Crítica | Kaena – A Profecia

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A história para o desenvolvimento de Kaena – A Profecia, o primeiro longa-metragem de animação 3D feito na França, atravessou sete anos desde a sua inicial concepção, como um video-game (primeiramente chamado Gaina, tendo, inclusive, algumas gameplays de teste pela internet a fora) até a sua transformação em filme, escolhida por ser a única opção viável e menos cara para lidar com o material que tinham em mãos quando a empresa desenvolvedora foi à falência.

O roteiro, que conta com um grande time de escritores, tendo material adicional criado por ninguém menos que Alejandro Jodorowsky, começa com um imenso acidente de uma nave espacial na órbita de um planeta. A sequência de abertura é feita em um plano de aproximação seguido de exploração em travelling, dentro da nave, mostrando o caos absoluto e terminando com total distanciamento, seguido de explosão. Este é possivelmente o momento mais criativo de todo o filme e nos transmite com muita beleza e ao mesmo tempo, horror, o despedaçamento da nave e o sofrimento de seus tripulantes. Também temos aí uma boa introdução do elemento de ficção científica através de uma nave espacial esteticamente estranha, mas com uma beleza rústia e fascinante, mesmo em seu momento final — e ainda vale dizer que a mixagem de som nessa abertura também é a melhor de todo o filme.

Os Vecarians, sobreviventes do acidente, são mortos pelos habitantes nativos do planeta onde a nave se acidentou, mas o filme não mostra isso. A história é apenas uma consequência desse momento inicial, passando-se 600 anos após a explosão. Ao longo da narrativa, o espectador será colocado diante de conflitos interessantes sobre dominação, invasão e defesa do próprio território, assim como uma inteligente leitura sobre o florescer de uma nova espécie a partir do extermínio dos Vecarians, da posição de defesa dos Selenitas (habitantes originais do planeta, que sofreram imensas consequência negativas) e do núcleo sobrevivente da nave, o Vecanoi, que fez brotar do Eixo uma enorme árvore no céu, permitindo que ali uma nova espécie desse os seus primeiros passos. Uma verdadeira Árvore da Vida.

Em organização, a obra é até bastante objetiva. Os diretores Chris Delaporte e Pascal Pinon utilizaram a deixa de “história de sobrevivência e nascimento de uma heroína” plantada pelo roteiro e colocaram o máximo de movimentos arriscados e missões isoladas para serem vividas por Kaena (dublada por Cécile de France na versão francesa e por Kirsten Dunst na versão em inglês), uma herança do passado de video game que infelizmente não funciona o filme todo. Alguns blocos simplesmente estão ali para causar impacto mas não servem para impulsionar a história. Vejam, por exemplo, o questionamento religioso a partir do Sacerdote, que talvez nem fosse um homem tão mau assim. Há cenas demais tentando mostrar a sua estranha fidelidade aos “deuses”, embora o espectador tenha entendido isso desde o começo. E essas repetições, como era de se esperar, atrapalham o ritmo do filme e tomam espaço de situações que poderiam muito bem ser melhor exploradas, como a chegada ao destino final dos habitantes do Eixo em sua nova terra.

A animação é outro fator (parcialmente) problemático. Apesar dos grandes esforços e de parte do resultado ser muito interessante do ponto de vista estético, considerando o tipo de história sendo narrada, o filme acaba perdendo muito por sua falta de conexão com o público toda vez que apresenta os vilões. Fica difícil perceber a forma desses seres, fica difícil entender o que eles estão fazendo (botando ovos? Se manifestando? Fundindo os corpos? — em tempo: a questão da fusão, dada como o modelo de acasalamento dessa espécie, é citada e retorna mais de uma vez em cena mas, quando de fato acontece, é extremamente mal trabalhada e visualmente confusa) e fica difícil abstrair esse mundo vilanesco, diferente do Eixo e de suas criaturas.

Com algumas boas surpresas visuais, um roteiro cheio de conceitos metafísicos, de discussão sobre religião e origem de espécies (definitivamente não é um filme para crianças) e uma trilha sonora majoritariamente bem utilizada, embora os momentos de marcha não façam muito sentido, Kaena – A Profecia é uma animação fora de quase tudo o que se espera de um desenho. Mas ao mesmo tempo, é bastante condizente com o que esperaríamos de uma animação cosmológico-existencialista francesa. Não é um filme excelente, mas vale bastante a pena conhecer.

Kaena – A Profecia (Kaena: La prophétie) — França, Canadá, 2003
Direção: Chris Delaporte, Pascal Pinon
Roteiro: Patrick Daher, Chris Delaporte, Tarik Hamdine, Kenneth Oppel, Benjamin Legrand, Pierre Bordage, Alejandro Jodorowsky
Elenco (vozes): Cécile de France, Michael Lonsdale, Victoria Abril, François Siener, Jean-Michel Farcy, Raymond Aquaviva, Jean Piat, Kirsten Dunst, Richard Harris, Anjelica Huston, Keith David, Michael McShane, Greg Proops, Tom Kenny, Tara Strong, Dwight Schultz, Gary Martin
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.