Home QuadrinhosMangá Crítica | Kingdom – Vols. 1 a 5: A Rebelião de Sei Kyou

Crítica | Kingdom – Vols. 1 a 5: A Rebelião de Sei Kyou

por Kevin Rick
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Um mangá histórico baseado em fatos reais não é exatamente o tipo de gênero que se torna mainstream nessa indústria que é normalmente dominada por trabalhos de fantasia, ficção científica, romance, comédia e esportes. E o fato de sua história sequer ser situada no Japão, país originador e maior consumidor desta mídia, torna ainda mais surpreendente o sucesso de Kingdom, criado pelo mangaká Yasuhisa Hara, que, apesar de ser publicado desde 2006, continua em ascensão de popularidade e vendas.

O mangá se passa durante o Período dos Estados Combatentes na China antiga que, mesmo após 500 anos de guerra constante, não dá sinais de diminuir o derramamento de sangue. O autor deixa isso bem evidente nas duas primeiras páginas, em uma bela e violenta introdução à sua obra. A história começa com dois jovens chamados Shin e Hyou, ambos com o sonho ingênuo de se tornarem os maiores generais de toda a China. Depois de se envolverem acidentalmente em um conflito pelo trono real do estado de Qin, eles acabam servindo sob o comando de Ei Sei, um jovem rei que sofreu um golpe de seu meio-irmão Sei Kyou.

É preciso frisar que o mangá é baseado em fatos e personagens reais da história chinesa, porém, vagamente, já que os registros históricos apenas ditam o que acontece, mas o autor é quem decide como isso acontece. Nomes são levemente alterados, mas é bem claro quem Hara quis representar com seus personagens mais importantes. Se o leitor ficar curioso com os eventos reais e quiser ler sobre os acontecimentos do período – como eu fiz, em parte –, preocupe-se em danificar sua experiência com a obra. Mesmo que a cadeia de eventos seja determinado pelo autor, ele se mantém fiel ao resultado final histórico. Sabê-lo de antemão não avaria a jornada, majoritariamente ficcional, mas rompe a experiência com o desfecho.

SPOILERS!

Apesar das proporções épicas do enredo, o arco A Rebelião de Sei Kyou se mostra bastante íntimo, focado no desenvolvimento e relacionamento dos personagens principais Shin, Ei Sei e Karyo Ten, uma criança descendente de uma tribo, levemente inspirada em Mulan em alguns sentidos. Este arco inicial, composto por 47 capítulos, quase completando 5 volumes, é bastante diversificado nos cenários retratados para os protagonistas. O primeiro volume, além de introdutório, é completamente focado na fuga dos personagens. Todo o ritmo acelerado e de constante perigo fisga o leitor logo de início.

Já o segundo volume é extremamente descritivo. Hara desacelera sua obra para expor toda sua mitologia, e também retratar a história chinesa. O mangaká utiliza Shin como artifício para explicar a construção de mundo para o público. Este é um recurso muito usado por criadores de histórias. John Watson, dos contos de Sherlock, e Mr. Hastings, do universo de Hercule Poirot, vem à mente como personagens postos para servir como uma janela para o leitor. Mas em Kingdom, o autor decide por usar seu próprio protagonista, e a forma como o faz está longe da elegância usada nos exemplos que citei. Shin é um completo ignorante, e a despeito das explicações serem interessantes, e a construção de mundo maravilhosa, sua integral estupidez, apesar de ser cômica, por sua falta de evolução no quesito, o torna maçante.

O restante do arco é focado na invasão ao palácio. E é aqui que Hara se sobressai. O tom cômico dá espaço para a brutalidade de combate. Toda a construção do volume anterior, assim como as consequências da diplomacia construída por Ei Sei, dão substância para as batalhas. A simplicidade de Shin, outrora irritante em contexto de exposição de diálogo e política, brilha no campo de batalha. Também é intrigante, ainda que clichê – mas muito bem trabalhado aqui –, o contraposto que Hara cria entre Sei Kyou e seus seguidores, detentores de privilégios, que abusam de seu poder e status social, com Ei Sei, um bastardo, Shin, um antigo servo, e todo o exército que os segue, constituído de guerreiros reais renegados e membros de tribo que sofrem de preconceito e terrores ancestrais.

