Crítica | Kill Bill Vol. 2 (Trilha Sonora Original)

Kill Bill Vol. 2  foi a quinta grande incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. Ou a quarta “presença”, parte 2, afinal, a produção é continuação do material do primeiro, inteligentemente dividido em duas partes para que comercialmente, a trama não ocupasse quatro horas de sessão nas salas de exibição. A decisão entre os produtores e realizadores, no entanto, se revelou saudável para a condução de Beatrix Kiddo, afinal, depois de tanta informação processada no delirante estabelecimento da metalinguagem do primeiro filme, a mente dos espectadores precisava de um descanso para a próxima etapa, mais filosófica e contemplativa.

Kiddo continua furiosa? Sim, mas desta vez, ela caminha em passos mais calculados e amenos, tendo como alvo os dois tópicos que ainda faltam ser “ticados” em seu mural vingativo: Bill e a debochada antagonista da Daryl Hannah. Diante do exposto, os filmes de samurai, os provérbios orientais, a mescla de western spaghetti, blaxploitation, numa fusão entre orientais e ocidentais traz ao filme a pulsão necessária para acompanharmos o embalo da vingança. Dentre os gêneros dominantes no álbum, encontramos a presença da música country e latina, texturas percussivas, rock e pop oriental, juntamente com a sonoridade dos efeitos produzidos por RZA, aproveitados pelo produtor central da trilha de Kill Bill Vol. 2, o cineasta Robert Rodriguez.

As seguintes faixas compõem o álbum: A Few Words from the Bride, prenúncio da segunda jornada, exposto por Uma Thurman em seu “aviso” Uma Thurman; Goodnight Moon, de Shivaree, Can’t Hardly Stand It, de Charlie Feathers; Tu Mirá (edit) de Lole y Manuel, Summertime Killer, conduzida por Luis Bacalov; The Chase, de Alan Reeves, Phil Steele, and Philip Brigham; The Legend of Pai Mei, condução de David Carradine e Uma Thurman; A Satisfied Mind, de Johnny Cash; About Her, de Malcolm McLaren; Truly and Utterly Bill, de David Carradine e Uma Thurman; Malagueña Salerosa, de Chingon; Urami Bushi, de Meiko Kaji; Black Mamba, de The Wu-Tang Clan. Il tramonto, L’arena e A Silhouette of Doom são as composições de Ennio Morricone, fundamentais no desenvolvimento da trilha e do filme.

Em A Few Words from the Bride, monólogo de Uma Thurman, acompanhamos a sua declaração cheia de vida e ironia, adornada por um cinismo e deboche oxigenados por seu desejo de vingança, momento brilhante que dispensa a presença de arranjos sofisticados demais. O som latino de Malagueña Salerosa, da  banda Chingon, de Robert Rodriguez, demarca os créditos finais. Ao longo de Il tramonto, de Ennio Morricone, adentramos na zona em que a trilha emula traços dos filmes de Sergio Leone, uma referência escancarada, paixão tarantinesca presente em outros filmes do cineasta. É a conexão entre os polos mundiais: a flauta diegética de Bill do lado de fora da capela, ao prenunciar a pancadaria, traz uma melodia sutil e suave para a composição.

L’arena é a condução sonora do seu enterro, situação que permite a escapatória com base nos princípios de seu mentor e A Silhouette of Doom, com suas notas sinistras e tom de agourento, surge no clímax para selar a saga que acompanhamos, com seu ótimo desfecho anticlimático. Ademais, ao converter cinema noir em western, ao relacionar pop e rock ocidental com riffs de guitarra e outros instrumentos orientais, Tarantino permite ao som de seu filme uma mistura irônica que reflete a “rebeldia” narrativa de um roteiro que não se permite ser enquadrado no modelo padronizado hollywoodiano, tomado pela indústria cultural em escala global, isto é, tramas com atos certinhos, organizadas de maneira padronizada, com situações fixas e previsíveis, oriundas de leitores viciados em Syd Field e seu Manual de Roteiro, jornada bíblica e receita de bolo para muitos realizadores ainda no final da década de 2010.

Kill Bill Vol. 2 (Original Soundtrack)
Compositor:
Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2004
Estilo: Rock, Latino, Pop, Country, Oriental, Folk, Soundtrack

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.