Crítica | Krypton – 1X09: Hope

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Em Transformation, Krypton, a aposta da Syfy com propriedade da DC Comics, finalmente acertou seu rumo, algo mais do que confirmado no episódio seguinte, Savage Night, o ponto alto da primeira temporada. Nessa estirada final, faltava só uma coisa: trazer relevância para o protagonista, Seg-El, o avô do Superman. E é isso que Hope traz, mesmo que, claro, não tenha o condão de “consertar” a inabilidade dramática de Cameron Cuffe, algo que, suspeito, nenhum roteiro seria capaz de fazer.

Mas, como já dizia o sábio, dos males o menor. Pelo menos, agora, o protagonista torna-se de verdade o personagem principal da série, saindo do marasmo em que se encontrava e tomando um manto de líder, o primeiro a conseguir unir as forças do Zero Negro e da elite kandoriana ao redor de um objetivo em comum. Mesmo que o desfecho dessa tentativa desesperada de destruir o drone de Brainiac seja estrondosamente falho dentro da história e também em seus aspectos técnicos (que abordarei em breve), Seg-El ganha literalmente em nome e relevância, saindo das sombras e colocando-se diretamente como o nêmesis do grande vilão. E isso sem contar que ele também passa a ser inimigo de Dru-Zod e também de Lyta, sua amada, ambas aliando-se para libertar a arma de destruição em massa conhecida como Apocalypse.

O episódio foi tumultuado até certo ponto, mas, curiosamente, bem cadenciado, começando com a cisão do grupo de Seg em duas facções bem definidas: ele e Jayna contra Dru e Lyta. Confesso que me pareceu simples e desesperada demais a troca de aliança de Lyta, mas, diante do contexto apresentado, na base do “ou tudo ou nada”, não há muito o que reclamar nesse aspecto. Mas a separação torna-se realmente completa quando Dru invoca o direito de duelo contra sua avó (chega até a ser estranho escrever isso) e os dois realmente só não chegam às vias de fato em uma muito bem coreografada luta – mais alguns segundos e Jayna quebraria o pescoço de Dru – pela interferência de Lyta, que atira em sua própria mãe para salvar o futuro filho. Ecoando o duelo, a figura misteriosa que vimos brevemente nos dois episódios anteriores é finalmente revelada como sendo o irmão de Jayna contra quem ela duelara e saíra vitoriosa, abandonando-o no meio do nada com coisa nenhuma de Krypton para sua morte. Sua volta, agora, bem no momento em que Jayna precisava, talvez tenha sido um deus ex machina daqueles bem feios, mas só o futuro dirá se haverá uma explicação melhor para sua presença mágica nesse momento de crise, depois de tantos anos.

Mas a revelação mais interessante talvez tenha sido mesmo o parentesco completo de Dru. Ele não apenas diz como prova que seu sangue é El-Zod abrindo a cela do Apocalypse sem ajuda de Seg e é curioso como esse grande momento é de certa forma abafado ou amenizado pelo roteiro, como se Cameron Welsh estivesse nos dizendo que isso é bacana e tal, mas não vale a pena perder muito tempo discutindo esse aspecto, pelo menos não agora. Se o filho de Seg e Nyssa lá na Câmara Gênesis é, ao que tudo indica, Jor-El, isso quer dizer que o pai do Superman é também meio-irmão de seu maior inimigo nessa narrativa. Hummm…

O passado de cisão política também é abordado no episódio por intermédio da tortura de Daron-Vex por Jax-Ur, revelando a origem da líder do Zero Negro e o papel de Daron nesse processo, já mostrando-se um vendido em passado mais longínquo. Devo dizer que, como vilão, Daron tem se mostrado bem mais cheio de truques na manga do que esperava, talvez por ele ter sido introduzido e trabalhado na série de maneira muito rasa até bem pouco tempo. Só a partir do momento em que ele tenta matar Nyssa é que sua unidimensionalidade começa a abrir espaço para algo um pouco mais profundo, e, agora, essa sua relação pregressa como Jax-Ur dá um bom colorido ao seu passado, abrindo possibilidades futuras muito interessantes – e relacionadas aos quadrinhos! – sobre os clones da casta superior kryptoniana como forma de ela tornar-se basicamente imortal. No entanto, torço para que isso seja material para uma futura temporada, pois não sei se há espaço para a exploração desse assunto agora, com apenas um episódio para o final.

Vale especial destaque para alguém que não vemos em Hope: Adam Strange. Depois de salvar Seg e Kem de Ona, a menina-bomba, nós o vimos em um lugar estranho com uma mulher paralisada também estranha, em um cliffhanger daqueles incompreensíveis. O natural seria que pelo menos alguns minutos fossem dedicados ao personagem aqui, mas ele só é mencionado e mais nada. Seria essa outra linha narrativa para futura temporada ou ainda veremos Adam no episódio final? O importante é que sua ausência abriu espaço para que o episódio focasse mais em Seg-El, em uma decisão sábia do roteiro. Meu receio é o de sempre, ou seja, que Strange chegue para salvar o dia no último segundo do próximo episódio.

Mas o que realmente me incomodou foi a forma como a ação sob comando de Seg-El foi trabalhada. Para começar, a prometida união das forças opostas como última esperança contra o Sentinela de Brainiac foi, na verdade, a reunião de meia dúzia de gatos pingados de cada lado que resultou em um batalhão pateticamente pequeno e absurdamente incompetente. Não dá para entender essas economias em Krypton. Em várias outras sequências, notadamente a da “transformação” da Voz de Rao em um “deus”, a grande congregação de fieis na parte baixa de Kandor parecia ter 15 pessoas no máximo e, agora, justamente no momento que é usado para mostrar o valor de Seg, o mesmo acontece. E, esfregando sal na ferida, a forma como o Sentinela resolveu o problema foi de revirar os olhos. Se é para ter um destacamento de soldados tão facilmente influenciável assim, então sinceramente prefiro que a série se limite aos cinco ou seis personagens do núcleo principal ou até mesmo a Seg sozinho, como acabou acontecendo depois que os lados se mataram, com a entrada de Nyssa e a chegada triunfal de Brainiac em pessoa.

O aspecto acima pode parecer implicância, mas, na verdade, não é, pois são sequências como essas que retiram a credibilidade de uma série. Sei que extras ou efeitos em computação gráfica custam dinheiro, mas a série não vem esbanjando nesses quesitos e poderia fazer uso cirúrgico desses artifícios para engrossar o caldo narrativo, evitando que grandes momentos caiam no ridículo.

Com a quantidade de coisas acontecendo em Krypton agora, confesso que fico com muito receio de que o último episódio ou trate de tudo a toque de caixa ou deixe tanta coisa em aberto que fique parecendo que a primeira temporada é, apenas, uma preparação para segunda. Há que haver encerramentos narrativos significativos, mas sem pressa, mesmo que as usuais pontas soltas fiquem para ser resolvidas futuramente. De toda forma, é com alívio que constato que a série definitivamente se achou.

Krypton – 1X09: Hope (EUA – 16 de maio de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Lukas Ettlin
Roteiro: Chad Fiveash, James Stoteraux
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander, Alexis Raben, Tipper Seifert-Cleveland, Andrea Vasiliou, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Natalia Kostrzewa
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.