Crítica | Kairo

Com a evolução tecnológica e as mudanças comportamentais das últimas décadas, a inserção das histórias de terror nesta seara não demoraram de pulular, numa demonstração da possibilidade de causar medo e pavor além das mansões mal-assombradas e acampamentos em zonas longínquas. Quando os filmes de terror tomaram como a cibercultura como base, um novo panorama se estabeleceu, mesmo que ainda não tenhamos uma produção inesquecível e já classificada como possível clássico no futuro da história do cinema. A catalogação nos mostra mais erros que acertos, tanto para os orientais quanto para os ocidentais. Kairo, dirigido por Kiyoshi Kurosawa, também responsável pelo roteiro e posterior novelização do filme é o ponto de partida para Pulse, de 2006, refilmagem que teve Wes Craven como produtor.

Na trama, acompanhamos duas histórias paralelas sobre fantasmas que invadem o nosso mundo ao utilizar a internet como portal. Na primeira, Kudo Michi (Kumiko Aso) trabalha numa floricultura de Tóquio, juntamente com Toshio (Tasatoshi Matsuo). A vida de Michi muda depois que ela decide fazer uma visita ao amigo Taguchi (Kenji Mizuhashi), jovem que faz uma forca e tira a própria vida. Sem sangue e excesso de sustos, a narrativa segue um padrão mais investigativo em torno do fantasmagórico, em especial depois que ela descobre que o suicida deixou uma mídia com alguma informação que talvez sirva de pista para compreender a rede de acontecimentos. Ao conferir o material, descobrem Taguchi a encarar o monitor de sua máquina, com algo subjetivo e assustador na tela, imagem que envolve algo/alguém a pedir socorro.

Já no desenvolvimento da segunda narrativa, seguimos os passos de uma história repleta de mistério acerca da imortalidade, da desintegração dos seres humanos diante das inovações tecnológicas encaradas como movimentos ameaçadores. Acompanhamos Ryosuke (Haruhijo Katô), um estudante de Economia que começa a ter visões nada agradáveis após instalar o seu provedor de internet. O seu computador traça alguns acessos que ele desconhece, em especial um site com imagens apavorantes de pessoas em quartos escuros, a exibir comportamentos minimamente estranhos. Certo dia ele acorda e flagra a máquina em ação sozinha. O que será que está por detrás disso? É quando o jovem busca respostas com Harue Karasawa (Koyuki). Juntos, eles compartilham a teoria de uma suposta invasão fantasmagórica do além para o físico.

Para nos contar a sua história, o cineasta Kiyoshi Kurosawa trouxe Junichiro Hayashi como diretor de fotografia, setor responsável pela iluminação sombria e pelo uso adequado do ponto de vista em diversos trechos interessados em assustar os espectadores desta narrativa com efeitos visuais básicos, mas funcionais, supervisionados por Shuji Asano. No design de produção, Tomoyuki Maruo comanda os cenários, direção de arte, figurinos e maquiagem, setores com resultados adequados para o estilo adotado por Kurosawa no desenvolvimento visual da narrativa que tem a condução musical de Takefumi Haketo, segmento que recebeu o apoio do design de som de Maki Ika, parte importante para a manutenção da atmosfera de terror desejada.

Lançado em 2001, Kairo flerta, ao longo de seus 119 minutos, com a solidão dos seres humanos diante do excesso de tecnologia, algo que hoje, quase duas décadas posteriores, pode até ser um tema comum e já bastante debatido, mas que não pode de ser ignorado, tamanha a reflexão que as novas modalidades tecnológicas tem deixado para a nossa sociedade. Em sua trajetória sobrenatural didática, o filme explica a internet por meio de alegorias de um site que alimenta as necessidades do conto tecnológico, mas não conseguem dar conta do elo humano dentro deste processo que só cresce e destrói, haja vista a falta de habilidade humana em lidar com algo que na prática deveria trazer apenas benefícios. É a conexão em prol da desconexão, tópicos tratados com cuidado por esta narrativa mediana, mas funcional como entretenimento e debate.

Kairo (Bunhongsin) — Japão, 2001
Direção: 
Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
Elenco: Kumiko Aso, Haruhiko Kato, Koyuki, Kurume Arisaka, Masatoshi Matsuo, Shinji Takeda, Jun Fubuki, Shun Sugata, Koji Yakusho, Show Aikawa, Kenji Mizuhashi
Duração: 119 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.