Tudo isso só é possível porque Kingdom tem uma análise profunda de políticas nacionais e diplomacia entre seus diferentes grupos, aumentando o senso geral de realismo. Conheço poucas obras que sejam capazes de ter uma política tão densa em sua história, enraizada na narrativa e no enredo, e ainda assim conseguir ser tão divertido durante toda a batalha e ação, construindo de forma orgânica a evolução e relação de seus personagens principais, assim como a razão de estarem lutando.

Mesmo sendo um mangá Seinen, isto é, um mangá visado para uma audiência adulta, principalmente pelo período retratado, o autor usa várias características de Shounen, que tem como público-alvo adolescentes. Essa combinação de estilos distintos se torna evidente no tom mais cômico durante combates e diálogos entre o elenco principal, algo comum em mangás Shounen. Todavia, a maior influência desse estilo nessa obra ocorre na construção do protagonista Shin, que tem um desejo contínuo de melhorar a si mesmo, enfrentando desafios às suas habilidades, aptidões e maturidade, com o objetivo de conquistar seu sonho, nesse caso de se tornar um grande General, além de sua personalidade irritada e infantil, porém sempre bondoso e carismático, todos traços de personagens como Naruto, Goku, Luffy, entre outros protagonistas Shounen.

A decisão de Hara ao mesclar diferentes estilos funciona como uma faca de dois gumes, pois, como dito anteriormente, Shin está longe de ser um ótimo protagonista. Ele pode ser carismático o bastante para que o leitor se importe o suficiente para acompanhar sua jornada, mas acaba se tornando muito simples e superficial. Muitas vezes chega a incomodar a presença do protagonista, gritando ou falando na terceira pessoa, transmitindo um sentimento enervante, de frustração à seu respeito, passando a impressão que o personagem está situado no mundo errado. Ei Sei, Karyo Ten e até mesmo o antagonista Sei Kyou, são personagens com mais profundidade e complexidade, tornando seus respectivos arcos de desenvolvimento mais interessantes do que o de Shin, que torna-se estático, além de seus excitantes duelos.

A arte detalhada ajuda a amplificar o nível de intensidade da história, porém seu trabalho com os quadros é padrão, sem grande originalidade. Embora possa não estar exatamente no nível de algo como Berserk em termos de visual, ainda é mais do que suficiente para mostrar apropriadamente a realidade fria e dura da época e entregar essa atmosfera aos leitores em primeira mão. Outro ponto forte da ilustração é o cuidado do autor nos figurinos e na construção de diferentes cenários, desde fortalezas à florestas. Hara também é excepcional em demonstrar as emoções através de expressões faciais, porém peca em diferenciar seus personagens, com vários deles, principalmente os mais jovens, tendo aparências extremamente semelhantes.

Kingdom é essencialmente um mangá que deveria ser uma leitura árdua considerando o assunto que expõe, mas o roteiro de Hara, se precisasse ser resumido em uma palavra, seria a de equilíbrio. A forma como manuseia diferentes gêneros desde o tom mais cômico dos personagens principais sem ignorar o drama da realidade deste mundo, assim como a política densa com as batalhas épicas. Ele sabe exatamente como dar leveza, sem deixar sua obra se tornar superficial, sempre em constante progressão, deixando o leitor curioso para o que vem à seguir.

Kingdom: Sei Kyou’s Rebellion Arc (キングダム, Kingudamu) – Japão, 2006
Contendo: Volumes 1 a parte do 5 (capítulos 1 a 47)
Roteiro: Yasuhisa Hara
Arte: Yasuhisa Hara
Editora: Shueisha
965 páginas

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