Crítica | Justiça Jovem – 1ª Temporada

A DC Comics sempre deu muito valor aos parceiros e ajudantes de super-heróis consagrados, os famosos sidekicks, formando um grupo deles a partir do histórico crossover entre Robin (Dick Grayson), Kid Flash (Wally West) e Aqualad (Garth) em The Brave and the Bold #54, no já longínquo ano de 1964, com a equipe adotando a denominação Jovens Titãs na edição #60, que criou e trouxe Donna Troy, a Moça-Maravilha, para junto dos outros três. A partir daí, o grupo, que também foi batizado de Turma Titã, Novos Titãs ou apenas Titãs, ganhou uma grande quantidade de novos membros, vários que nem sidekicks chegaram a ser, ganhando vida e mitologia próprias e independentes e uma multitude de histórias ao longo das décadas, com a primeira versão live-action deles, Titãs, ganhando as telinhas em 2018.

Mas, antes de ser o carro-chefe do serviço de streaming ainda nascente da Warner/DC Comics (DC Universe) e depois de uma série bem diferente entre 2003 e 2006, uma variação dos Titãs ganhou aclamada e adorada série de TV em animação: Justiça Jovem. Também baseada em quadrinhos, desta vez no one-shot O Segredo, de 1998, que reuniu Superboy (o clone mais jovem do Superman), Robin (Tim Drake) e Impulso (Bart Allen), trinca que, depois, formaria o supergrupo estabelecido na Caverna da Justiça sob a tutelagem do Tornado Vermelho em publicação própria. A série de TV só teve duas temporadas, a primeira de 26 e a segunda de 20 episódios, entre 2010 e 2013, quando foi cancelada juntamente com a série solo do Lanterna Verde, para desapontamento dos fãs. Em 2016, porém, a Warner anunciou que a série voltaria do limbo em 2019, agora também como parte do DC Universe.

A grande verdade, porém, é que o cancelamento abrupto de Justiça Jovem foi um daqueles momentos de miopia empresarial que realmente é difícil de entender. Apesar de não ser perfeita, a série animada é, sem dúvida alguma, uma das melhores da Warner/DC e isso não é dizer pouco considerando as que vieram antes e, por isso, merecia uma vida longeva pela forma inteligente como aborda os sidekicks dentro de uma narrativa una, que procura ao máximo contar uma grande história só em um arco macro que é descortinado aos poucos ao longo dos muitos episódios da 1ª temporada.

No entanto, mais do que saber contar uma história única com uma grande variedade de ramificações, os showrunners Brandon Vietti e Greg Weisman souberam trabalhar muito bem com os jovens heróis do núcleo principal, dando a atenção devida a cada um deles: Robin (Dick Grayson, voz de Jesse McCartney), Aqualad (versão Kaldur’ahm, criada especialmente para a série – voz de Khary Payton), Kid Flash (Wally West, voz de Jason Spisak), Superboy (clone de Superman, voz de Nolan North), além de Ricardito (depois Arqueiro Vermelho, voz de Crispin Freeman) e Miss Marte (voz de Danica McKellar). Ricardito é o sidekick mais revoltado com a não-emancipação deles pelos todos poderosos – e adultos – da Liga da Justiça e, de certa forma, apesar de ele se recusar a fazer parte do grupo, é quem efetivamente dá ignição à formação do Justiça Jovem. Miss Marte entre quase que eu seu lugar no segundo episódio, trazendo uma bem-vinda voz feminina logo no início.

Mas o grande catalisador narrativo, aqui, é a descoberta e a libertação de Superboy – clone do Superman – das profundezas do laboratório Cadmus, algo que pode no início parecer apenas uma aventura trivial do grupo (a primeira), mas que está profundamente ligado com toda a lógica que amarra a grande história macro que mencionei e que, claro, envolve os maiores vilões do panteão da DC. É, sem dúvida alguma, uma história talvez mais complexa do que precisasse ser e que não exatamente acaba completamente no 26º episódio, ainda que haja um fim ali, mas ela torna a série muito mais interessante de se assistir do que simplesmente acompanhar episódios potencialmente soltos que teriam a tendência de tornarem-se repetitivos.

