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Crítica | Kill Bill: Volume 1

por Ritter Fan
740 views (a partir de agosto de 2020)

Se existisse um glossário para cinéfilos geeks, ele provavelmente seria chamado Kill Bill: Volume 1. Quentin Tarantino abriu completamente as comportas de sua capacidade de reunir gêneros e fazer citações e homenagens e juntar tudo em um filme quase inclassificável quando desistiu – temporariamente – de produzir Bastardos Inglórios e passou a focar na saga da personagem A Noiva, criada por ele e Uma Thurman durante as filmagens de Pulp Fiction, resultando em uma obra imensa de quatro horas de duração que ele acabou dividindo em duas partes muito diferentes entre si.

Resumidamente, Kill Bill é uma história de vingança. O que a personagem criada e vivida por Thurman quer fazer está escrito no próprio título para não deixar dúvidas e, nessa primeira parte, o que vemos é o começo de sua jornada, eliminando, primeiro, seus antigos parceiros de crime, membros da equipe DiVAS (Deadly Viper Assassination Squad), comandada pelo misterioso Bill (David Carradine) que, a não ser por sua voz e por duas vezes de relance, não aparece na projeção, ficando reservado para o Volume 2. O que Tarantino faz, aqui, é criar, cultivar e desenvolver uma lenda, uma mitologia ao redor tanto da Noiva quanto do grupo a que pertencia e, claro, a Bill. Em mãos menos hábeis, a simplicidade da premissa poderia resultar em algo trivial, sem grandes arroubos criativos, mas é claro que Tarantino não deixa barato e transforma uma narrativa básica e objetiva em um universo próprio, rico de detalhes e contada, claro, da maneira menos linear possível. E, se ele sempre fez referências cinematográficas em seus filmes anteriores, aqui ele mais abertamente cria um filme – ou, talvez, melhor dizendo, uma carta de amor – de um cinéfilo para cinéfilos.

Assim, Kill Bill: Volume 1 é um presente para quem sabe, por exemplo, que o ator Sonny Chiba, que vive Hatori Hanzo, o lendário fabricante de espadas, era, na década de 70, um ícone dos filmes de luta orientais, tornado particularmente famoso pela série Street Fighter. E a coisa fica ainda mais interessante se é feita a ligação dessa ótima escalação com o começo de Amor à Queima Roupa, filme de 1993 escrito por Tarantino e dirigido por Tony Scott, em que o personagem de Christian Slater vai ao cinema para ver uma sessão tripla dos filmes de Chiba. Eu poderia discorrer aqui sobre dezenas e dezenas de referências, como as óbvias de Besouro Verde e Jogo da Morte, passando pelas menos óbvias como Lady Snowblood: Vingança na Neve e Yojimbo, o Guarda-Costas e Sanjuro e, mesmo assim, deixaria de fora outras dezenas que deixei passar por absolutamente desconhecê-las. No entanto, isso seria uma perda de tempo.

Afinal de contas, Kill Bill: Volume 1 não funciona só para cinéfilos que cavam profundamente em baús cinematográficos como Tarantino. Sim, certamente há camadas e camadas para eles (nós?), só que Tarantino sabe criar atrativos para tornar o filme universal e, literal e amorosamente, apropriar-se de obras e conceitos anteriores para, como de praxe, criar algo seu e só seu com enorme apelo para o público em geral que suportar a violência que aqui mais do que em qualquer outra obra do cineasta, ganha banhos generosos de estilização e exagero.

