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Crítica | Jurando Vingar

Pequeno experimento antigo.

por Frederico Franco
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Jurando Vingar abre seus trabalhos com as sentenças “AVE Brasil” e “Por que não no Brasil“. Por que não fazer cinema no Brasil? Por não fazer cinema em Pernambuco? Em tempos de ciclos regionais, como mostra Paulo Emílio Salles Gomes, a valorização da “coisa nossa” era tônica nas produções. E “a coisa nossa” não se resume a uma grande concepção da cultura brasileira, mas sim ao específico. Cada um dos polos do cinema do Brasil dos anos 1920 e 1930, desde o Rio Grande do Sul a Minas Gerais, estão preocupados em trabalhar a partir de sua cultura e seus contextos históricos enquanto Estado. As especificidades são postas, mas a partir dos chamados “filmes de enredo“, ficções que se apropriam de temas do cotidiano regional e que, através da atuação da revista Cinearte, tornaram-se interesse do público em geral. O movimento de valorização da cultura nacional, visto nos cards iniciais do filme de Ary Severo, não é por acaso: são a tônica do entorno cinematográfico da época.

Em Jurando Vingar, acompanhamos Júlio, um solitário jovem que vive com sua irmã. Após uma briga com Antônio Morais, o vilão, em um bar, Júlio acaba descobrindo uma ardente paixão por Berta, com quem acaba por ficar noivo. Entretanto, sua vida toma rumos obscuros quando Morais, em busca de retaliação, assassina a irmã do protagonista e sequestra Berta. A trama de vingança emula fortemente as narrativas de faroeste e de aventuras das produções norte-americanas da época, mas toma cenário nas paisagens urbanas e rurais de Recife. Entre bares, plantações de cana e casebres, Ary Severo concebe as primeiras experimentações brasileiras no gênero da aventura, posteriormente refinadas por Humberto Mauro e seu grupo em Cataguases (MG). Como Georges Sadoul e novos historiadores do cinema apontam, analisar os primeiros cinemas enquanto uma arte primitiva ou até mesmo pouco desenvolvida é um erro crasso. Olhar para tais filmes é olhar a gênese da experimentação cinematográfica stricto sensu. Ao contrário do senso comum, a precariedade, aqui, não é estética, mas sim de tecnologia – principalmente em se tratando da natureza subdesenvolvida do Brasil. 

O filme de Severo é um válido experimento em cima de filmes de enredo, com pretensões de maior desenvolvimento de linguagem, testando filtros de cores e diferentes variações em sua decupagem. E talvez seja justamente esse detalhe que enfraqueça a obra como um todo. O forte desejo de experimentação acaba se sobrepondo àquilo que realmente dá a Jurando Vingar um senso de unidade e potência estética. Em linhas gerais: Severo parece subaproveitar elementos marcantes da mise en scène em detrimento de maior trabalho de decupagem e, posteriormente, montagem. A máxima baziniana da montagem proibida, desta forma, aplica-se como conceito para explicar os motivos pelos quais Jurando Vingar perde potência. A montagem do filme parece, na maioria das vezes, um artifício vazio, surgindo apenas para romper com a estética de plano cena. No entanto, o trabalho feito por Ary Severo na direção de atores, principalmente através de seu trabalho corporal, é um encanto seguidamente quebrado por uma montagem que pouco se preocupa com a organicidade do plano em si. Com uma constante ruptura na continuidade espaço-temporal do filme através de cortes secos, Severo acaba deixando de explorar uma infinita potência dramática dos espaços tridimensionais de seu filme – seja os enormes canaviais ou os pequenos bares da cidade.

O contexto histórico do filme, inserido em uma época de volumoso êxodo rural, propicia leituras sobre o tema ao longo da película. Mas mais uma vez, a montagem, ao invés de proibida, torna-se regra do filme. Salvo um exemplo, de um magnífico plano em um canavial, somos levados sempre à direção oposta do encantamento. Ali, a pequenez humana parente a imponente paisagem natural é um sopro de beleza poética que se perde no decorrer da própria cena. Muitas vezes o termo “teatro filmado” é usado enquanto argumento pejorativo para denominar filmes dos primeiros anos do cinema por se tratarem de películas com longos planos cena que priorizam uma câmera estática e uma intrusão mínima da montagem; no caso de Jurando Vingar, a conservação do plano enquanto unidade equivalente à cena, eventualmente poderia transformar seus quadros em singulares intrigas estéticas. A própria história do cinema vem a provar que o plano master é, sobretudo, uma opção experimental. De Júlio Bressane até Andrei Tarkovsky, esse tipo de experimento proporciona uma condição imagética fascinante se utilizada com esmero e bom aproveitamento de elementos chave da mise en scène da obra.

O mais decepcionante de tudo é saber que, em Jurando Vingar, Ary Severo tem os materiais próprios para a utilização do conceito de conservação do plano: enquadramentos meticulosamente pensados, unindo cenários peculiares e, mais importante, um trabalho corporal de atores singular. Desde o princípio, nota-se que o corpo dos atores ganha um pesado destaque na encenação. Com movimentos rígidos, aparentando serem calculados, introduz-se logo uma referência vanguardista: Vsevolod Meyerhold, teatrólogo soviético que desenvolve e aprimora o conceito de biomecânica no teatro. Emulando um gestual firme, um corpo enrijecido e movimentos tensos, quase como um atleta, Severo consegue desenhar um balé movido por raiva e vingança, ainda mais em suas cenas de conflito. Nessas mesmas sequências, regidas por forte sintonia corporal e uma energia tensa, ao invés de conservar esse pequeno momento em uma literal unidade no plano, existe a opção por cortes que pouco favorecem o trabalho de corpo tão potente do filme. Que não fique solto: a montagem em si não necessariamente desvaloriza o corpo, basta retornar aos estudos de Maya Deren sobre coreografia ou até mesmo às mãos de Bresson; o que há em Jurando Vingar é uma opção por cortes e planos que não favorecem os principais elementos de sua unidade estilística.

O filme de Ary Severo não é um objeto de estudo descartável, muito pelo contrário. Enquanto estudo preliminar de decupagem, Jurando Vingar é um importante documento visual dos primeiros experimentos com decupagem, montagem e até mesmo trabalho cromático com filtros de cores. Mas por mais que possua uma ideia experimental de decupagem mais elaborada, isso acaba se tornando o nêmesis da película. A experimentação, aqui, acaba não contribuindo para a encenação de Severo, enfraquecendo seus maiores destaques e priorizando uma montagem que nada traz de novo para o filme.

Jurando Vingar  – Brasil, 1925
Direção: Ary Severo
Roteiro: Ary Severo, Gentil Roiz
Elenco: Gentil Roiz, Rilda Fernandes, José Lira, Iara de Alencar, Altina Lira, Prazin, Jota Soares, Mário Lima, Ary Severo
Duração: 52 min.

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