Crítica | Laços de Ternura

Laços de Ternura é um filme bastante ousado para a sua época, bem mais irreverente que algumas narrativas contemporâneas sobre as dores e delícias da maternidade, bem como das relações familiares. Ao longo dos 122 minutos de projeção, adentramos na vida das personagens femininas e entendemos seus anseios e desejos, práticas sexuais tradicionais e outras incursões no terreno dos jogos de atração, dentre outras questões não aceitáveis na conjuntura estadunidense, dominada pela doutrinação republicana ao ditar o certo e o errado em termos comportamentais.

Dirigido por James L. Brooks, cineasta que teve como guia o próprio roteiro, erguido com base no romance de Larry McKutry. Em sua história, mãe e filha conversam amenidades e coisas sérias via telefone, como se fossemos duas grandes amigas íntimas, o que permite desavenças, críticas, momentos de tensão e outros de pura entrega emocional. O que ambas não esquecem nesse trajeto é a particularidade de cada papel desempenhado em seus respectivos cotidianos: uma é a mãe, carregada de experiências que a permite compreender algumas escolhas inadequadas da filha. A outra, antes de ter o seu primeiro filho, não consegue entender a mãe, mas o tempo vai lhe ensinar algumas lições valiosas, numa trama que poderia tranquilamente se intitular “Golpe do Destino”.

O ponto de partida para a história investe num panorâmica revisitação ao passado, para entendermos as ações de Aurora (Shirley MacLaine) como mãe dedicada e exageradamente protetora de Emma (Debra Winger), ambas esféricas e desenvolvidas com muito vigor. O tempo avança e Emma decide casar-se com Flap (Jeff Daniels), um jovem com postura comportamental que não agrada nem um pouco a futura sogra, descontente com a junção do novo casal. Ela aconselha a filha, mas a apaixonada garota entende a atitude como birra da mãe e segue a sua vida de casada bem distante do ambiente em que viveu com a matriarca por longa data.

Diante da situação exposta, ambas percebem que precisam fazer algo para mudar suas respectivas condições. Aurora precisa seguir adiante, sair do sentimento de viuvez e ter outras atividades que a deixe ocupada. Emma começa a sentir os impactos do casamento após Flap demonstrar pouco respeito ao traí-la sem nenhum pudor, sempre cínico e dissimulado. Nesse processo Aurora conhece Garret (Jack Nicholson), antigo membro da aeronáutica que age de maneira malandra com as mulheres, mas que no caso de Aurora, parece querer dar um tempo na alcunha de “pegador”.

Enquanto a mãe vive um jogo de idas e vindas e demora para tirar o atraso sexual e se entregar ao homem cheio de vigor que a deseja, a filha precisa lidar com as dificuldades financeiras da vida independente que escolheu para si, além de ter que enfrentar dois grandes novos problemas: a traição fixa de Flap com uma de suas alunas, quase um novo casamento, e para ser ainda mais trágico, a notícia devastadora de um câncer de proporções nefastas em seu organismo, algo que pedirá dela bastante paciência e cautela na busca de resoluções.

Narrado por uma câmera que observa sem discrição os diálogos dos personagens, Laços de Ternura teve direção de fotografia assinada por Andrezej Bartkkowiak, cuidadoso com questões de iluminação e presença de enquadramentos no estilo clássico, captadores dos espaços erguidos pelo eficiente design de produção de Polly Platt, setor em consonância ideal com os figurinos de Kristi Zea, elementos que permitem a construção visual dos perfis dos personagens. Acompanhado pela trilha sonora de Michael Gorf, o filme é melancólico, mas sem precisar açucarar nas notas musicais.

Lançado em 1983, Laços de Ternura é um drama que retrata de maneira sólida as idas e vindas no tempo para ressaltar os altos e baixos entre as suas. A mãe, senhora com pouco senso de humor e medo de envelhecer, evolui em sua condição, tal como a filha, interessada em seguir os padrões, formar uma família e continuar sendo desinibida e livre, mesmo sem trabalhar e relativamente ser dependente do marido em alguns aspectos, como por exemplo, o financeiro. Com uma lição valiosa sobre maternidade, a produção nos mostra Aurora e Emma em suas semelhanças e diferenças, exposição que nos permite compreendê-las dentro dos conflitos que gravitam em torno de suas existências. Uma lição dramática sensível e cativante.

Laços de Ternura — (Termes of Endearment) Estados Unidos, 1983.
Direção: James L. Brooks
Roteiro: James L. Brooks, Larry McMurtry
Elenco: Albert Brooks, Shirley MacLaine, Alexandra O’Karma, Amanda Watkins, Danny DeVito, David Wohl, Debra Winger, Devon O’Brien, Elaine McGown, F. William Parker, Helen Stauffer, Holly Holmberg Brooks, Huckleberry Fox, Jack Nicholson, Jeff Daniels, Jennifer Josey
Duração: 132 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.