Crítica | L. Cohen (2018)

James-Benning_-L cohen plano critico

Alguns spoilers

São 48 minutos de um único plano, uma paisagem no Oregon onde nada acontece, até que algo acontece. Aos que conhecem o cinema de James Benning, esta sinopse pode ser um tanto quanto estranha: o cineasta é conhecido pelos seus projetos cujo interesse são nuvens, lagos, campos e linhas de trem, narrativas interessadas na sensação de que “nada acontece”. O diretor dá luz à diferentes jornadas para cada espectador, que são concedidos a tarefa de vagar por aquele espaço e construir algo próprio, tomar suas próprias decisões, montar seu próprio filme. Em L. Cohen, nas palavras do próprio diretor, temos essa oportunidade durante “um dia muito especial”.

Uma breve descrição do plano, antes de mais nada: um solo seco com poucos arbustos, atrás um vasto campo de grama. Um par de barris, alguns postes à direta. Ao fundo, montanhas nevadas que cortam as nuvens. Graças ao cinema digital, Benning pode deixar a câmera ligada por quanto tempo quiser que durem seus planos, podendo explorar a interferência do tempo em suas paisagens, e como elas são afetadas pelo vento, erosão, luz, e porque não avanço civilizatório? Apesar de ser uma dura missão, encarar um filme do diretor é restabelecer seus sentidos para que seu minimalismo adquira um sentido completamente novo, e possamos aproveitar o máximo daquela experiência, ao ponto que quanto mais o tempo passa mais entendemos cada uma das figuras em cena, e cada arbusto movido pelo vento torna-se uma satisfação nova.

Modular o tempo e a nossa percepção sobre ele é algo perceptível dentro da filmografia de Benning, que sempre nos desafiou ao integrar a reflexão e, em certo grau, uma meditação que reestrutura nossa concepção sobre a passagem dos minutos e desafiasse nossa exaustão. Dois anos atrás em Measuring Change, filme que consiste em dois planos do mesmo lugar em horas diferentes do dia, há a procura por revelar os efeitos da incidência de luz sobre a paisagem em dois momentos distintos. Também em 2016, Equinócio de Primavera, e Equinócio de Outono são filmes irmãos, cada um composto por 13 planos diferentes de cerca de cinco minutos, cada um em uma hora do dia.

Se uma paisagem em Primavera se passa de manhã e, evidentemente, durante a primavera, em Outono esse plano é trazido para o fim do dia, durante o outono. São imagens iguais, mas a passagem de tempo integrou sentidos completamente diferentes a cada uma das imagens mostradas, onde havia alegria e beleza alguns meses depois mostrou-se uma imagem melancólica e desoladora. BSNF, de 2013, é um longo plano de um deserto que dura mais de três horas, cujo valor está na mudança da imagem gradativa e como os trens que ali passam afetam a paisagem, revelando e obstruindo a nossa perspectiva, talvez seu filme mais radical até então onde sua tese se dá justamente pelo prazer em olhar o tempo passar.

O que acontece em L. Cohen é bem mais evidente que os métodos então usados por Benning: na metade do filme, um eclipse solar ocorre. Durante dois minutos, todos os barulhos de avião, mugidos e cantares de grilo cessam. De dia, vira noite, e parece que todo mundo foi dormir. Há interferência mais radical que essa? Não há vida passando em frente às câmeras, ela é restrita aos sons, que de repente nos deixam e o vazio apropria-se daquela paisagem. São momentos intensos onde a sombra da lua traça uma ilusão que pousa dentro de nós, que, mesmo sabendo tratar-se de uma mentira nos damos um momento de reflexão, uma espécie de reza em respeito ao tempo que dobrou daquela forma.

Tudo volta ao normal, aparentemente, a vida volta a chiar ao fundo, e a imagem retorna do ponto de partida. Há um espectro rondando, um silêncio constrangedor entre cada som reproduzido mas não visto. São vinte novos minutos não muito diferentes, mas contextualizados de forma tão sofrida que há algo naquele campo incapaz até de soprar novos ventos. E aí entra a canção de Leonard Cohen, Love Itself, canção sobre luz, poeira e passar do tempo, e depois um novo silêncio. E tudo aconteceu.

“A luz veio através da janela,
Direto do sol acima.
E então dentro de meu pequeno quarto,
Raios de amor mergulharam”
-Love Itself, de Leonard Cohen.

L. Cohen – EUA, 2018
Direção: James Benning
Roteiro: James Benning
Elenco: James Benning
Duração: 48 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.