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Crítica | Kika (1993)

por Laisa Lima
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Se Laura (Otto Preminger, 1944) e seu noir encontrassem Almodóvar e sua extravagância, o filme que resultaria seria no mínimo peculiar. A paixão de uma viva por um morto poderia continuar lá, assim como a misteriosa morte de uma mulher. A grande diferença entre o longa-metragem de Preminger e um de Almodóvar, entretanto, se encontraria nas escolhas. O taciturno preto e branco na tela se converteria em cores vivas, vibrantes e vivazes, enquanto a austeridade esperada de uma temática homicida ou suicida, não se sustentaria no interior de algo que pouco se leva a sério. Chamada de Kika (1993), a obra descrita acima existe e configura a gama de trabalhos feitos pelo diretor espanhol, mostrando que toda sua irreverência nem sempre está em pé de igualdade com o bom gosto.

Kika (Verónica Forqué) temia maquiar o “cadáver” Ramón (Àlex Casanovas), supostamente recém falecido na casa do ex-amante da moça, Nicholas (Peter Coyote), também padrasto do rapaz. O receio some quando Ramón desperta. O personagem e a maquiadora, então, passam a viver um romance mais tarde bagunçado com a inserção de subtramas e eventos paralelos, os levando até uma crise no relacionamento e na individualidade de cada um. Não cabe uma menção direta a tais acontecimentos, já que a graça está no embarque das situações eminentemente graves da obra, mas que se desenrolam em contornos mais excêntricos do que comedidos. 

A falta de normalidade provavelmente não é um problema para os fãs dos filmes de Almodóvar, até porque o próprio não tenta nem disfarçar sua preferência pelo original e pelo atípico. Em Kika, a somatização de temáticas quase aleatórias em um alinhamento de temporalidade um tanto confusa, se materializa em uma história que dá protagonismo não só para a personagem do título, mas também para todo resto do elenco. Apesar de ter em Kika o mais próximo de uma heroína intencionalmente falha, os demais personagens se estagnam em caricaturas que podem ser desenhadas pelo público, como o criminoso doente e sua possível vítima. A facilidade na identificação das personas envolvidas na obra é atribuída ao temperamento já indutivo dos mesmos que, reforçado pelo roteiro, transparece todas as intenções destes indivíduos.

Durante todo o longa-metragem, a acessibilidade de informações essenciais nunca é simples. Embora a obviedade nos trejeitos dos personagens, a quantidade de temáticas embutidas na trama é esmiuçada de maneira a se descobrir novos dados sobre o enredo a cada momento. Psicopatia, traição, incesto, lesbianismo, etc; estão no combo dos temas do filme que, como é de praxe nas películas de Almodóvar, são tratadas com sarcasmo e total liberdade. Tal empoderamento, como é igualmente comum nos trabalhos do cineasta, vem na sexualidade exposta sem muitas regras ou pudores, com os integrantes do filme estando abertos para a realização de quaisquer que sejam seus desejos. A franqueza para se abordar tabus como o já referido incesto, dá um tom de autonomia narrativa, na qual é permitido o uso de algumas cenas absurdas, mas que se encaixam bem na apreciação da película pela desconstrução.   

Para a criação do universo fílmico de Kika, o auxílio de músicas nativas da Espanha no início do filme são apenas a porta de entrada para o inconfundível estilo do diretor Almodóvar. As formas geométricas na casa da protagonista e o marcante vermelho, na camisa de Ramón ou em qualquer outro artifício cênico, não deixam margem para uma confusão estética, ainda mais quando os ângulos inusitados (a câmera pela pequena janela redonda da porta, o reflexo dos personagens em um lago sujo, entre outros) de Almodóvar são vistos. A predileção por um estilo mais satírico e menos melancólico, abusando de um toque cômico em eventos de alta gravidade, como violações sexuais, aqui perde um pouco a medida, já que o intuito – pelo menos aparente – da aderência ao visual do cineasta ultrapassa a artificialidade que, no geral, é uma virtude do mesmo.

Com quase 2 horas de filme, Kika poderia ter sido “enxugado” até o ponto da pomposidade de Almodóvar não se tornar maçante. Apesar de algumas qualidades dos filmes do diretor estarem ali, a surrealidade que ele traz por intermédio de trabalhos divertidos, cenograficamente bonitos e provocativos em relação aos argumentos contidos neles, não tem tanta força assim. O que nota-se é uma mensagem vaga e já transmitida de melhores jeitos pelo cineasta, que, assim como prezou em películas como Ata-me (1989), tentou focar em acontecimentos fora do comum, se esforçando para fazer deles ainda mais extraordinários e, claro, exóticos. Todavia, a conclusão foi uma obra com lampejos de uma boa comédia e traços fortes, mas não trabalhados, da singularidade de Almodóvar. Se comparado com outros longas-metragens do artista, este é capaz de ser um dos que mais se distancia do cinema peculiar mas estranhamente reflexivo projetado por ele. Tendo isto em vista, o que falta em Kika é aquele estranhamento bom que apenas Almodóvar consegue causar.

Kika (Kika – Espanha, França, 1993)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Verónica Forqué, Peter Coyote, Victoria Abril, Rossy de Palma, Santiago Lajusticia, Anabel Alonso, Bibiana Fernández, Jesús Bonilla, Karra Elejalde, Manuel Bandera, Charo López
Duração: 114 min.

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