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Crítica | Kung Fu Panda 3

por Davi Lima
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Na franquia Kung Fu Panda 3, os atributos da transcendência, envolvidos na religião xintoísta da China, sempre foram medidas impulsionantes da narrativa, e não artifícios explícitos de poder para impacto durante os golpes de Kung Fu nas cenas de ação. Justamente no encerramento da trilogia, o  filme que mais fala de transcendência explícita, seja verbalmente nos discursos ou visualmente na ação, nunca transcende de fato, usando o humor do panda Xiao Po como desculpa para nunca amadurecer a espiritualidade tão presente em tudo. 

Em escopo, o mundo espiritual é apresentado no filme em toda a sua graça dourada e de rochas flutuantes, enquanto  a corporalidade do protagonista é diluída na diversificação dos variados pandas; um novo trabalho de singularidade na franquia, agora coletiva. A ideia-princípio de Po encontrar o seu “Eu” mesmo e como sua família tem em cada membro sua peculiaridade “pandesca” remete novamente à linda mensagem de que cada treinamento de Kung Fu é específico. Por isso se torna harmonicamente temático que o símbolo vilanesco do filme seja composto de vários mestres animais históricos da arte marcial, além do vilão chamado Kai ser um colecionador de chi físico, como action figures de cor esmeralda. Tudo isso forma um paralelismo com o nerd Po, conhecido pelo público por brincar com action figures do Cinco Furiosos, provocando, por isso, um conflito cômico-dramático por se tornar mestre de seus ídolos no qual ainda brinca com as miniaturas  ao tomar banho. Se não bastasse tantas conexões conclusivas, ainda há o questionar explicativo do que é Dragão Guerreiro, da resolução do tal destino de Po, e até mesmo de o porquê um dos Cinco Furiosos, a Garça, nomear seus golpes de uma tal forma.

Dessa forma, é uma grande história que revela toda a dimensão da franquia com muitos arcos dramáticos que, por um lado confortável, buscam solucionar usando artimanhas clássicas de narrativa, e por outro, infelizmente, tenta-se diferenciar, sem medida proporcional, com o humor de Po. Tal comédia, que sempre o diferenciou e o completava em humildade, mesmo quando era reconhecido como um grande guerreiro em meio a um filme com tantos conflitos – alguns até incitados para agradar algum fã que desejava a personagem Tigresa relacionada romanticamente com Po – se tornam de objetivos a apressados. Se, de início, a grande novidade do protagonista em se tornar mestre parece alguma subversão humorada de Po para tratar da seriedade dos termos do universo do Kung Fu, ao final, se torna a própria linguagem do filme em alcançar, de fato, seus conflitos principais cumulativos, soando incoerente com as bases clássicas e didáticas que sempre aparecem nos novos enfrentamentos do panda.

Tal experiência com o enfraquecimento no ritmo com o drama do filme pode ser percebida, por exemplo, na maneira desleixada, embora ainda embelezante, que o 2D é utilizado para contar a história. No começo da obra há um objetivo nas cenas mais gráficas de quebrar a expectativa para propor humor, que confirma a aparência inicial de subversão quanto a aceleração do filme. Então, se os personagens vão fazendo poses e perseguições pelos telhados nas primeiras cenas, é para comer, ou quando há um close up nos olhos de Po, revelando que ele está tomando banho, fugindo de alguma responsabilidade no conforto da comédia. Mas isso só serve para homogeneizar uma dinâmica do filme, e não de fato cultivar ideias utilizando a sua linguagem humorada. A proposta é reiterar noções clássicas de histórias orientais e jornadas do herói, como o aprendiz que não quer virar mestre, o passado enganoso, e como o protagonista que treina um grupo sem treino frutífero, exatamente utilizando 2D e imagem dividida em quadros deformantes para acelerar o tempo e diferenciar o treinamento mestre de Po.

Assim, compreendendo essa experiência no uso do 2D com o filme, vai existindo uma permissão espiritual exterior para uma diferenciação na imagem visual do protagonista e da geografia dos locais que ele participa a partir da conexão de Po com o mestre de tartaruga Oogway. O vilão Kai e o seu conflito com Po soa mais como motivo para a história andar do que realmente como proposta dramática; mesmo em lutas empolgantes, mesmo que haja um apreço grande da trilogia em arrancar grande impressão nos movimentos em 3D quanto as batalhas, tudo isso soa repetido no final pela pressa antes implementada. Por isso, mesmo na associação visual mais transcendental num mundo espiritual dos mortos, vira uma imagem tecnológica bonita, apenas. 

Fora isso, a noção de repetição que o filme pode causar não se baseia na forma de apresentar conceitos, e sim como a progressividade de Xiao Po, assim como o símbolo Ying Yang, é mais racionalizada do que emocionante na rapidez do filme progredir com seus clichês. E é no ponto da diferenciação de Po que a imagem, agora explicativa de conceitos, como Dragão Guerreiro espiritual e poeira dourada envolta dele usada como ação impactante, mais do que pacífica, fica óbvia, enfim, banal. O humor do panda que antes era personalidade se torna artifício, e se antes concretizava-se a transcendentalidade como descoberta de poderes, como um Deus ex machina, os princípios agregantes ao mundo de Po se elevam como salvação dentro de um dinamismo excessivo.

Por fim, Po não cresce, nenhum conflito seu confronta seu orgulho proporcionalmente ao seu humor ou poder visualmente esplendoroso, mas que pertence a um mundo espiritual. Tudo se torna racional demais, tudo se acomoda até mesmo na diferenciação, assim como Po em sua compreensão do Kung Fu, infelizmente. Ele não transcende, ele volta para si mais uma vez, valoriza a pose de herói e volta para o sonho de ser um super-herói com todos sendo super. Pode parecer democrático, mas só em uma dimensão, não todas que o Kung Fu Panda 3 apresenta. Logo, mais uma vez surge divisão em meio à venda incoerente da imagem integral do mundo vertical e horizontal, mas agora na finalização da trilogia do Kung Fu Panda.

Kung Fu Panda 3 (Kung Fu Panda 3 – EUA, 2016)
Direção:
 Alessandro Carloni, Jennifer Yuh
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Jack Black, Bryan Cranston, Dustin Hoffman,  Angelina Jolie, J.K. Simmons, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu
Duração: 95 min.

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