Crítica | Kraken – Os Tentáculos das Profundezas

A palavra Kraken, em sueco, designa árvore arrancada, numa referência aos tentáculos que se parecem com raízes. Hoje os cientistas chamam de cefalópodes, animais que servem de inspiração para o horror em filmes como Kraken – O Terror das Profundezas, narrativa que desde a sua campanha de divulgação, afirma que “o terror vem do fundo”. A história da literatura ocidental, grande fermentadora deste extenso imaginário de monstros marinhos é a comprovação cabal disso. Melville, ao descrever as aventuras dos marinheiros e pescadores em Moby Dick, retratou não apenas peixes e a enorme baleia para os seus leitores, mas também deu espaço para o contato entre homens e seres tentaculares. O autor descreve tal monstro como uma imensa massa esponjosa que a humanidade jamais imaginou ter contato. Dentre os demais detalhes, ele descreve se tratar de uma criatura enorme, de longo comprimento, flutuando na água, com braços longos saindo de seu centro, enrolando-se e contorcendo-se como um ninho de cobras. Cena minimamente assustadora, não é mesmo?

Sob a direção de Tibor Takács, cineasta que teve apoio de John Blush para comandar o desenvolvimento da história, o Kraken – O Terror das Profundezas tenta fazer algo parecido, preocupado inclusive em apresentar constantemente a sua criatura, fruto dos efeitos visuais criados pela equipe de Danail Hadzhiyski. O lance aqui é não economizar em aparições, tampouco apelar para a sugestão, tal como Tubarão fez com tanta destreza. No enredo, dirigido com base no roteiro escrito por Abraham Cox, Sean Keller, Nicholas Garland e Brian D. Young, uma criança que se aventura na leitura de Vinte Mil Léguas Submarinas antes de dormir é testemunha da morte de seus pais durante um dia aparentemente tranquilo para velejar.

A assustadora criatura, repleta de tentáculos, promove o seu espetáculo de horror, o que torna a criança um adulto traumatizado, com medo de entrar no mar novamente. Seu novo contato com a criatura será numa missão que envolve a pesquisadora Nicole (Victoria Pratt), arqueóloga marinha especializada em cultura grega. Ela encontrou uma máscara cerimonial lendária da era troiana. Junto à sua descoberta está a fera disposta a saciar a sua fome ininterrupta. Ray (Charlie O’Connel), a criança agora adulta, descobre informações sobre a criatura durante o noticiário. Parece ser a oportunidade perfeita para se vingar, afinal, a tal criatura comentada na TV pode ser a mesma que vitimou os seus pais no passado. O roteiro arruma uma maneira de juntar todas essas pessoas e coloca-las diante da maior aventura da história de suas vidas.

Entre os demais personagens que compõem este tecido narrativo, temos o charlatão Michael (Cory Monteith), sabotador interessado em minar os planos da protagonista constantemente, haja vista o valor inestimável da peça encontrada, além dos coadjuvantes do bem Maxwell (Jack Scalia) e Jenny (Kristi Angus). Para nos contar essa história burlesca, George Campbell, diretor de fotografia, mergulha o espectador em diversas cenas subaquáticas, gerenciadas adequadamente por sua equipe. Os planos gerais buscam captar a beleza das locações naturais, haja vista a clara falta de verba para dar conta de efeitos visuais elaborados como o cinema mainstream. A condução musical de Rich Walters não apresenta nada diferente dos demais filmes de monstros, isto é, a justaposição de instrumentos para produção de ruídos incômodos e algumas doses de sintetizadores dão forma à textura percussiva da aventura que teve Tink no design de produção e Venelin Dinkov para no desenvolvimento da criatura nas cenas com efeitos especiais.

Ao longo de seus 88 minutos, Kraken – O Terror das Profundezas nos mostra que a sua criatura se assemelha ao monstro criado por Peter Benchley em A Besta, isto é, uma fera que sente prazer diante do espetáculo da morte. A história segue o fluxo das demais aventuras marinhas com pessoas traumatizadas, vinganças adormecidas, seres da natureza transformados em bestas humanizadas e um grupo de vítimas para servir de alimento para a fera enquanto os protagonistas dão conta de suas necessidades dramáticas. Lançado como telefilme em 2006, a produção funciona como um entretenimento médio para espectadores pouco exigentes e que não se importa em estar diante de uma história que parece já ter sido contada numerosas vezes.

Kraken – Os Tentáculos das Profundezas (Deadly Water/Estados Unidos, 2006)
Direção: Tibor Tacáks, John Blush
Roteiro: Abram Cox, Sean Keller, Nicholas Garland, Brian D. Young
Elenco: Jamie Auld, Denisa Juhos, Oscar Pavlo, Michael Varde, Samantha Nicole Dunn, Dan Gilroy, John Paul Harkins, Rogelio Douglas III, Jean-Luc McMurtry
Duração:  88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.