Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Kamikaze 1989

Crítica | Kamikaze 1989

por Luiz Santiago
5 views (a partir de agosto de 2020)
Baseado no livro Assassinato no 31º Andar (1966), de Per Wahlöö, Kamikaze 1989 é uma aventura cyberpunk que se passa em uma realidade social totalitária da Alemanha, num futuro próximo, onde a estrutura econômica da nação parece ir de vento em popa, onde o Estado está nas sombras observando tudo e onde a mídia -- especialmente a alienativa e viciante -- domina os lares e as mentes. Esse conglomerado midiático é gerido pelo Konzernchef (Boy Gobert), apelidado de O Pantera Azul. Ele tem apenas um inimigo, o grupo terrorista chamado Krysmopompas, violento opositor dos métodos e da programação idiotizante, no melhor estilo "lavagem cerebral" que o conglomerado empreende. Plano Crítico.

Baseado no livro Assassinato no 31º Andar (1966), de Per WahlööKamikaze 1989 é uma aventura cyberpunk que se passa em uma realidade social totalitária da Alemanha, num futuro próximo, onde a estrutura econômica da nação parece ir de vento em popa, onde o Estado está nas sombras observando tudo e onde a mídia — especialmente a alienativa e viciante — domina os lares e as mentes. Esse conglomerado midiático é gerido pelo Konzernchef (Boy Gobert), apelidado de O Pantera Azul. Ele tem apenas um inimigo, o grupo terrorista chamado Krysmopompas, violento opositor dos métodos e da programação idiotizante, no melhor estilo “lavagem cerebral” que o conglomerado empreende.

O maior destaque que podemos dar a Kamikaze 1989 é o fato de ele trazer o último trabalho cênico do grande Rainer Werner Fassbinder, que morreu em junho de 1982, um mês antes da estreia da fita (e alguns meses antes de seu derradeiro longa como diretor, Querelle). A assinatura aqui é de Wolf Gremm, que realiza uma ficção científica mesclando elementos caros ao noir, na composição do policial interpretado por Fassbinder, e fortemente mergulhado no thriller de amplo alcance crítico. A adaptação do romance, feita pelo diretor e por Robert Katz, foca muito na imbecilização da população e principalmente dos trabalhadores diante da TV e de seus bizarros programas de entretenimento, mas, ao mesmo tempo, não se dá o trabalho de aprofundar nada.

Assim, tanto Fassbinder quanto Günther Kaufmann e os outros personagens do principal núcleo da película possuem uma configuração rasa, reagindo rapidamente a tudo, mas sem ter muita coisa que os faça crescer na narrativa. Como nem o próprio Fassbinder está atuando bem aqui (claramente muito cansado), o espectador acaba ficando órfão de um maior engajamento emotivo na obra. Alguém muito apaixonado poderia justificar que esta era a intenção do roteiro e do diretor, ou seja, tornar os personagens mais frios e distantes, todavia, o que vemos na tela não sustenta em nenhum momento esse tipo de argumento.

Há a tentativa do roteiro em criar atmosferas específicas, especialmente quando toca no lado profissional do protagonista, mas todo esse esforço termina perdendo espaço para uma outra grande ação e, dessa forma, só temos maior escopo psicológico, emocional ou comportamental através da trilha sonora (que conta com um trecho famoso da abertura da ópera O Barbeiro de Sevilha) e da excelente direção de fotografia, a cargo de um parceiro de trabalho de Fassbinder, Xaver Schwarzenberger. O trabalho de cores feito aqui é espetacular, especialmente nas tomadas internas, criando uma impressão geral de ambiente futuristas muito mais pela forma como o fotógrafo ilumina o ambiente do que pelo trabalho do desenho de produção, que traz uma visão meio decadente e meio kitsch para representar essa realidade. Note como a câmera explora muito a arquitetura, deixando os personagens insignificantes, impotentes diante da grandiosidade do mundo à sua volta, fortalecendo a ideia de alienação que o enredo propõe.

É possível aproveitar Kamikaze 1989 bem mais pelo seu aspecto estético do que narrativo, mas a unidade da obra termina em um bom lugar. Mesmo sendo confuso e com muitas camadas dramáticas não resolvidas, o ideal de um mundo estúpido e controlado pela TV é transmitido com certa solidez e toda a trajetória de perseguição dos bandidos pelo policial interpretado por Fassbinder pode, inclusive, gerar diferentes interpretações nos espectadores, seja pela força fascista destruindo uma tentativa de quebra violenta do sistema, seja pela possibilidade de tudo isso ser um jogo “de dentro” da própria Corporação, supostamente atingida, criando um problema para dar cabo de seus detratores, mantendo-se ativa e cada vez mais forte. Comportamento que conhecemos muito bem dos conglomerados midiáticos em nossa própria realidade, dando ao filme um valor crítico que sobreviveu bem ao tempo.

Kamikaze 1989 (Alemanha Ocidental, 1982)
Direção: Wolf Gremm
Roteiro: Wolf Gremm, Robert Katz (baseado na obra de Per Wahlöö)
Elenco: Rainer Werner Fassbinder, Günther Kaufmann, Boy Gobert, Arnold Marquis, Richy Müller, Nicole Heesters, Brigitte Mira, Jörg Holm, Hans Wyprächtiger, Petra Jokisch, Andreas Mannkopff, Ute Koska, Frank Ripploh, Hans-Eckart Eckhardt, Christoph Baumann, Juliane Lorenz, Christel Harthaus, Franco Nero
Duração: 106 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais