Crítica | Kursk – A Última Missão

Diferentemente de muitos filmes baseados em desastres reais — como o próprio Titanic, citado algumas vezes aqui — o que mais parece interessar o diretor Thomas Vinterberg (A Caça) não é a tragédia em si, mas como todos as outras pessoas reagem a ela. Por isso, em Kursk, o drama envolvendo os tripulantes do submarino presos no fundo do mar divide boa parte do tempo de tela com a aflição de suas mulheres e o jogo de xadrez envolvendo o governo russo com o norte-americano. Plano Crítico.

Diferentemente de muitos filmes baseados em desastres reais — como o próprio Titanic, citado algumas vezes aqui — o que mais parece interessar o diretor Thomas Vinterberg (A Caça) não é a tragédia em si, mas como todos as outras pessoas reagem a ela. Por isso, em Kursk, o drama envolvendo os tripulantes do submarino presos no fundo do mar divide boa parte do tempo de tela com a aflição de suas mulheres e o jogo de xadrez envolvendo o governo russo com o norte-americano.

Considerada uma das maiores tragédias subaquáticas da história, o afundamento do navio russo Kursk, causado por uma explosão acidental, matou 118 pessoas em 2000. No longa, o roteiro de Robert Rodat (O Resgate do Soldado Ryan) centraliza a trama em Mikhail (Matthias Schoenaerts), que representa a voz da razão dentro do caos após o naufrágio, e de sua esposa Tanya (Léa Seydoux), que, no mundo terrestre, organiza uma revolta entre as esposas dos tripulantes. Isso acontece devido a uma lenta burocracia para que a Rússia, personificada na figura do almirante Vladmir Petrenko (Max Von Sydow), aceite a ajuda dos Estados Unidos, resumido ao comodoro David Russell (Colin Firth). 

Provavelmente a parte mais interessante de Kursk — e já indicando seus problemas — é justamente antes da explosão acontecer. Ao se dedicar em construir um laço afetivo quase familiar entre os marinheiros na sequência do casamento de um deles, Vinterberg parece estar mais solto como diretor. Vemos aqui algumas nuances de sua câmera frenética utilizada em dos símbolos do Dogma 95, Festa de Família, que aproxima o longa de um tom mais documental. No primeiro ato, apesar de todos claramente serem maridos e pais dedicados, percebe-se que o compromisso daqueles homens é realmente com a Marinha. O uso dos uniformes, a cantoria, tudo faz parte de um um grande ritual, que termina na bela sequência do submarino imergindo na água ao som de uma música à capela. O mar é o verdadeiro matrimônio daqueles homens.

Todavia, tudo isso acaba soando apenas como um suspiro de humanidade dentro de um filme que se sufoca em sua própria burocracia. Logo, é curioso que Kursk sofra justamente daquilo que passe martelando por toda a narrativa: a negligência. Ao dedicar boa parte de suas energias mostrando o altruísmo norte-americano e o vilanismo russo, tudo que acontece dentro do submarino nunca soa urgente.  

Mais do que um filme de desastre, Kursk soa mais como um filme de politicagem. O que por si só não seria um problema, se o texto de Rodat não fosse tão raso neste sentido. Tudo que ele faz é criar situações que mostram a “teimosia” russa e como as esposas e os americanos, além do próprio público, se revoltam diante disso. Enquanto isso, o drama acompanhando aqueles homens dentro do submarino afundado é deixado de lado e, quando mostrado, também não apresenta nada de muito diferente do que já vimos em filmes de espaço confinado. Estamos diante do paradoxo de uma obra que critica a burocracia, mas que acaba se tornando burocrática e monótona.

Kursk – A Última Missão (Kursk) – Bélgica, Luxemburgo, França, 2018
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Robert Rodat
Elenco: Matthias Schoenaerts, Léa Seydoux, Peter Simonischek, August Diehl, Max Von Sydow, Colin Firth, Bjarne Henriksen, Magnus Millang, Michael Nyqvist
Duração: 118 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.