Crítica | Kingdom (2019) – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Como afirmei na crítica da 1ª temporada de Kingdom, a série sul-coreana de zumbis passada durante o feudalismo veio como uma lufada de ar fresco para o já bem desgastado sub-gênero. Afinal, não é todo dia que nos deparamos com intrigas palacianas servindo de pano de fundo para uma infestação de desmortos enlouquecidos que, diferente do usual, dormem durante a noite (ou assim nos levaram a crer!).

Mas a temporada inaugural, de seis episódios velozes e furiosos, teve seus problemas, dentre eles uma narrativa sócio-política maniqueísta demais que não permitia o desabrochar da história nos momentos de calmaria sem zumbis e a necessidade de se manter certos segredos – lembrem-se que o primeiro episódio até escondia a natureza da série – que segurava um pouco a pancadaria desenfreada. Continuava sendo uma diversão completa, mas faltava algo.

E a boa notícia é que, agora, não falta mais!

A 2ª temporada, com a mesma quantidade de episódios, utiliza muito bem a vantagem de já ter toda sua premissa explicada, além de não haver qualquer tipo de amarra em termos de reviravoltas ou surpresas para o espectador. O que vemos é a continuação imediata do cliffhanger em que descobrimos que os desmortos não gostam é de frio, com dois episódios quase inteiros repletos de memoráveis sequências de ação de deixar qualquer um roendo as unhas. E o melhor é que até a intriga política por trás acaba se beneficiando disso, já que ela ganha algumas nuances interessantes, como a relativização da relação entre o Conselheiro Real Cho Hak-ju e sua ardilosa filha, a Rainha Cho, e a revelação de que nem toda a casta nobre é composta de gente que não liga para nada a não ser seu próprio umbigo, já que essa característica, antes, ficava restrita ao altivo príncipe herdeiro quixotesco Lee Chang.

Muito claramente existe uma melhor conversa entre os dois “lados” dessa história, algo que é bem-vindo e certamente oriundo da necessidade de se lidar com os zumbis sem intervalos, sempre com soluções engenhosas para permitir um respiro entre sequências sanguinolentas épicas. Ainda acontecem algumas pequenas reviravoltas, como a traição do leal Mu-yeong e o envenenamento de Cho Hak-ju, mas elas são orgânicas, suaves e perfeitamente dentro da lógica estabelecida pela história. Não é mais a surpresa pela surpresa, como a questão dos desmortos acordados durante o dia e sim algo que contribui efetivamente para o desenvolvimento tanto dos personagens quanto da narrativa.

Os dois elementos que realmente diferenciavam a série – sua belíssima fotografia e sua reconstrução de época cuidadosa – continuam firmes e fortes aqui, com os diretores Kim Seong-hun e Park In-Je aproveitando-se ao máximo das filmagens em locação, com planos gerais de fazer o queixo cair como o da sequência da morte de Mu-yeong na floresta gelada com árvores de tronco branco ou quando as hordas de monstros ganham inacreditavelmente boas coreografias em meio a campos abertos em momentos que certamente foram de extrema complexidade cinematográfica tamanha a quantidade de extras e de acontecimentos simultâneos. O figurino salta aos olhos até mesmo na estranha beleza que é ver Lee Chang e seus soldados com túnicas ensopadas de sangue.

Por vezes, é bem verdade, o CGI – normalmente utilizados com parcimônia em alguns panos de fundo – falha e mostra sua “cara”, ameaçando retirar o espectador de determinadas sequências como a da corrida/combate nos telhados do palácio real. Mas a grande verdade é que isso só acontece se quisermos ser muito implicantes, pois é palpável o detalhismo em todos os outros quesitos, com essa sequência que destaquei e que acontece mais para o final da temporada sendo particularmente espetacular.

Desgosto, porém, do subaproveitamento quase criminoso de Seo-bi, a médica vivida por Bae Doona, que parece muito mais um artifício narrativo de revelação das características da planta que ressuscita os mortos do que uma personagem propriamente dita. Do jeito que os roteiros são escritos, ela é como se fosse uma nota de rodapé, um detalhe conveniente para explicar ao espectador aquilo que muitas vezes é perfeitamente possível deduzir apenas com imagens. E, quando ela é inserida na ação – o que só acontece de verdade mais para o final – sua presença é quase invisível. Considerando o belo desenvolvimento que Lee Chang ganhou, ainda que talvez indo rápido demais de príncipe mimado para salvador dos fracos e oprimidos, era de se esperar algo semelhante para a médica, o que acaba não acontecendo, retirando de Doona a oportunidade de brilhar.

Por outro lado, é de se elogiar a forma como a história fica redonda e cuidadosamente encerrada, com todas as pontas sendo devidamente amarradas em um conjunto harmônico e lógico que tem início, meio e fim definidos. É por isso que o epílogo, que só existe para justificar uma 3ª temporada, acaba ficando forçado, introduzindo outros elementos exógenos à trama, mais especificamente o mistério da origem da planta e o verme aparentemente em estase que acorda no rei mirim. Se eu ignorasse esses 10 minutos finais que são completamente expletivos e aceitasse o subaproveitamento de Seo-bi, a temporada seria perfeita não só como temporada, mas também como fechamento de uma saga. Infelizmente, porém, a necessidade tipicamente hollywoodiana tomou de assalto a produção sul-coreana e, muito provavelmente, a história continuará.

Mas não podemos ter tudo, não é mesmo? Se a continuidade é inevitável, só nos resta torcer para que ela seja tão boa quanto a 2ª temporada, com a torcida para que a personagem de Bae Doona ganhe o destaque e a relevância que merece.

Kingdom ( 킹덤, Coréia do Sul – 13 de março de 2020)
Direção: Kim Seong-hun, Park In-Je
Roteiro:  Kim Eun-hee (baseado em seu webcomic)
Elenco: Ju Ji-hoon, Ryu Seung-ryong, Bae Doona, Kim Seong Gyu, Kim Sang-ho, Heo Joon-ho, Jeon Seok-ho, Kim Hye-jun, Jung Suk Won
Duração: 269 min. por episódio (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.