E as técnicas usadas na fita são muito atraentes. Não só temos a visceral e curiosamente cômica coreografia de luta de facas entre a Noiva e Vernita Green (Vivica A. Fox) que é o primeiro ato de vingança que vemos, como também o complexo plano-sequência “aéreo” e sem cortes durante toda a performance de Woo Hoo, do The Rock-A-Teens, pelo grupo 5.6.7.8’s no House of Blue Leaves e que marca o início da vingança da protagonista contra O-Ren Ishii (Lucy Liu), desta vez paramentada com o uniforme icônico de Bruce Lee e portando sua espada Hattori Hanzo, passando pelo interlúdio em anime que nos conta a origem de O-Ren e, claro, o longo combate contra os Crazy 88 (que, conforme aprendemos no Volume 2, não são 88 nada). Essa sequência de luta e carnificina, 100% criada com efeitos práticos e cheia de wire-fu, é a representação máxima dos filmes trash orientais de lutas marciais, com direito a alteração para fotografia em preto e branco (dizem que para reduzir a impressão de gore, mas a troca me parece deliberada demais e belíssima), luta em contra-luz azul e tudo preludiando o conflito direto, silencioso e elegante das duas inimigas na neve ao som de Don’t Let Me Be Misunderstood, de Santa Emeralda.

Para os que dizem que Tarantino é estilo sobre substância, Kill Bill: Volume 1, tenho certeza, é a prova mais importante desse pré-julgamento e não há mesmo o que dizer contra isso (mas só nesse caso específico). Mas convenhamos que, se todo o estilo sobre substância tivesse essa fusão de estilos que o cineasta amalgama como um maestro enlouquecido regendo uma orquestra eclética formada pela Sinfônica de Berlim, banda de heavy metal e uma agremiação de Bumba Meu Boi, então que venham outras obras assim. As peças podem não combinar a primeira vista, mas o resultado é, por incrível que pareça, harmônico e muito bem executado, o que não se pode dizer de diversos outros exemplos de filmes que destacam sua forma e afogam sua substância.

Porque sim, esse filme é mesmo, inescapavelmente, uma experiência sensorial sem maiores significados profundos escondidos em subtramas, com Tarantino realmente privilegiando a estética e deixando-a ditar seus capítulos que contam a já mencionada simples história de vingança. Aqui, vemos um cineasta novamente saindo de sua zona de conforto de diálogos espertos de pegada pop para criar uma super-heroína invencível em uma fita que, mais do que todas as três que vieram antes, tem como objetivo entregar um espetáculo visual costurado a partir de pedaços de obras anteriores recriados no estilo Tarantino sem qualquer tipo de freio que não fosse sua imaginação e capacidade aparentemente infindável de de Sally Menke de costurar o que deveria permanecer separado.

Uma coisa é certa: não há como ficar indiferente a Kill Bill: Volume 1, seja você um cinéfilo hardcore que listará todas as referências usadas por Tarantino ou uma “pessoa normal” que gosta de cinema apenas. Kill Bill é caricato e exagerado, mas nunca confuso e monótono. É uma ode a um tipo de cinema que não existe mais e um presente de Tarantino que, seis anos após Jackie Brown, volta às suas raízes, mas desta vez sem segurar nas rédeas, criando, no final das contas, uma catarse explosiva sem igual.

  • Crítica originalmente publicada em 1º de janeiro de 2016, mas completamente remasterizada para republicação no dia de hoje, 07/08/19.

Kill Bill: Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1, EUA – 2003)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba, Chia-Hui Liu, Michael Parks, Michael Bowen, Jun Kunimura
Duração: 111 min.

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32 comentários

Diário de Rorschach 23 de janeiro de 2020 - 09:28

Vi essa maravilha pela primeira vez ontem, que filmaço. Uma Thurman fantástica, a trilha sonora é maravilhosa, aquela sequência de anime é incrível. Bela crítica e ótimo filme.

Responder
planocritico 23 de janeiro de 2020 - 12:07

Que legal que gostou! Acho esse filme fenomenal. É um prazer enorme assisti-lo!

Abs,
Ritter.

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Wander 10 de agosto de 2019 - 19:29

O filme que fez eu ver o cinema como algo mais do que só “assistir um filme”
Foda demais! A sequência do anime é fenomenal

Responder
planocritico 12 de agosto de 2019 - 18:04

Sempre que posso, revejo esse filme!

Abs,
Ritter.

