Crítica | Kill Bill: Volume 1

estrelas 5

Se existisse um glossário para cinéfilos geeks, ele provavelmente seria chamado Kill Bill: Volume 1. Quentin Tarantino abriu completamente as comportas de sua capacidade de reunir gêneros e fazer citações e homenagens e juntar tudo em um filme quase inclassificável quando desistiu – temporariamente – de produzir Bastardos Inglórios e passou a focar na saga da personagem A Noiva, criada por ele e Uma Thurman durante as filmagens de Pulp Fiction, resultando em uma obra imensa de quatro horas de duração que ele acabou dividindo em duas partes muito diferentes entre si.

Resumidamente, Kill Bill é uma história de vingança. O que a personagem criada e vivida por Thurman quer fazer está escrito no próprio título para não deixar dúvidas e, nessa primeira parte, o que vemos é o começo de sua jornada, eliminando, primeiro, seus antigos parceiros de crime, membros da equipe DiVAS (Deadly Viper Assassination Squad), comandada pelo misterioso Bill (David Carradine) que, a não ser por sua voz e por duas vezes de relance, não aparece na projeção, ficando reservado para o Volume 2. O que Tarantino faz, aqui, é criar, cultivar e desenvolver uma lenda, uma mitologia ao redor tanto da Noiva quanto do grupo a que pertencia e, claro, a Bill. Em mãos menos hábeis, a simplicidade da premissa poderia resultar em algo trivial, sem grandes arroubos criativos, mas é claro que Tarantino não deixa barato e transforma uma narrativa básica e objetiva em um universo próprio, rico de detalhes e contada, claro, da maneira menos linear possível. E, se ele sempre fez referências cinematográficas em seus filmes anteriores, aqui ele mais abertamente cria um filme – ou, talvez, melhor dizendo, uma carta de amor – de um cinéfilo para cinéfilos.

Assim, Kill Bill: Volume 1 é um presente para quem sabe, por exemplo, que o ator Sonny Chiba, que vive Hatori Hanzo, o lendário fabricante de espadas, era, na década de 70, um ícone dos filmes de luta orientais, tornado particularmente famoso pela série Street Fighter. E a coisa fica ainda mais interessante se é feita a ligação dessa ótima escalação com o começo de Amor à Queima Roupa, filme de 1993 escrito por Tarantino e dirigido por Tony Scott, em que o personagem de Christian Slater vai ao cinema para ver uma sessão tripla dos filmes de Chiba. Eu poderia discorrer aqui sobre dezenas e dezenas de referências, como as óbvias de Besouro Verde e Jogo da Morte, passando pelas menos óbvias como Lady Snowblood: Vingança na Neve e Yojimbo, o Guarda-Costas e Sanjuro e, mesmo assim, deixaria de fora outras dezenas que deixei passar por absolutamente desconhecê-las. No entanto, isso seria uma perda de tempo.

Afinal de contas, Kill Bill: Volume 1 não funciona só para cinéfilos que cavam profundamente em baús cinematográficos como Tarantino. Sim, certamente há camadas e camadas para eles (nós?), só que Tarantino sabe criar atrativos para tornar o filme universal e, literal e amorosamente, apropriar-se de obras e conceitos anteriores para, como de praxe, criar algo seu e só seu com enorme apelo para o público em geral que suportar a violência que aqui mais do que em qualquer outra obra do cineasta, ganha banhos generosos de estilização e exagero.

E as técnicas usadas na fita são muito atraentes. Não só temos a visceral e curiosamente cômica coreografia de luta de facas entre a Noiva e Vernita Green (Vivica A. Fox) que é o primeiro ato de vingança que vemos, como também o complexo plano-sequência “aéreo” e sem cortes durante toda a performance de Woo Hoo, do The Rock-A-Teens, pelo grupo 5.6.7.8’s no House of Blue Leaves e que marca o início da vingança da protagonista contra O-Ren Ishii (Lucy Liu), desta vez paramentada com o uniforme icônico de Bruce Lee e portando sua espada Hattori Hanzo, passando pelo interlúdio em anime que nos conta a origem de O-Ren e, claro, o longo combate contra os Crazy 88 (que, conforme aprendemos no Volume 2, não são 88 nada). Essa sequência de luta e carnificina, 100% criada com efeitos práticos e cheia de wire-fu, é a representação máxima dos filmes trash orientais de lutas marciais, com direito a alteração para fotografia em preto e branco (dizem que para reduzir a impressão de gore, mas a troca me parece deliberada demais e belíssima), luta em contra-luz azul e tudo preludiando o conflito direto, silencioso e elegante das duas inimigas na neve ao som de Don’t Let Me Be Misunderstood, de Santa Emeralda.

Para os que dizem que Tarantino é estilo sobre substância, Kill Bill: Volume 1, tenho certeza, é a prova mais importante desse pré-julgamento e não há mesmo o que dizer contra isso (mas só nesse caso específico). Mas convenhamos que, se todo o estilo sobre substância tivesse essa fusão de estilos que o cineasta amalgama como um maestro enlouquecido regendo uma orquestra eclética formada pela Sinfônica de Berlim, banda de heavy metal e uma agremiação de Bumba Meu Boi, então que venham outras obras assim. As peças podem não combinar a primeira vista, mas o resultado é, por incrível que pareça, harmônico e muito bem executado, o que não se pode dizer de diversos outros exemplos de filmes que destacam sua forma e afogam sua substância.

Porque sim, esse filme é mesmo, inescapavelmente, uma experiência sensorial sem maiores significados profundos escondidos em subtramas, com Tarantino realmente privilegiando a estética e deixando-a ditar seus capítulos que contam a já mencionada simples história de vingança. Aqui, vemos um cineasta novamente saindo de sua zona de conforto de diálogos espertos de pegada pop para criar uma super-heroína invencível em uma fita que, mais do que todas as três que vieram antes, tem como objetivo entregar um espetáculo visual costurado a partir de pedaços de obras anteriores recriados no estilo Tarantino sem qualquer tipo de freio que não fosse sua imaginação e capacidade aparentemente infindável de de Sally Menke de costurar o que deveria permanecer separado.

Uma coisa é certa: não há como ficar indiferente a Kill Bill: Volume 1, seja você um cinéfilo hardcore que listará todas as referências usadas por Tarantino ou uma “pessoa normal” que gosta de cinema apenas. Kill Bill é caricato e exagerado, mas nunca confuso e monótono. É uma ode a um tipo de cinema que não existe mais e um presente de Tarantino que, seis anos após Jackie Brown, volta às suas raízes, mas desta vez sem segurar nas rédeas, criando, no final das contas, uma catarse explosiva sem igual.

  • Crítica originalmente publicada em 1º de janeiro de 2016, mas completamente remasterizada para republicação no dia de hoje, 07/08/19.

Kill Bill: Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1, EUA – 2003)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba, Chia-Hui Liu, Michael Parks, Michael Bowen, Jun Kunimura
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.