Crítica | Kundun

Fé e religiosidade são temas frequentes na filmografia de Martin Scorsese. Em Taxi Driver, por exemplo, o diretor utiliza as crenças do perturbado Travis Bickle para mostrar dilemas do personagem. Scorsese produziu até mesmo uma adaptação sobre a história de Jesus, no extraordinário A Última Tentação de Cristo. No entanto, nos dois exemplos citados e em demais obras do realizador, o cristianismo é a religião usada no enredo, algo justificado pela criação católica dele. Pois, em Kundun, Scorsese saiu da zona de conforto e apresenta uma trama sobre o 14º Dalai Lama.

O longa inicia em 1933, quando morre o décimo-terceiro Dalai Lama. Quatro anos depois, em uma remota área do Tibet, um garoto de dois anos é identificado como a nova reencarnação de Dalai Lama, o “Buda da Compaixão”. A partir disso, o garoto vai para Lhasa, onde começa a ser educado como um monge e prepara-se para virar um chefe de estado. Porém, aos 14 anos, passa a enfrentar problemas com a China, que pretende tomar posse do pequeno país.

Se em outros filmes Scorsese usa a religiosidade de personagens para evocar a dualidade e conflitos destes, em Kundun o diretor promove um conto sobre paz, sabedoria e bondade. Aliás, não deixa de ser irônico que, um diretor que utiliza a violência de maneira tão gráfica em suas películas, tenha em mãos um personagem que condene veementemente a violência. Incoerências à parte, Scorsese não consegue transformar a obra em uma película memorável.

A primeira frustração com Kundun surge ao percebermos que a película se trata mais de uma biografia sem nuances sobre o 14º Dalai Lama do que uma reflexão sobre o budismo ou sobre sua figura. Mesmo que Scorsese seja responsável por alguns dos maiores estudos de personagem do cinema, o que vemos em Kundun é uma trama pouco ousada e que parece muito mais interessada em homenagear seu  protagonista do que explorar camadas dele. Como resultado, temos um longa pouco engajante que, em conjunto com a edição, cansa o espectador em diversos momentos da projeção.

A cena que Dalai Lama encontra Mao Zedong exemplifica o maniqueísmo da obra. Quando o líder chinês fala “a religião é um veneno para o povo”, o texto trata a afirmação apenas com tom ditatorial, sem aprofundar a visão do personagem ou trazer uma diferente mentalidade sobre as religiões. A película inteira é desenvolvida apenas sob o ponto de vista tibetano, tirando profundidade do filme e aproximando-o de um material de propaganda. Para piorar, Tenzin Thuthob Tsarong, que poderia dar características marcantes ao personagem através de sua performance, está apenas discreto no papel.

Apesar disso, como esperado de um diretor do nível de Martin Scorsese, o filme é tecnicamente encantador. Os planos gerais e as cores quentes, escolhidos por Roger Deakins, criam um vínculo poderoso entre Dalai Lama e o Tibet, pontuando a influência dele para o pequeno país e da cultura local para com ele. Além disso, o uso das cores, através da fotografia, direção de arte e figurinos, auxiliam o longa a criar comentários sobre locais, como é possível analisar ao comparar a cinzenta China com o colorido Tibet. Já a trilha sonora do fenomenal Philip Glass cria uma atmosfera de reflexão e espiritualidade, elementos que acompanham o protagonista, sempre em busca da melhor decisão.

Aliás, vale pontuar que o roteiro, escrito por Melissa Mathison, também possui acertos. O peso de ser uma figura idolatrada em seu país e o esforço para justificar essa imagem são bem explorados pelo texto, sendo o único elemento dramático da película. Além disso, o arco de amadurecimento do 14º Dalai Lama é bem estruturado em três atos, sendo visível a transformação do garoto em líder, mesmo que isso tenha se desenvolvido com pouca nuance, prejudicando a aproximação entre público e personagem.  

Se A Última Tentação de Cristo explora o sacrifício de Jesus e a vida mortal que ele abriu mão, apresentando como um Deus se comportaria entre humanos, Kundun busca mostrar como uma pessoa comum se transforma em uma figura divina. Porém, no segundo caso, Scorsese peca pelo respeito excessivo pelo protagonista, esquecendo-se, em alguns momentos, de ressaltar justamente seus traços humanos.

Kundun – USA, 1997
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Melissa Mathison
Elenco: Tenzin Thuthob Tsarong, Tencho Gyalpo, Tsewang Migyur Khangsar, Gyurme Tethong, Robert Lin
Duração: 134 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.