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Crítica | Kung Fu – 1X01: Pilot (2021)

por Luiz Santiago
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Se o espectador deixar-se enganar ao menos pelos 15 primeiros minutos de Kung Fu (2021), conseguirá pelo menos um pouquinho de coisas bem interessantes vindas dessa estreia da série. O lamento aparece mais adiante, quando os já conhecidos elementos açucarados da CW dominam a narrativa e tornam o que deveria ser o verdadeiro foco do programa uma busca estranha por elementos místicos/mágicos ligados à História da China e do Kung Fu + o incremento de uma história pessoal que vem aos borbotões, cedo demais e mastigada demais para o gosto de qualquer um.

Remake da famosa e querida série de 1972 criada por Ed Spielman e Herman Miller, estrelada por David Carradine, Kung Fu nos faz acompanhar Nicky Chen (Olivia Liang), uma jovem descendente de chineses vivendo nos Estados Unidos que vai à China por um propósito escuso de sua mãe… e acaba entrando para um monastério onde recebe todo o treinamento que a transformará nessa personalidade lutadora que qualquer um consegue imaginar e entender quando se trata de uma série de TV dentro dos padrões super-heroicos. E mesmo que não exista uma explícita inserção desse Universo aqui na série, a linguagem contemporânea jamais conseguiria fazer algo diferente dentro de um show desse tipo. Tal aparência parece ser a “maldição da Era“, e que não tem necessariamente a ver com a CW ou com essa sequência específica.

Os tais “sinais dos tempos“, no entanto, ‘só’ imprimem a esse tipo de enredo uma cara heroica. Isso não quer dizer que ruim por tabela. A não ser que… — e eis onde a coisa toda desce a ladeira nesse início do show de Christina M. Kim — tal exploração esteja apenas preocupada em firmar raízes nesse terreno do heroísmo pelo heroísmo. Na prática, isso significa que qualquer outra coisa que poderia dar uma cara clássica ou mesmo uma profundidade narrativa à trama estará carcomida pelo romance, pela exaltação sem quê nem porquê da heroína da vez (e se fosse um herói, com essa mesma atmosfera, seria a mesma coisa: não nos esqueçamos de Punho de Ferro!) e por uma expansão quase desprovida de lógica com informações sobre a vida dessa pessoa, tudo para no final dar a ela uma inicial jornada de recuperação e reinstalação no coração familiar, ao mesmo tempo em que vence a sua primeira batalha, derrotando uma máfia local. Eis aí o tipo de coisa que a gente chama de “clichê ruim“.

Por conta da estrutura familiar, eu apostei algumas fichas que a CW direcionaria a série para algo mais ou menos na linha de Black Lightning, que teve um fantástico começo, lá em 2018. Mas o drama que a showrunner acabou escolhendo para a sua série foi um mix de romance, artes marciais, mitologia marcial chinesa, tempero super-heroico e drama familiar adolescente (apesar de estarmos falando de um elenco adulto), uma sopa dramática que, obviamente, não dá certo. Eu disse no início que a gente pode até cair no engano nos 15 primeiros minutos, porque pelo menos ali essa mistura ainda estava ausente. Tudo bem que a apresentação é dissociada de uma maior organicidade, mas ela não é ruim. Tampouco o princípio básico que empurra Nicky para o monastério e o seu subsequente treino. Tudo isso é basilar, um terreno já conhecido e que a roteirista/criadora percorre relativamente bem, seguindo a cartilha.

A partir do retorno da protagonista para os Estados Unidos é que essa potencial trama interessante vira um novelão com um número um pouco maior de porradaria, e é isso aí. Tem sua graça, é claro. Mas ao fim e ao cabo, é algo tão raso e tão enraivecedor (por desperdiçar tanta coisa boa) que termina se tornando ruim. Triste fim para os entusiastas de obras do tipo, como eu. Será uma maldição? Só falta o vindouro filme do Shang-Chi decepcionar também…

Kung Fu – 1X01: Pilot (EUA, 2021)
Criadora:
Christina M. Kim
Direção: Hanelle M. Culpepper
Roteiro: Christina M. Kim (baseado na série e personagens de Ed Spielman e Herman Miller)
Elenco: Olivia Liang, Kheng Hua Tan, Eddie Liu, Shannon Dang, Jon Prasida, Gavin Stenhouse, Vanessa Kai, Tony Chung, Tzi Ma, Yvonne Chapman, Valencia Budijanto, Vincent Cheng, Colin Foo, Angie Ip, Althea Kaye
Duração: 42 min.

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