Crítica | Julieta (2016)

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estrelas 4

SPOILERS!

Baseado em três contos do livro Fugitiva, da vencedora do Prêmio Nobel Alice MunroPedro Almodóvar escreveu o roteiro de Julieta (2016), seu vigésimo filme. Aqui, o diretor retorna ao drama, depois do fraco Os Amantes Passageiros (2013) e também ao melodrama feminino, notadamente materno, cujo último exemplar em sua filmografia foi em 2006, com Volver.

Julieta é centrado em complexas relações familiares e destaca a personagem-título como uma Cassandra desavisada, uma professora de filologia clássica que ocupa todo o centro do filme como parte de um flashback de sua versão mais velha, com a lembrança de um momento onde o calor e o contato humanos estavam sempre presentes, um tempo onde talvez não fossem, como quase nunca são a seu tempo, valorizados.

Ao longo de três décadas, seguimos o amadurecimento e sofrimento de Julieta que, assim como o espectador, tenta descobrir por que Antía, sua filha, se afastou dela. O texto é inteligente e encadeia com elegância essas fases de maneira alinear, em parte, guiando a vida de Julieta por uma trilha sombria de acontecimentos, adicionando aqui e ali pequenas doses de culpa, mistério ou “premonições”, mesmo antes de termos contato com a maioria das coisas que transformará a protagonista de uma jovem aventureira em uma mulher feliz. Ou assim ela pensava. Reparem que momentos como a sequência do trem e a conseguinte tragédia (são dois estágios emocionais em um só lugar, pois ela conhece Xoan e tem fincada em seu peito a culpa pelo suicídio do desconhecido que queria conversar) ou a sequência onde a vemos dar uma aula sobre os três significados da palavra “mar” em grego e, como complemento, aliar uma delas à saga de Ulisses, serão posteriormente utilizados pelo diretor como marcos da vida madura da personagem.

Ao contrário do que se convencionou dizer sobre o filme, não há contenção do diretor, só se estreitarmos a visão e avaliarmos a obra sob comparação, espelhando o que temos em Julieta a filmes como Maus HábitosMulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Kika ou Tudo Sobre Minha Mãe, mas este não é o caminho, não é mesmo? Para uma história sobre luto, “perda” de uma filha e desalento completo de uma mulher que imaginava ter tudo o que precisava, as coisas estão exatamente no patamar onde deveriam estar. A atmosfera criada pelo roteiro, o ritmo da montagem de José Salcedo, a fórmula simples, porém dramaticamente intensa da direção de Almodóvar e a trilha sonora um pouco herrmanniana composta por Alberto Iglesias, todos esses elementos dão conta de um relato introspectivo, analítico, bastante pessoal, diferente de cenários mais abertos e de caminhos compartilhados por heroínas anteriores do cineasta. Julieta é um filme íntimo.

Como sempre, o texto não perde a oportunidade de mostrar a vida como uma múltipla sequência de experiências onde até mesmo o lado negativo pode trazer coisas novas e, por que não?, boas. Não há princípios de autoajuda em Almodóvar, mas ele não é dado à desesperança por si só. Há algo além da dor, do abandono e do sofrimento. A vida, no presente de Julieta, é uma prova disso. Não se trata de um estágio perfeito, completamente colorido ou livre de recaídas, mas não é uma vida desamparada, mesmo que a personagem tenha feito tudo para que fosse. Isso é interessante, porque existe uma pergunta muda nas entrelinhas: “é possível, de fato, estar sozinho?“.

Em alguns momentos, o roteiro pega atalhos não muito confortáveis como a relação final de Julieta com Marian, que tem um quê de bruxa no começo e no final da história, deixando-nos ainda o enigma sobre o que ela disse para Antía que talvez tenha feito a jovem seguir em seu propósito de isolamento e apego à religião (para ela, o último refúgio ao fugir da culpa e do rancor). A reticência final também parece vir em hora errada, não porque deixa para nós uma ação em andamento (o diretor já havia feito algo parecido em A Pele que Habito e funcionou igualmente bem), mas por ser exatamente aquela cena o caminho para o encontro. É como se ele estivesse compensando o “final aberto” e respondesse ou desse o maior número de indicações sobre a maioria das perguntas ou linhas narrativas para o público. Outro ponto falho é a colocação da mãe de Julieta na história, que especialmente na segunda visita parece vaga demais, com um “encerramento” demasiado ágil para ter algum peso ou servir para impulsionar alguma outra coisa no todo do filme.

Contando com interpretações afiadíssimas — a passagem da Julieta jovem de Adriana Ugarte para a Julieta madura de Emma Suárez, tendo ambas as atrizes entregue performances excelentes, é um momento belo, revelador e representativo de uma maturidade que chega a fórceps para algumas pessoas. A forma como a câmera vai fechando o cerco até a separação e a descida de Julieta ao inferno do abandono também merece destaque, não havendo dúvidas de que tudo o que está relacionado à personagem traz o melhor de Almodóvar, do texto e direção até as coisas que tornam o seu cinema visualmente reconhecível, como os figurinos de cores (destaque para o vermelho) ou estampas que se realçam no ambiente e uma direção de arte vivaz, mista de estilos, além de uma fotografia que visita com sucesso diferentes tonalidades de cor, porém, especificamente neste caso, procurando mais as sombras ou a neutralidade.

Almodóvar realiza uma jornada bastante dolorosa de luto e desprezo. Há uma forte dose de depressão no estado da protagonista e isso move o espectador para um maior engajamento com sua busca, jornada que não deixa de ter pinceladas de thriller e humor. Um doído grito de socorro que vale a pena ver e ouvir, talvez buscando um pouco desse clamor em nós mesmos.

Julieta (Espanha, 2016)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar (baseado em três contos de Alice Munro)
Elenco: Inma Cuesta, Adriana Ugarte, Emma Suárez, Michelle Jenner, Rossy de Palma, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Nathalie Poza
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.