Trabalhando como um grupo “em treinamento” em operação secretas determinadas pela Liga, os jovens personagens têm suas personalidades adequadamente exploradas ao longo da temporada. Dick Grayson, assim como o Batman, é o sabe-tudo que acha que é a liderança natural da equipe, com confiança infinita em suas habilidades, apesar de ser o único (com exceção de Ricardito que mal aparece e de Artemis que entra mais para a frente) sem quaisquer poderes. Aqualad é o herói zen, de índole pacífica e, por isso mesmo, um líder mais natural ainda que Dick. Confesso que desgosto profundamente de suas “armas aquáticas”, mas, de certa forma, encaro-as como inevitáveis, pois, de outra forma, o personagem seria substancialmente parecido com o Superboy em termos de poderes. Falando no clone kryptoniano/terráqueo, ele tem apenas alguns poderes do Superman que, aliás, o rejeita completamente (uma escolha inicialmente interessante de roteiro, mas que, depois, fica sem sentido levando em conta a personalidade de Clark Kent), fazendo com que Conner Kent, nome que adota, torne-se um sujeito revoltado que não sabe se controlar. Kid Flash é o típico adolescente bobalhão e tarado (por Megan, a Miss Marte) que funciona mais como alívio cômico do que qualquer outra coisa, já que, de todos os seres super-poderosos, suas habilidades são as menos aproveitadas narrativamente. Finalmente, Miss Marte é a doçura em pessoa, mas que esconde camadas e mais camadas de segredos interessantíssimos que vão sendo revelados aos poucos.

Se esse “núcleo duro” é muitíssimo bem trabalhado, com a função da Liga da Justiça com “heróis de fundo” também sendo magistralmente manejada pelos roteiros – a naturalidade com que o Justiça Jovem ganha os holofotes e “abafa” a Liga em todos os aspectos é um triunfo narrativo – o mesmo não se pode dizer dos outros heróis jovens que se reúnem ao grupo ao longo da longa temporada. A arqueira Artemis (Stephanie Lemelin), a mágica Zatanna (Lacey Chabert) e, principalmente, a “fogueteira” Rocket (Kittie e depois Denise Boutte) são personagens praticamente marretados na história de maneira a justificar os 26 episódios. É verdade que Artemis é particularmente importante, mas é uma importância estranha, por vias transversas, que não se encaixa naturalmente na estrutura inicial. Zatanna tem um arco bom que lida com seu pai Zatara e a entidade que controla o Senhor Destino, mas é uma narrativa expletiva que não encontra justificativa plena dentro da história que é contada. Rocket é quase que uma nota de pé de página que nem vale perder tempo em abordar. Em outras palavras, essas três personagens podem até trazer variedade para o grupo, mas elas não enriquecem a temporada. Se alguma coisa, elas desfocam a narrativa sem realmente mostrar a que vieram.

A arte é um destaque, sem dúvida. Não só os jovens heróis ganham reinterpretações cuidadosas e, sobretudo, respeitosas em relação ao material fonte, como os diversos elementos que vão sendo agregados à história, como os “discretos” papeis de Apokolips e dos Novos Deuses merecem comenda por ganharem uma bela unicidade em relação ao todo. As sequências de ação são inspiradas e, em sua maioria, muito dinâmicas, com os poderes de cada um dos heróis sendo tratados de maneira substancialmente orgânica, talvez com exceção dos de Kid Flash, como mencionei antes. Tonalmente muito diferente da série dos Jovens Titãs de 2003, Justiça Jovem é sombria sem ser escura e pesada e séria sem ser modorrenta e cansativa. É, arriscaria dizer, o perfeito equilíbrio entre leveza narrativa com uma pegada inteligente que lida com os mais diversos assuntos afeitos a adolescentes e a adultos responsáveis por adolescentes. A interrelação do grupo e de cada um deles com seus reflexos da Liga são ricas e bem exploradas sem que a temporada precise desviar-se da história principal, valendo especial destaque para os desenvolvimentos de Superboy e de Miss Marte, com Robin sempre “correndo por fora” como uma bem construída constante.

Justiça Jovem foi mais uma daquelas séries que, por razões que são frustrantes demais para abordar, teve sua qualidade premiada com um cancelamento prematuro que, agora, felizmente, está sendo corrigido. Seja como for, a 1ª temporada da equipe de sidekicks deve, definitivamente, ter um lugar de destaque no panteão de séries animadas da DC Comics.

Justiça Jovem – 1ª Temporada (Young Justice, EUA – 26 de novembro de 2010 a 21 de abril de 2012)
Criação: Brandon Vietti, Greg Weisman
Direção: Jay Oliva, Sam Liu, Christopher Berkeley, Michael Chang, Matt Youngberg, Victor Cook, Tim Divar, Lauren Montgomery
Roteiro: Greg Weisman, Kevin Hopps, Andrew R. Robinson, Nicole Dubuc, Jon Weisman, Thomas Pugsley, Peter David
Elenco (vozes originais): Jesse McCartney, Khary Payton, Jason Spisak, Nolan North, Danica McKellar, Stephanie Lemelin, Crispin Freeman, Dee Bradley Baker, Lacey Chabert, Kittie, Denise Boutte, Cree Summer, Bruce Greenwood, Vanessa Marshall, Rob Lowe, George Eads, Alan Tudyk, Kevin Michael Richardson, Nolan North
Duração: 572 min. (26 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.