Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Kamchatka (2002)

Crítica | Kamchatka (2002)

por Rodrigo Pereira
388 views (a partir de agosto de 2020)

O ano é 1976. A Argentina acaba de sofrer um golpe de Estado orquestrado pelas três Forças Armadas do país, destituindo do governo Isabel Perón, então presidente. A ditadura militar tem início e com ela o período da “Guerra Suja”, no qual milhares de pessoas contrárias ao regime ditatorial são mortas ou dadas como “desaparecidas”. É em meio a todo esse conflito e tensão que se passa Kamchatka, filme argentino de 2002, estrelado por Ricardo Darín e Cecilia Roth com direção de Marcelo Piñeyro.

O filme acompanha essencialmente quatro personagens: o pai/David Vicente (Darín), a mãe (Roth), o filho mais velho/Harry (Matías Del Pozo) e o filho mais novo (Milton De La Canal). Por fazerem parte da resistência, a mãe e o pai vêem-se obrigados a fugir dos militares para sobreviver e saem da cidade com seus filhos para uma casa afastada no campo. Visando evitar ao máximo serem descobertos, assumem novos nomes e identidades sem deixar de lutar e resistir contra as forças do governo.

Apesar de toda a história acontecer por conta do golpe de Estado realizado pelas forças militares, eles quase não aparecem em tela. O único momento no qual os vemos é em uma cena inicial, quando a mãe passa com seus dois filhos por uma espécie de blitz militar. Depois disso, assumem um papel quase de assombração, sendo referidos pelos protagonistas só através da fala. Tornam-se apenas uma presença, semelhante ao que Christopher Nolan fez com os nazistas em Dunkirk. Você não os vê, mas sabe que estão lá e os teme por isso.

Dentre todos os méritos da obra, esse é, sem dúvidas, um dos principais. Fazer com que a ameaça nos deixe alertas, e até mesmo agoniados, durante toda a projeção sem que o inimigo apareça de fato não é uma tarefa fácil. No entanto, a forma como Piñeyro constrói a narrativa corrobora para o sentimento de perigo estar sempre presente. As constantes idas da mãe à cidade, possivelmente para reunião com os rebeldes, e o estúdio onde o pai trabalha ter sido atacado pelos militares, por exemplo, nunca são mostrados, somente mencionados. Ao inibir essas cenas, o diretor deixa a imaginação dos espectadores assumir o controle e criar as mais diversas hipóteses, produzindo uma tensão contínua.

Outro ponto muito interessante a se destacar é o figurino. A direção foi bastante hábil em utilizar as vestimentas para demonstrar tanto o pertencimento das personagens a grupos quanto seus sentimentos. A personagem de Roth, por exemplo, utiliza durante quase toda a película roupas na cor vermelha, uma cor historicamente ligada a movimentos revolucionários como aos que ela pertencia. Inclusive, a personagem da atriz musa de Pedro Almodóvar é a mais utilizada para externar sentimentos através das cores. Ao passo que o vermelho é utilizado sempre em momentos de felicidade com o núcleo familiar, como uma forma de revigorar as energias e continuar lutando pela causa que acredita, ela utiliza cores como verde escuro em momentos de solidão e desesperança, como quando percebe que os militares estão próximos de descobrir seu esconderijo.

Ademais, o núcleo familiar é praticamente o único com foco durante a obra (e abordado de forma excelente). As cenas mais gostosas são as que estão todos reunidos em casa conversando na mesa de jantar ou dançando na sala ao som de O Calhambeque, música eternizada por Roberto Carlos. É absolutamente fácil encontrar-se com um enorme sorriso de orelha a orelha enquanto assiste esses momentos familiares, que são maximizados pelas excelentes atuações de Darín, Roth, Del Pozo e De La Canal (difícil escolher quem entrega a melhor atuação entre os quatro, inclusive).

As analogias também possuem papel de destaque na produção. A mais utilizada é com o jogo de tabuleiro TEG (versão argentina do famoso WAR, onde ganha quem conquistar um determinado número de países primeiro), em que Harry e David jogam por várias vezes. Em determinado momento, após David ter vencido todas as partidas, Harry consegue resistir quando lhe resta apenas um território chamado Kamchatka (daí o nome do filme). David tenta de todas as formas conquistar o último país e ataca de todos os lados, mas seu filho resiste bravamente sem jamais entregar-se. A analogia com movimentos revolucionários, principalmente com o que os pais fazem parte, é claríssima, nos quais o modus operandi é sempre através da resistência contra tropas historicamente mais numerosas.

Apesar do pano de fundo ser o golpe de estado, o foco de Kamchatka é nessa família de rebeldes que luta contra os abusos realizados pelos militares. Ao elaborar uma atmosfera totalmente acolhedora, mas constantemente ameaçada por seus perseguidores, o filme concilia perfeitamente os sentimentos de carinho e afeto com medo e apreensão, criando uma emocionante e trágica narrativa que reflete a realidade de muitos argentinos que viveram durante esse regime.

Kamchatka — Argentina, Espanha, 2002
Direção: Marcelo Piñeyro
Roteiro: Marcelo Piñeyro, Marcelo Figueras
Elenco: Ricardo Darín, Cecilia Roth, Matías Del Pozo, Milton De La Canal, Tomás Fonzi, Héctor Alterio, Fernanda Mistral
Duração: 106 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais