Crítica | Krypton – 2X03: Will To Power

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

A locomotiva da segunda temporada de Krypton estava vindo muito bem, ganhando velocidade em seus dois episódios iniciais que fizeram bom uso do novo status quo do próprio planeta que dá nome à série e da aguardada introdução de Lobo, personagem que, para minha grata surpresa, funcionou muito bem na telinha. Mas eis que então vem Will To Power, episódio que pode até não ter freado bruscamente a locomotiva, mas que certamente representa uma redução em sua progressão harmoniosa, como se o maquinista tivesse cochilado e esquecido de alimentar a caldeira.

Se a rebelião já não havia me parecido tão portentosa quanto Val-El disse que era em Light-Years from Home, essa minha percepção mudou já em Ghost in the Fire, com a ação fora de Colu se concentrando em Wegthor, com a infiltração de Nyssa-Vex e o aparecimento de extras suficientes para dar a impressão de que algo interessante poderia sair dali. Mas essa trama com potencial é esvaziada agora que ela ganha mais desenvolvimento, primeiro porque uma elipse nos impediu de ver a primeira – ainda que fútil – vitória dos rebeldes contra Dru-Zod e, depois, porque não há nenhuma construção de senso de perigo ou de urgência. Os rebeldes parecem mais o que eles realmente são: gente contratada para vagar com figurinos alienígenas esfarrapados de um lado para o outro em um cenário cavernoso.

E, como se isso não bastasse, Val-El, aparentemente tão inteligente e experiente, parece estar caindo como um patinho no truque sujo, mas dolorosamente óbvio, do ditador de Krypton, não dando a entender que ele desconfia de Nyssa em qualquer nível que seja. Pode ser que esse quadro seja revertido, mas a interação entre os dois pareceu “bonitinha” demais para que o avô do avô do Superman (tataravô, é isso?) tenha algum ás na manga. Mas veremos.

Lá nas Terras Devastadas, a coisa não andou muito melhor do que em Wegthor. Se o ressurgimento de Jayna-Zod foi exemplarmente trabalhado no episódio anterior, aqui a continuação dos eventos da pseudo cantina de Mos Eisley foi cansativo a ponto de quase parar completamente a narrativa. Era óbvio que Dev-Em acabaria do lado de Jayna novamente, mas a forma como o roteiro de Lina Patel chegou lá foi preguiçosa, quase jogada de qualquer jeito só para preencher o tempo regulamentar do episódio.

A esperança era que as sequências em Colu fossem a salvação, mas elas não chegaram a tanto. Mas, para começo de conversa, há que se elogiar a criatividade da equipe de design de produção em trabalhar as perspectivas do espaço do planeta, com toda aquela estranha e enorme trepadeira unindo-o com sua lua próxima ou algo parecido. Pena que, na superfície, tenhamos ficado mais uma vez com a versão sem speeder bike da lua de Endor e um casulo branco enfiado em uma caverna que parece mais o refugo de alguma série sci-fi dos anos 60.

Mais do que isso, ficamos sem Lobo por 29 minutos seguidos! E o resultado disso foi mais interações cômicas entre Seg-El e Adam Strange que, como já disse algumas vezes, não conseguem se acertar no timing, com as piadinhas parecendo artificiais e deslocadas, mesmo que, isoladamente, pudessem em tese funcionar. É como ver dois comediantes amadores estreando no palco daquele jeito meio envergonhado, meio exagerado, sem conseguir encontrar um meio termo razoável para o que o roteiro pedia. Pelo menos as sequências de embate mental entre Seg e Brainiac funcionaram bem, abrindo espaço até mesmo para que Cameron Cuffe – vejam só! – conseguisse alguns breves momentos efetivamente fazendo jus à profissão, ainda que eu descofie que essa minha boa vontade momentânea com o ator seja decorrente do ótimo trabalho de Blake Ritson debaixo da maquiagem pesada e armadura luminosa do vilão verde.

Quando Lobo finalmente aparece, aí sim o episódio mostra a que veio, com Emmett J. Scanlan mais uma vez dominando o cenário. E ajudou bastante o bônus que foi a demonstração nojentamente hilária e exagerada (como deveria mesmo ser!) do estupendo fator de cura do personagem. Se Krypton já chegou a esse ponto de regenerar Lobo a partir de seu braço depois que ele próprio estoura os miolos, podem ter certeza que estou desde já muito intrigado para ver o que farão com ele na vindoura série solo.

A locomotiva kryptoniana engasgou e perdeu o elã com Will To Power, mas não é nada sério. O negócio, agora, é fazer a trama em Krypton (e Wegthor) realmente funcionar, especialmente se Lobo for carta fora do baralho pelo futuro próximo agora que seu mini-arco parece ter sido encerrado.

Krypton – 2X03: Will To Power (EUA – 26 de junho de 2019)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Julius Ramsay
Roteiro: Lina Patel
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Emmett J. Scanlan
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.