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Crítica | Kung Fu Panda

por Davi Lima
8 views (a partir de agosto de 2020)

Entre o destino e o treinamento, Po não só quebra a idolatria mas compreende que não há fórmula para a mística dos eventos temporais ou da beleza de algumas ‘ordinariedades‘. Quando o panda vira a celebridade que ele sonhava, o sonho de conquista própria nem é dele ou do seu mestre, simplesmente é o descanso do Universo do filme quanto a provar que cada animal é um atributo simbólico para o heroico Kung Fu.

A história do panda, que em seus sonhos de visual 2D vislumbra o heroísmo e na realidade 3D se contenta em ser um mero espectador, não apenas é criativa em unificar posições culturais dentro de uma animação com animais, como também usa o humor americano para reestruturar, a seu modo, a arte chinesa de luta, conservando a ação e ironizando a exclusão que ela pode causar. Com isso, por um lado, há um princípio humanista no mundo de animais, quando o reflexo do “ser interior” é o que se precisa ter de reflexão inspiradora como suficiência. Por outro lado, há algo supra-racional nessa narrativa mitológica do Kung Fu. Po não apenas se motiva pela comida para tornar-se O Escolhido mestre nas artes marciais como Dragão Guerreiro, ele também preserva o misticismo, mesmo na clara e cômica diversão de aprender a lutar que vemos na relação entre mestre e aprendiz. Isso parte da crença da rivalidade, da humildade e do orgulho que o mestre Shifu aprende no filme, assim como essa crença é a fundamentação para se ter os superpoderes e tornar-se um herói.

O filme vai além da quebra de estereótipos, numa possível didática em respeito ao preconceito contra gordos, ou uma imposição da temática social Ocidental numa mitologia Oriental. Na verdade, o grande princípio do panda inferiorizado pelo seu porte físico, racionalmente falando, se mostra na resistência não nomeada do animal panda como imagem da arte chinesa. Se os Cinco Furiosos que Po idolatrava eram figuras qualitativas da arte marcial, o processo todo do filme é em provar que o panda (assim como tigre, cobra, garça, gafanhoto e macaco), é também um animal-símbolo, um atributo para se aprender Kung Fu. Por isso, o exercício do filme ao “estranhar” o animal estereotipadamente gordo lutar é porque quase nunca se olha muito para as particularidades biológicas ou psicológicas desse tal estereótipo, especialmente para uma luta ágil do Kung Fu.

Não é à toa que o dublador que interpreta o protagonista Po é do ator Jack Black, que sempre usou, de maneira geral, sua forma física para a comédia, mas sem depender dela para fazer filmes variados. Então, aí se revela o preconceito, pelo julgamento do sisudo treinamento em ser impossível para um panda. Dessa forma, através da comédia, há um plausível campo de possibilidades no filme, até o slow motion para se captar melhor as cenas de ação rápidas, elaboradas e impactantes do Kung Fu, indo do amplamente descolado efeito numa luta, até o desastrado golpe de uma bunda de panda esmagando uma cabeça de tigre.

Logo, se o filme parece, por causa da comédia, uma conclusão meio óbvia e até anti-climática, é porque a animação digital, conversando com a dimensão das artes conceituais 2D que inicia o filme, abre a obra para um misticismo próprio por meio do humor dessa transição da imagem do caricatural para o realista. Essas dimensões místicas que se conflitam pelo movimento das imagens, em níveis diferentes, é quebrada quando as cores vibrantes, os pelos animalescos bem renderizados e as expressões faciais de Po contribuem fortemente para que um plano geral posicione um personagem de um lado e o outro, para que na batalha se evidenciem os tamanhos de cada um. Ou seja, os diretores aproveitam o imaginário das artes conceituais para insinuar o mundo dos sonhos e evocar a cultura chinesa no traço. E, com o digital 3D, a história se aproveita do seu realismo para que se alcance o místico transformador da realidade na comparação das duas animações presentes no filme.

A grande importância disso é porque o reflexo prático da rasa arte marcial, a luta física sem o adjunto da  teoria proporcionalmente como mais importante, acaba tornando irrelevante também as proporções corporais, ao admitir, no filme, que o conhecimento simultâneo, teoria e prática, é a verdade sobre si, sobre Po. Essa tal verdade não é alcançada de maneira racional, e compreendendo isso é que a realidade do Vale da Paz, a cidade onde se constitui o universo do filme, se torna um terreno de guerra, tanto dramático quanto cômico. Essa é a quebra de expectativa que transforma tudo na obra. O humor do protagonista é a linha moral de entendimento do heroísmo além dos brinquedos de fã, do sonho 2D ou da pose padrão de imponência, com chapéu e capa.

Kung Fu Panda (EUA, 2008)
Direção:
 Mark Osborne, John Stevenson
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Jack Black, Ian McShane, Angelina Jolie, Jackie Chan, Dustin Hoffman, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, Randall Duk Kim
Duração: 92 min

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