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Crítica | Juntos a Magia Acontece

por Leonardo Campos
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Muito satisfatório ver que as demandas de representatividade têm ganhado cada vez mais espaço. O racismo e a opressão social continuam firmes e fortes em nossa nação dominada pelo mito da democracia racial, mas a quantidade de posicionamentos e produções voltadas ao fortalecimento das linhas de enfrentamento também continuam com bases sólidas em suas lutas. Assistir ao encantador Juntos a Magia Acontece, telefilme de 2019 que nos apresenta um ponto de vista natalino essencialmente brasileiro, reforça o quão importante é a busca por atendimento de necessidades da população de classe média baixa, bem como as pessoas negras, consumidoras de grandes marcas e produtos que em suas propostas de publicidade e propaganda, constantemente esquecem quem de fato são os seus consumidores. Dando aos temas mencionados um tratamento distante do discurso panfletário, o drama dirigido por Maria de Médicis e escrito por Cleissa Regina Martins, roteirista revelada pelo Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual, a história cativa e emociona.

Sem os estereótipos de representatividade, a família negra em Juntos a Magia Acontece é centraliza em Orlando (Milton Gonçalves), patriarca que se encontra deprimido diante das circunstâncias de luto: é o seu primeiro natal sem Neuza (Zezé Motta), adorada esposa falecida. Após o acontecimento, ele vai morar com Vera (Camila Pitanga), a sua filha professora, casa com Jorge (Luciano Quirino), homem que está desempregado há mais de seis meses. Eles são pais de Letícia (Gabriely Mota), menina que é a única a conseguir arrancar pálidos sorrisos do avô enlutado. O período demarca reencontros com a chegada de André (Fabrício Oliveira), irmão de Vera, deslocado para outra cidade após se tornar estudante de cinema. Criados de maneira distinta, percebemos que além das discussões raciais, a produção também flerta com debates de gênero, pois o pai tradicional vê em sua filha um papel social diferente do filho homem, uma discussão menos nevrálgica que as reflexões sobre luto e racismo, mas ainda assim, uma abordagem que jamais será contemplada com indiferença pelo espectador mais antenado.

Diante da situação doméstica apertada, Orlando resolve se mexer e cria expectativa para um projeto tido como fracassado por muitos em seu caminho. Ele resolve que será um Papai Noel e com isso, ganhará algum dinheiro para ajudar em casa. Assim, acompanharemos a sua jornada inicialmente cheia de respostas negativas. Primeiro ele procura o padre da paróquia que frequenta, interpretado pelo também veterano Francisco Cuoco. Há até algum interesse em ajudar, pois o representante religioso conversa com Dona Rosa (Aracy Balabanian), uma senhora que geralmente é doadora em campanhas, mas não obtém sucesso na empreitada.  Orlando chega a tentar convencer Antônio (Tony Tornado), dono de uma loja, homem também negro, mas colonizado pelo sistema e ciente em sua lógica de mercado: “acho que ninguém quer um Papai Noel afro-brasileiro, os americanos já tiveram um presidente negro, mas Papai Noel, acho que não combina”. Essa é a resposta. Mas Orlando não desiste de seu propósito. Ele tenta no shopping, mas a gestora da campanha de natal diz que um homem negro não pega bem na missão em que há vaga no tal ponto comercial. E assim começa a cruzada do homem por ressignificação deste papel e por alavancar mudanças em sua vida enlutada.

Além do argumento diferenciado e interessante, o drama Juntos a Magia Acontece é uma narrativa contada com muito empenho estético pela equipe orquestrada pela cineasta Maria de Médicis. Na direção de fotografia de Henrique Sales, vemos contemplada a diversidade de seu elenco, algo que pode soar pueril ou manifestação de inquietação estética aparentemente banal para alguns, mas a maquiagem, a paleta, a luz de cada personagem são elementos que precisam atender especificamente aos seus padrões de cor e gênero. Por qual motivo enquadrar uma mulher encrespada e com “cabelo black” e cortar a sua imagem para atender as demandas de imagem colonizadas que geralmente temos? São argumentos para se refletir e mudar. A trilha sonora de Plínio Profeta, melancólica em alguns trechos, abre espaço para mais alegria do meio para o fim, da mesma forma que os figurinos de Mariana Sued, realistas, mas desprovidos de intensidade em seus primeiros momentos, potencializados mais próximos do desfecho. Ainda sobre estética, direção de arte e cenografia trabalham com esmero para entregar beleza e mergulhar o público no espírito natalino sem recorrer aos estereótipos culturais que não nos pertencem. É tudo visualmente bonito de se ver e com uma discussão igualmente cativante.

Juntos a Magia Acontece (Brasil – 2019)
Direção: Maria de Médicis
Roteiro: Cleissa Regina Martins
Elenco: Milton Gonçalves, Zezé Motta, Luciano Quirino, Camila Pitanga, Tony Tornado, Zezé Polessa, Aracy Balabanian, Francisco Cuoco, Gabriely Mota
Duração: 45 minutos

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