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DaVinciNews - Dicionário do Oscar - Design de Produção | Cine Da Vinci 24 de março de 2019 - 17:26

[…] tendo em vista se organizar melhor na dinâmica de produção. Quentin Tarantino, ao dirigir Kill Bill Vol. 1 e Vol. 2, trabalhou desta maneira, pois acreditava que enriqueceria os demais setores de produção […]

Responder
Daniel Plainview 3 de setembro de 2017 - 23:31

É até difícil comentar sobre o filme. É simplesmente uma obra prima quase inclassificável, como vc disse no início. Tarantino é tão foda que sequer dá pra eleger o melhor filme dele (dúvida cruel entre os dois Kill Bill, Bastardos e Pulp Fiction).

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planocritico 4 de setembro de 2017 - 00:19

Sempre que revejo a filmografia do Tarantino, eu mudo meu primeiro lugar… O cara só tem filmaços! A única coisa que posso dizer com certeza é que À Prova de Morte, apesar de ser bom, não ficaria nunca em primeiro lugar.

Abs,
Ritter.

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Daniel Plainview 4 de setembro de 2017 - 00:24

Ainda não vi esse e nem os oito odiados. Acho q pq gosto de ficar atrasando pra poder saber q tenho alguma coisa pra assistir mais à frente (algo q faço com o poderoso chefão 3 q até hj não vi, assim com uns do Scorcese).
Mas o Tarantino é um mestre. Só com o Pulp Fiction ele entrou pra história do cinema e depois ainda nos entregou mais algumas obras primas.

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planocritico 4 de setembro de 2017 - 00:34

Quando decidir assistir 8 Odiados, fica meu conselho: faça-o, de preferência, na maior TV que encontrar e com um bom som!

Abs,
Ritter.

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Daniel Plainview 4 de setembro de 2017 - 00:47

Vlw pelas dicas! As mesmas que dou para alguém q quer assistir Mad Max: estrada da fúria

planocritico 4 de setembro de 2017 - 00:51

Merece também! Mas você notará que, em 8 Odiados, as razões para tela grande e bom som são diferentes do caso de Estrada da Fúria.

Abs,
Ritter.

Daniel Plainview 4 de setembro de 2017 - 00:52

huuumm
Vc tinha minha curiosidade, agora você tem minha atenção…

planocritico 4 de setembro de 2017 - 00:55

HAHHAAHAHAHA

Boa, Sr. Candie!

– Ritter.

Daniel Plainview 4 de setembro de 2017 - 01:00

kkk Já está na lista de próximos filmes a conferir (os q o tempo permitir)

planocritico 4 de setembro de 2017 - 01:20

Curioso para saber o que vai achar!

– Ritter.

Ricardo F. 4 de março de 2017 - 19:23

Ainda procuro uma cena de luta que me empolgue tanto quanto A Noiva x Crazy 88. Esse filme foi amor à primeira vista e, junto com sua sequência (não consigo analisar separadamente), é meu favorito do Tarantino!

Responder
planocritico 5 de março de 2017 - 03:30

Realmente, aquela cena de luta no restaurante é uma coisa de outro mundo!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 5 de março de 2017 - 03:30

Realmente, aquela cena de luta no restaurante é uma coisa de outro mundo!

Abs,
Ritter.

Responder
Ricardo F. 4 de março de 2017 - 19:23

Ainda procuro uma cena de luta que me empolgue tanto quanto A Noiva x Crazy 88. Esse filme foi amor à primeira vista e, junto com sua sequência (não consigo analisar separadamente), é meu favorito do Tarantino!

Responder
Th 4 de janeiro de 2017 - 23:20

Acabei de ver esse filme pela primeira vez, na Netflix, pelo fato de ter gostado muito de outro filme do Tarantino que vi recentemente, o “Cães de Aluguel”.
Ainda estou impressionado com a qualidade de Kill Bill: direção, fotografia, atuações e trilha sonora espetaculares! Me senti como se estivesse assistindo uma sanguinolenta animação japonesa hahahahaha. Destaco em especial a cena que ilustra a infância de O-ren, completamente em animação. Simplesmente incrível!

