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Crítica | Keita! O Legado do Griot

por Davi Lima
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Keita! O Legado do Griot

Quando se compreende o efeito da história oral sobre o presente e a maneira objetiva como o audiovisual concretiza o drama do conhecimento histórico afetando o contemporâneo, sem abrir mão do realismo que o cerca em questão de percepção conflituosa, o diretor e roteirista Dani Kouyaté emprega fortemente o valor religioso e transformador da compreensão dos ancestrais ao exercitar a narrativa teatral dentro do cinema. Nesse emprego, ao invés de tornar o audiovisual submisso ao cenário estático de um plano aberto da fotografia presente no filme, na verdade permite que a oralidade, a verbalização e os diálogos do Griot, que contam a história do passado, sejam fluidos na apresentação. Por essa ênfase na contação de história, aglutina-se a temporalidade progressivamente pelo movimento transformador, sobrenatural, que o pretérito flui na representação teatral de base durante o longa-metragem. 

Desde o começo do filme, a narração apresenta um caráter de movimento, como numa relação harmônica de acordar o Griot deitado, na primeira cena, para a aventura de chegar à cidade e fazer sua missão de trazer a história dos antepassados como ensinamento. A ideia de lateralizar a narrativa no início, quando explicitamente o personagem vai da esquerda para a direita, numa espécie de planificação horizontal das cenas, já apresenta a dinâmica temporal em que Griot se transporta para o presente para trazer o passado, não necessariamente explicativo, mas “epifânico”, para a realidade do garoto Mabo Keita na cidade. 

O filme se centraliza muito em volta do Griot, não apenas a fotografia caminha com alguns personagens até parar quando todos estão posicionados próximo dele, como os planos mais fechados, mais próximos do ator Sotigui Kouyaté, que interpreta Griot, explicitam esse centralizamento. Logo, tanto a teatralidade é trazida por ele, acompanhando-o até o centro da história com a família da criança Mabo, no presente, como a narração introdutória do filme, que harmoniza com sua apresentação na primeira cena, parece se transportar para ele, tendo em vista que no exercício da história oral, a teatralidade, com a fotografia mais fechada no rosto do ator, é quebrada, colocando em pauta que o que se conta na verbalização é transformadora do universo da obra. 

Assim, quando o passado é colocado em cena, o que diferencia essencialmente suas figurações são os valores mais teatrais e realistas, como cenário e vestimentas, mas a fotografia se mantém parelha ao presente, com planos abertos e médios, sempre colocando o espectador numa visão mais teatral para a imersão. No entanto, a partir do passado e da narrativa mais sobrenatural que Griot conta, com búfalos personificados, transformação de pessoas em bichos e produções sonoras na edição de som, o teatral vai se tornando mais evidente, porque é o que permite que a magia, a crença na história do passado seja realista na mesma medida em que o presente realisticamente é apresentado de maneira teatral na forma de ser gravado o filme. 

Além disso, o fator que conflui para que progressivamente a história oral de Griot, ilustrada nessas cenas, torne-se cada vez mais relacionada com o presente é a montagem natural das cenas, em que a simultaneidade vai se revelando, seja nas transições secas de uma imagem do presente para uma do passado, como o presente vai sendo modificado tematicamente como o passado. Ou seja, não há relações explícitas entre as duas histórias, mas o conflito de Mabo com contexto de escola e de família, por causa de tempo dedicado a pensar nas histórias do Griot, relaciona-se fortemente com a história contada por Griot sobre a crença dos ancestrais nas profecias e do personagem Caçador que com os búzios revela o futuro do reino antigo do Mali. 

Dessa forma, o trabalho de direção de Dani Kouyaté vai se revelando muito além do que permitir, por exemplo, uma plausibilidade e verossimilhança no tratamento audiovisual, com orçamento e construção de universo, de contar histórias antigas e ancestrais com o intuito de tornar impactante o presente. O trabalho do diretor exercita a crença na história oral numa medida religiosa que transparece na forma de contar a sua história cinematograficamente. Não por acaso, chegando mais próximo do final do filme, ele utiliza artifícios mais elaborados que vão tornando a imagem e a representação do presente intimamente relacionadas com a ilustração do passado, porque concretiza no audiovisual o poder da oralidade para conhecer melhor a realidade, como o significado do nome de Mabu, e compreender a temporalidade que rodeia na escola. As rimas visuais, como a da árvore que Sundjata Keita, o ancestral de Mabo, derruba como efeito sobrenatural da definição da profecia, e a transição para a imagem de Mabo contando essa mesma história de seu ancestral para seus amigos na escola em cima de uma árvore concretizam o poder da história oral e do conhecimento de Griot. A narração de Mabo vai sobrepondo a ilustração, tudo isso sem introdução, apenas na progressividade narrativa natural do filme.

Finalmente, os conflitos do filme se tornam uniformes, como o ancestral de Mabo sendo tão problemático para seu contexto quanto Griot era com Mabo para o contexto do presente. O diretor Dani ainda explicita a transformação da realidade de Mabo quanto ao pássaro totem, a simbologia da árvore e o reconhecimento da criança de uma figura do passado apenas pela oralidade, e que o espectador pode reconhecer pela ilustração dela. Assim, com uso da teatralidade e exercício realista com tal artifício de composição fílmica, não impede a noção sobrenatural, a captação de planos de paisagens que introduzem o naturalismo do passado, rivalizando com o presente que se passa apenas na casa e na escola de Mabo. Nesse trabalho todo de produção, o efeito da oralidade se expõe como temporalmente transformador, mágico na concretude da realidade, seja no discurso do filme ou ao trazer isso para a experiência do espectador, na maneira narrativa de tratar a história oral tão relevante para a cultura africana.

Keita! Voice of the Griot (Keita! L’héritage du griot) – Burkina Faso, 1997
Direção: Dani Kouyaté
Roteiro: Dani Kouyaté
Elenco: Seydou Boro, Hamed Dicko, Abdoulaye Komboudri, Sotigui Kouyaté, Seydou Rouamba, Claire Sanon, Mamadou Sarr, Blandine Yaméogo
Duração: 94 minutos

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2 comentários

Dyel Dimmestri 15 de março de 2021 - 00:36

Que coincidência… Acabo de ler a Graphic MSP Jeremias: Alma, continuação de Jeremias: Pele, dos mesmos autores, Rafael Calça e Jefferson Costa, e nesta sequência, eles falam justamente do griot, ou griô,na versão brasileira.
Aliás, quando que o pessoal do Plano Crítico vai fazer a crítica de Jeremias: Alma?

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Davi Lima 15 de março de 2021 - 00:36

Olha aí! kkkkk. Massa. O exercício de Griot de contar histórias e ser um instituição cultural de um povo fez com que vários griots entrassem no mundo das artes, sendo alguns músicos, atores (como o Sotigui) e contadores de histórias.

Sobre “Jeremias: Alma”, vou levar sua perguntar ao archive olimpiano do Plano Crítico. Valeu pela sugestão!

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