Crítica | Kill Bill Vol. 1 (Trilha Sonora Original)

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O primeiro volume de Kill Bill foi a quarta grande incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. No filme, a personagem principal, Beatrix Kiddo, interpretada por Uma Thurman, segue numa sangrenta trajetória de vingança contra o seu ex-amante e chefe Bill, mentor do Esquadrão das Víboras Mortais. Alimentada pelo provérbio “a vingança é um prato que se serve frio”, Kiddo caminha rumo ao seu projeto, embalada por sons polifônicos da música pop e rock, comuns ao estilo “tarantinesco”, com inclusão de outras manifestações sonoras tão multifacetadas quanto os gêneros cinematográficos referenciados no roteiro.

Contada fora da ordem cronológica e com cinco capítulos, complementados pelos próximos cinco que fecham um ciclo de dez em Kill Bill Volume II, a produção estabelece a metalinguagem ao trazer filmes de ação asiáticos, elementos do kung-fu e samurais, animes e western spaghetti para composição da teia narrativa. Tal como Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência e Jackie Brown, mais uma vez, traz na mescla de estilos distintos com diálogos dos personagens o diferencial no ramo das trilhas sonoras, material que nesta quarta incursão, ganhou alguns detalhes diferentes que serão expostos na análise, mais adiante.

As seguintes faixas compõem o álbum: Bang Bang (My Baby Shot Me Down), interpretada por Nancy Sinatra; That Certain Female, por Charlie Feathers; The Grand Duel (Parte Prima), conduzida por Luis Enrique Bacalov; “Twisted Nerve”, de Bernard Herrmann; Queen of the Crime Council, por Julie Dreyfus; Run Fay Fun, por Isaac Hayes; Battle Without Honor or Humanity, por Tomoyasu Hotei; Don’t Let Me Be Misunderstood, por Santa Esmeralda; Woo Hoo, do grupo The 5.6.7.8’s; The Flower of Carnage, por Meiko Kaji; The Lonely Shepherd, interpretada por Zamfir; You’re My Wicked Life, de David Carradine; Ironside, por Quincy Jones; Super 16, do grupo alemão NEU!, além de Crane-White Lightning, Yakuza Oren 1, Banister Fight, Flip Sting, Sword Swings, Axe Throws e Ode to Oren Ishii, sonoridade oriunda da condução do RZA.

Em Bang Bang (My Baby Shot Me Down), interpretada por Nancy Sinatra, uma guitarra solitária estabelece o clima de luto, dor e “ódio”, elementos que alimentam a revanche de Kiddo, acompanhada por versos que entoam “meu querido me deixou no chão”. Ao longo dos oito minutos de Don’t Let Me Be Misunderstood, de Santa Esmeralda, contemplamos um arranjo afinadíssimo de cordas. O peruano Luis Bacalov, um dos melhores momentos da trilha sonora, adorna a animação inserida na narrativa. Por meio de sirenes, violões e uma percussão declaradamente relacionada ao trabalho de Ennio Moricone, The Grand Duel (Parte Prima) enriquece o trabalho, da mesma maneira que a orquestra crescente de Bernard Hermann em Twisted Nerve, diegética ao ser assobiada por uma enfermeira numa cena-chave da história.

Ademais, as faixas produzidas pelo rapper RZA ofertam ao ambiente sonoro do filme alguns traços do que a crítica musica classificou de hip hop alternativo, gangsta rap e hardcore hip hop. Interessante os efeitos sonoros e os estilos que se conectam com o seu produtor, artista que em sua trajetória dialogou sobre a violência. Do hip hop alternativo, percebemos o pouco apelo comercial e a oposição ao pop rap, mais palatável, digamos, aos ouvintes de segmentos comerciais. Do hip hop hardcore tem-se de herança a “rebeldia indomável” e no caso do gangsta rap, adentramos na zona do sampler, do rapping e do beatbox, isto é, a percussão vocal que emula os sons de alguns instrumentos musicais.

Em suas composições, RZA geralmente debateu o cotidiano violento dos jovens de sua região, alegoria para os conflitos humanos de qualquer metrópole, centros de interação repletos de violência, criminalidade e outras celeumas da vida contemporânea, presentes no desenvolvimento da saga de Kiddo, a “Noiva Assassina Vingativa”. Assim, podemos inferir que a trilha reflete o legado do filme, isto é, a vingança como tema, os diálogos afiados da cinematografia de Tarantino e, nesse fluxo de referências nem sempre orgânico, a maneira como a música no bojo de produção, pensada durante a realização do roteiro.

Kill Bill Vol. 1 – Trilha Sonora Original é um trabalho repleto de hinos de espionagem, pop oriental, rockabilly, música disco dos anos 1970, dentre tantos subgêneros que mixados, criam na zona sonora a mesma sensação da seara visual, múltipla e bastante dinâmica. Forjada por Tarantino para criar o “estranhamento” quando consumida dissociada da experiencia audiovisual, a trilha permite sensações que não estamos acostumados a dialogar em nosso consumo cotidiano. Em suma, um trabalho seletivo crítico, irônico e encorpado, realizado por um cineasta preocupado com cada milímetro de filme exibido em tela ao seu público cativo.

Kill Bill Vol. 1 (Original Soundtrack)
Compositor
: Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2003
Estilo: Rock, Country, Pop, Indie, Folk, Jazz, Oriental

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.