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planocritico 5 de janeiro de 2017 - 14:42

Adoro Kill Bill. Não deixe de ver o Vol. 2, hein? Mas não espere a mesma coisa. São filmes, eu diria, BEM diferentes!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 5 de janeiro de 2017 - 14:42

Adoro Kill Bill. Não deixe de ver o Vol. 2, hein? Mas não espere a mesma coisa. São filmes, eu diria, BEM diferentes!

Abs,
Ritter.

Responder
Diogo Amorim 7 de janeiro de 2016 - 19:13

Eu gosto bastante dos filmes do Tarantino, muito mesmo. Kill Bill sem dúvidas é um dos meus filmes favoritos dele, acho tanto o vol. 1 quanto o 2 no mesmo nível, a trama envolvendo a vingança da noiva muito bem feita e o Tarantino como já de costume não poupa na violência, ele exagera mesmo, sangue jorrando e o filme é bem pesado mesmo. Algumas cenas são bem mentirosa, e acho isso um ponto forte, não vejo problema nenhum nisso. Se for em diversão Kill Bill com certeza ganha, mas não sei decidir com certeza qual o meu filme favorito dele.

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planocritico 8 de janeiro de 2016 - 14:25

@disqus_1xfUk6Tw8e:disqus, também gosto igualmente dos dois Kill Bill. São filmes diferentes dentro de uma mesma premissa, mas cada um com seu charme próprio.

Abs,
Ritter.

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Kika 3 de janeiro de 2016 - 19:55

Meu favorito do Tarantino! Adoro todos os outros, mas Kill Bill Vol. 1 ainda segue imbatível pra mim. Assisti na época do lançamento, no cinema e me lembro como se fosse hj como eu vibrei durante a sessão.
É realmente como vc disse, um filme de cinéfilo para cinéfilos.

Responder
planocritico 5 de janeiro de 2016 - 11:54

@kkikka:disqus, tenho enormes dificuldades de escolher meu favorito do Tarantino. Mas esse Kill Bill com certeza é o mais divertido! Pancadaria over-the-top do começo ao fim salpicada de referências cinéfilas.

Abs,
Ritter.

Responder
André 26 de novembro de 2015 - 03:28

Existe filmes de ação e existe filmes de ação do Tarantino kkkkk. Filme genial, e como o amigo abaixo disse o exagero é um dos ingredientes que faz isto ficar tão bom. Obviamente não é um filme comum, com cenas de animes e tudo o que se pode esperar de um grande filme de ação. Apesar de não ser tão brilhante quanto os dois primeiros filmes do Tarantino com toda certeza mantém o nível esperado desse grande cineasta, e com cenas particulamente geniais como aquela na cena final de luta em que ele corta a câmera de repente e mostra em primeiro plano algo como uma fonte de água e em segundo plano a luta “desprezando” a urgência da situação.

Responder
planocritico 26 de novembro de 2015 - 16:52

Eu simplesmente adoro esses dois Kill Bill. São obras impressionantes pela capacidade de mesclar gêneros em uma salada agradabilíssima que só Tarantino sabe preparar!

Abs,
Ritter.

Responder
Monokuma 14 de novembro de 2015 - 17:55

Sou um cara normal que gosta de cinema e só agora deixei o preconceito contra filmes de ação de lado e assisti essa maravilha, que me conquistou nos primeiros primeiros minutos já. O exagero desse filme foi o que mais me fez gostar dele, também não consegui controlar o riso em certas partes do filme, que ao meu ver são hilárias (como o jeito ‘carinhoso’ que ela fala com a Vernita, deixando bem claro o porque esta ali)

Responder
planocritico 15 de novembro de 2015 - 06:56

É o que eu digo: é impossível ficar indiferente a esse filme. Que bom que você gostou!

Abs,
Ritter.

Responder
Rilson Joás 1 de julho de 2014 - 19:06

Acabo de assistir e tenho que aplaudir de pé. Tarantino é o cara!

Responder
planocritico 1 de julho de 2014 - 20:29

Realmente, ele é! Agora siga para o segundo volume e nos diga o que achou também! Abs, Ritter.

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