Crítica | Juno e o Pavão

estrelas 0,5

É quase uma vergonha pessoal admitir que um dos piores filmes que eu já vi em toda minha vida foi dirigido por Alfred Hitchcock. Baseado na peça de Sean O’Casey, Juno e o Pavão é uma coletânea de horrores por todos os lados, uma falta tremenda de imaginação de Hitchcock na direção e uma péssima condução de atores, com raríssimas cenas capazes de serem assistidas sem fazer com que o espectador queira que o filme exploda na sua frente.

A história tem um contexto histórico-social como plano de fundo, que é a onda de conflitos entre a Irlanda e a Inglaterra, realidade cujas consequências serão usadas no roteiro como ponto trágico, já na reta final do filme, quando vemos absolutamente tudo dar errado para a família protagonista. Essas consequências acabam sendo sentidas por todos, mas afligem quase que unicamente Johnny, o filho perturbado dos Boyle que amarga a traição e a morte de um companheiro e definha no decorrer do filme, vendo fantasmas e desaprovando os raros momentos de felicidade aos quais seus pais se entregam com dois pseudo-amigos.

Algo para o qual eu devo dar os devidos créditos positivos é coragem de Hitchcock em finalizar um filme com uma tragédia plena e densa como esta de Juno e o Pavão. O diretor já havia feito isso antes, em Vida Fácil / Mulher Pública, mas como o contexto ali era individual e, por pior que parecesse a situação de Larita, tínhamos uma ponta de esperança de que o infortúnio fosse, mais uma vez, passageiro, o que não acontece com a família de Juno. Ao contrário, não vemos absolutamente nenhuma saída para a situação tenebrosa em que eles se encontram.

Quem dera que o filme fosse apenas medido pela coragem do diretor em terminá-lo de modo trágico! Fora o já citado contexto histórico, o roteiro escorrega por questões familiares de pequena mota, ironizando o casal protagonista e dando pistas falsas sobre uma felicidade que nunca chega. Os atores em cena parecem saídos de um picadeiro, forçando vozes, estufando o peito, agindo com maneirismos por todos os lados, algo que fica pior à medida que o filme avança, porque a tragédia adiciona falsas lágrimas às cenas, além de explosões de desespero com direito a gritos, rezas para santos e esperanças falsas. Nada poderia ser pior.

Nem as admiráveis experiências visuais de Hitchcock são vistas neste filme. Tal como o tenebroso mas mesmo assim, muito melhor que Juno, A Mulher do Fazendeiro, a montagem não faz sentido algum e carrega uma coleção de bizarrices imagéticas ao longo de 1h40 de projeção. Além disso, o filme parece não ter sido decupado, há tempos mortos, cenas absolutamente inúteis, uma cantoria patética que não acrescenta nada à história e a colocação de um conflito revolucionário inicial que fica perdido no filme – a não ser se contarmos a trama pessoal de Johnny, o perturbado – e pequenezas morais que não são finalizadas. É muito erro e muita coisa ruim para um filme só.

Diante de tanto horror, alguns segundos de paz estética e de bom senso (qualquer cena sem a presença de Edward Chapman, que está muito mal aqui) fazem o espectador respirar um pouco mais aliviado, mas isso não significa que o filme se redime. Definitivamente, Juno e o Pavão é daquelas coisas que você assiste e depois de pensar bem a respeito, decide se esquecer por completo, principalmente quando leva em conta que foi feito por um diretor chamado Alfred Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 8 de dezembro de 2013. Revisada para republicação em 07/10/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Juno e o Pavão (Juno and the Paycock) – UK, 1930
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Alma Reville (adaptação da peça de Sean O’Casey)
Elenco: Sara Allgood, Edward Chapman, Barry Fitzgerald, Maire O’Neill, Sidney Morgan, John LaurieDave Morris, Kathleen O’Regan, John Longden, Dennis Wyndham
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.