Crítica | Krypton – 2X08: Mercy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Uau! Deve ser algum tipo de recorde. Tudo bem que um personagem de quadrinhos ou de séries baseadas em quadrinhos dificilmente morrem de verdade, mas pelo menos as produções costumam criar algum semblante de morte, algo que dure mais do que apenas dois episódios inteiros, exatamente o tempo que Lyta-Zod permanece morta em Krypton. Assassinada brutalmente nos últimos segundos de A Better Yesterday, a personagem permaneceu morta em In Zod We Trust, um bom episódio construído quase que integralmente em cima da perda. Em Zods and Monsters, a amada de Seg-El já parecia mesmo passado, com o foco mudando para a origem do monstro Apocalypse. Vida que segue.

Claro que, depois de todos esses anos nessa indústria vital, não sou mais ingênuo para acreditar que algo tão relevante perduraria e estava esperando a volta de Lyta lá para o finalzinho da temporada, como um cliffhanger ou algo do gênero. Era inevitável. Mas, aparentemente, Cameron Welsh não queria esperar e, em Mercy, ressuscita a heroína. Na verdade ressuscita não. Revela que ela, na verdade, nunca morrera, já que seu filho Dru-Zod, precavido, a havia clonado e, ainda por cima, feito um recondicionamento somático no clone, transformando a mãe quase que em um robô sanguinário que segue suas ordens cegamente.

Ok, clones fazem parte da mitologia de Krypton na série (e também nos quadrinhos), mas rapaz, que preguiça que foi esse roteiro, não? Do jeito que a coisa foi feita, há o perigo de simplesmente não existir mais morte no seriado, o que reduz consideravelmente qualquer resquício de tensão ou de senso de perigo. Morreu? É só clonar! Val-El pelo menos estava preso na Zona Fantasma, assim como Seg-El e Brainiac ficaram depois, com Adam Strange sendo levado para a Metrópolis engarrafada do coluano. Todos tiveram suas voltas razoavelmente bem estruturadas e bem pensadas, sem saídas tiradas da cartola, mesmo que não tenha sido completamente tirada da cartola considerando o que já concordei sobre clones dentro da narrativa.

Mas havia soluções melhores. Uma Lyta de outra linha temporal, por exemplo, seria supimpa, algo que estaria muito mais dentro da proposta da série do que a dobradinha clone com Clemência Negra. Falando no parasita alienígena que Alan Moore criou para sua excelente história Para o Homem Que Tem Tudo, o bicho parece ser um artifício narrativo das séries da DC. Foi usada aqui e também em Supergirl não muito tempo atrás. O problema é que, em Mercy, esse uso não teve função narrativa maior do que permitir uma mudança de ares em termos de figurinos e cenários (que me lembraram os terríveis planos abertos de Naboo, em A Ameaça Fantasma), além de fazer o episódio chegar à duração padrão. A vida alternativa de Lyta foi inócua, óbvia e, pior, interminável, com a insistência de voltar a ela mesmo depois de ela acordar e já estar agindo como se nada de mais tivesse acontecido ao lao de sua mãe e Dev-Em.

E olha que eu sou o primeiro a defender as qualidades de Krypton. Apesar de a série ser notória por tornar tudo fácil – vide a invasão a Fort Rozz e a fuga da prisão aqui -, ela tem qualidades que merecem ser defendidas, particularmente seu design de produção, aí incluídos a computação gráfica, os figurinos e os efeitos práticos, particularmente com próteses e maquiagem. Mas falta à série mais coragem para desvencilhar-se dos grilhões que a prendem a relacionamentos familiares que demoram a gerar frutos e, quando geram, eles são desfeitos como aconteceu em Mercy. Dru-Zod talvez já tenha esgotado o potencial de vilão pelo momento, pois Colin Salmon não tem feito muito mais do que entonar sua voz de trovão e usar sua imponência em tela para ficar andando de um lado para o outro, ora discutindo com Seg, ora ameaçando a coitada da cientista que tenta colocar Apocalypse sob seu controle.

Apesar de ter demonstrado avanços nos episódios anteriores, Krypton dá um passo atrás com Mercy, parecendo encolher e fechar-se em uma narrativa que pouco anda de verdade. Se a volta de Lyta era realmente inevitável, então que a personagem passe a ser usada em todo o seu potencial e que seu uso ajude a desabrochar a história emperrada por armadilhas auto-impostas pela estrutura dos roteiros.

Krypton – 2X08: Mercy (EUA – 31 de julho de 2019)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Clare Kilner
Roteiro: Katie Aldrin
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Emmett J. Scanlan
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.