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Crítica | Kung Fu (1972) – 1X00: The Way of the Tiger, The Sign of the Dragon

por Ritter Fan
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 3
Número de episódios: Piloto longa metragem + 62 episódios
Período de exibição: Piloto em 22 de fevereiro de 1972 e série de 14 de outubro de 1972 a 26 de abril de 1975
Há continuação ou reboot?: Sim. A série continuou na forma do longa metragem Kung Fu: O Filme, de 1986, também com David Carradine repetindo seu papel e com Brandon Lee como seu filho ilegítimo. Depois, em 1987, houve o piloto do que se pretendia que fosse a série Kung Fu: The Next Generation, um reboot com Brandon Lee no papel do bisneto do personagem de Carradine, só que dessa vez vivido por David Darlow, mas a série não foi adiante. Entre 27 de janeiro de 1993 e 1º de janeiro de 1997, foi ao ar a série Kung Fu: The Legend Continues, com 88 episódios, estrelada mais uma vez por David Carradine como neto de seu próprio personagem original e com o mesmo nome e que pode ser encarada como uma continuação. Em 2021, o reboot Kung Fu, estrelado por Olivia Liang, no papel de Nicky Chen, foi ao ar (leiam, aqui, a crítica do piloto).

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O tamanho do texto acima respondendo à simples pergunta “há continuação ou reboot?” já é um forte indicativo da influência que Kung Fu teve e continua tendo no imaginário popular, apesar de todas as controvérsias que cercaram a série. Composta de três temporadas e 62 episódios, esse marco televisivo criado por Ed Spielman (falarei mais sobre a criação da série adiante) e estrelado por David Carradine no papel que marcaria sua carreira para sempre e que ele homenagearia décadas e décadas depois em Kill Bill, começou como um telefilme planejado para funcionar como um piloto, estratégia muito comum na época que testava as águas para que, então, a produção da série pudesse começar com mais confiança.

Portanto, em fevereiro de 1972, iria ao ar na ABC o simplesmente intitulado Kung Fu que, depois, ganharia o enorme subtítulo The Way of the Tiger, The Sign of the Dragon que imediatamente nos apresenta a um estoico personagem andando pelo deserto americano na segunda metade do século XIX (a série é situada entre 1871 e 1875), com uma fotografia granulada que abre espaço para flashbacks de luz suave para sua infância na China fazendo de tudo para estudar para ser um monge Shaolin. Essa estrutura de lições do passado informando o presente, usada incessantemente no longa “de origem”, seria, juntamente com os aforismo retirados do taoísmo, uma das marcas da série.

E quando digo incessantemente, é porque é isso mesmo: esses flashbacks, aqui, ocupam grande parte da projeção e costuram o longa de maneira tão inábil que teria sido muito melhor se a produção tivesse optado por uma montagem linear, dividindo a história em dois capítulos mais curtos, um integralmente na China, outro nos EUA. Claro que há uma razão narrativa para que haja a paralelização entre presente e passado – que é a explicação do porquê do sino-americano Kwai Chang Caine (Carradine) estar onde está -, mas essa escolha cobra caro do ritmo do filme, impedindo principalmente que a linha narrativa do presente, em que Caine passa a defender trabalhadores chineses praticamente escravizados por um empresário que quer construir uma linha férrea, ande com boa velocidade. Em outras palavras, e já para usar um trocadilho irresistível, há que se ter bastante paciência oriental para aguentar a lerdeza que é o começo da série.

A grande verdade é que, como a grande maioria desses pilotos estendidos das décadas de 70 e 80, o roteiro é de um episódio de duração comum que é então esticado pela decupagem que basicamente insere todos os takes mais longos disponíveis para contar a mesma história que poderia ser contada de maneira econômica na metade do tempo. Isso fica particularmente visível quando comparamos o piloto com o primeiro efetivo episódio da série, King of the Mountain, muito mais eficiente em praticamente todos os quesitos.

Mas é um tanto surpreendente notar o investimento da direção de arte nas sequências no templo Shaolin, com cenários construídos em estúdio muito convincentes e que permitem o mergulho narrativo necessário que acompanha o crescimento de Caine, já que primeiro o vemos quando criança, vivido por Radames Pera em papel que seria recorrente e quando jovem adulto, vivido pelo meio-irmão mais novo de David, Keith Carradine, em papel não-creditado, mas que seria apenas o primeiro do Clã Carradine a fazer companhia ao protagonista ao longo da série. É também no passado que os mais interessantes personagens da série são introduzidos, particularmente os Mestres Po (Keye Luke) e Khan (Philip Ahn), o primeiro cego e que famosamente apelida Caine de “Gafanhoto” e o segundo quem originalmente testa e acolhe o jovem Caine.

A década de 70 foi particularmente conhecida nos EUA pelo momento em que os filmes de artes marciais estavam começando a fazer sucesso, o que explica a imediata recepção quente para a série, ainda que tenha sido maculada, ao longo dos anos, pela descoberta de que não só o argumento havia sido criado por Bruce Lee e supostaprovávelmente plagiado por Ed Spielman, como o próprio Lee havia sido preterido no papel e não por terem exatamente preferido Carradine, mas sim, ao que tudo consta, por racismo. Chega a ser irônico que isso tenha acontecido, já que a série, tanto aqui neste piloto, como constantemente ao longo dos anos seguintes, tenha sido uma voz constante contra o racismo contra os asiáticos, servindo inclusive de porto seguro para diversos atores dessa origem que tinham (e ainda têm) dificuldade de encontrar papeis relevantes em Hollywood, tendo até uma continuação em forma de longa metragem estrelada por ninguém menos do que o próprio Brandon Lee, filho de Bruce.

Claro que os aspectos positivos não apagam os negativos, mas independente de qualquer outra consideração, é inegável que Kung Fu marcou sua época e, em muitos aspectos, até antecedeu a febre por filmes de artes marciais nos EUA, quase que literalmente desbravando novo território (Operação Dragão só chegaria ao país no ano seguinte). E, nesse processo, mesmo tendo uma origem menos do que ideal para usar um eufemismo, a série cavou seu espaço no panteão de obras inesquecíveis da televisão americana.

Kung Fu (1972) – 1X00: The Way of the Tiger, The Sign of the Dragon (EUA, 22 de fevereiro de 1972)
Criação: Ed Spielman
Direção: Jerry Thorpe
Roteiro: Ed Spielman, Howard Friedlander
Elenco: David Carradine, Keye Luke, Philip Ahn, Keith Carradine, Radames Pera, James Hong, Richard Loo, Victor Sen Yung, Benson Fong, Robert Ito, Albert Salmi
Duração: 74 min.

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