax e que não havia mais nada parar tirar da aventura. Mas aí a trama se renovava, ganhava uma nova camada diante de uma sessão de perguntas e se abria organicamente para muitas outras possibilidades, todas elas organicamente ligadas aos Luscombe, de modo que os roteiristas não precisaram forçar a barra para encaixar uma aceitável e instigante resposta para o crime.

Um outro elemento que se destaca aqui é a aparência um tantinho mais cínica e estruturalmente mais similar a roteiros televisivos que esse arco ganha. Há uma atmosfera de burguesia suja nessa aventura, desde as primeiras páginas sugerindo que nessa família muito rica e muito influente de Garden City há algo de podre para ser desvendado. O bacana é que esse é o tipo de abordagem típica dos gialli da década de 1960 e foi justamente por essa grande aproximação que logo após a descoberta do esqueleto eu tive a impressão de estar lendo uma aventura de Diabolik, daquelas dos primórdios mesmo, como O Rei do Terror (1962) ou O Criminoso Indescritível (1963), dada a forma como o autor conduz a investigação, a perseguição, e os envolvidos nela.

Em conversa recente com meu valoroso parceiro no crime, falei sobre a aplaudível facilidade com que Berardi e eventuais colaboradores conseguem fazer de Júlia Kendall uma série de constante renovo narrativo, sem deixar a essência de lado ou sem querer inventar a roda a cada edição. É o típico e elogiável estilo de escrita, primeiro olhando para o objeto que tem em mãos, para a história que precisa contar, e só então decidindo que caminho deve seguir. Até o momento, não tivemos nenhum roteiro que força a história a caber dentro de uma forma, de uma caixinha engessada. Ao contrário. Cada trama ganha uma nova forminha.

Mas além da qualidade das histórias, há algo que permanece na leitura desse quadrinho: o nojo por alguns seres humanos. Ecos do Passado e O Ex-combatente é uma aventura sobre alguém que tenta se livrar das garras de um poderoso e endinheirado patriarca… uma liberdade que acaba esbarrando no amor por uma criança e que termina cobrando o seu preço, colocando o protagonista na mira das suas serpentes de sangue, colocando fim ao seu amor, ao seu sonho de liberdade, e à sua vida.

Julia – Le avventure di una criminologa #9 e 10: Echi dal Passato e Il Reduce (Itália, junho e julho de 1999)
Roteiro: Giancarlo Berardi, Maurizio Mantero
Arte: Giancarlo Caracuzzo, Valerio Piccioni, Maurizio Mantero, Enio
Capa: Marco Soldi
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Mythos, 2005 e 2020
264 páginas

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6 comentários

Kevin Rick 12 de março de 2021 - 15:24

Que crítica sensacional!! Fez uma cirurgia do arco dos Luscombe. Concordo demais com você sobre a surpresa estrutural. Acho que a gente parece disco arranhado com a “jornada bem diferente do que vimos até aqui” hahaha É incrível como o Giancarlo mantém a linguagem da série, enquanto continuamente inova a estrutura. Essa é talvez a que mais me surpreendeu, pois como você expôs, o roteiro vai dando novas camadas à medida que nós pensamos ter visto o clímax da história. Toda a questão da perseguição e da trama mais frenética me fizeram engolir as duas edições – até te perdôo por escrever das duas. Acho que gosto mais do 10 volume (4,5), mas no geral topamos na mesma rotineira nota.

P.S.: Não sei se é coincidência, mas a premissa desse arco me lembrou muuuuito o primeiro livro da Detetive Kim Stone. Já te recomendei, mas fica aqui mais um empurrãozinho pra você colocar na sua lista hehehe

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Luiz Santiago 12 de março de 2021 - 15:25

Não tinha como escrever só de um! HAHAHAHAHAHHAAHAHAH A história ficaria pela metade meu TOC ia me levar a uma síncope, SOCORRROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

Cara, a gente realmente fica besta e se repetindo com as novidades que esses quadrinhos da Bonelli trazem para gente. É tão gostoso acompanhar uma série que faz a gente ter esse tipo de sensação, não é?

E lá vai você querendo bagunçar toda a minha lista de leitura! Tô de olho, tô de olhooooooooo

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Kevin Rick 12 de março de 2021 - 15:25

Putz, é gostoso demais. A Bonelli está rapidamente subindo no meu ranking de editoras hehehe Junto da Weekly Shonen Jump e Valiant – Image é a eterna dona da coroa. E olha que conheço pouquinho. Quero voltar a ler Dylan Dog. Tex me interessa bastante. Além de Dampyr, Nathan… Deu pra entender hahaha

Nesse ritmo seu, vai terminar o ano com mais de 100 livros. O que é só um livrinho meu nessa lista? hehehe

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Luiz Santiago 13 de março de 2021 - 00:20

Eu não sabia que você já tinha lido Dylan Dog! Leu as primeiras histórias, foi?

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Kevin Rick 13 de março de 2021 - 00:22

Como que não sabia?! Eu te contei!! Aliás, foi meu primeiro contato com a Bonelli. Só cheguei a ler a primeira edição, mas gostei bastante. Foi daí em diante que você me viciou na Kendall e na Lilith hehe Tem alguém de idade avançada sofrendo de memória curta!! Vou te colocar no asilo do volume 11 da Júlia Kendall HAHAHAHA

Luiz Santiago 13 de março de 2021 - 00:37

HUAHAUAHUAHAUAHUAHUAH eu realmente não lembrava que você tinha me contado do Dylan Dog! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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