Crítica | “Ladrão” – Djonga

“Parece que liberaram o preconceito
Pelo menos antigamente esses c#z@o era discreto”

Venho percebendo que, desde um certo tempo, com o advento do hip-hop/rap como um dos gêneros musicais de maior domínio, o mesmo vem sofrendo uma certa glamourização. Claro, isso não é de hoje, mas não deixa de ser um fenômeno crescente. É a tendência de um rap bonitinho, de “atitude” ou “crítico social”, mas com reais interesses mega desfocados da essência desse marco cultural. Ladrão, terceiro disco de Djonga, grande revelação do rap brasileiro, parece ser uma resposta a isso tudo. Afinal, como o próprio diz na sétima faixa do disco: “Esse disco é sobre resgate/ Pra que não haja mais resquício/ Na sua mente que te faça esquecer/ Que você é o dono do agora, mas o antes é mais importante que isso.”

Eu mesmo preciso dizer que vi pela primeira vez o som de Djonga com olhar estranho. Ao ouvir Heresia, sua estreia de 2017, fiquei espantado com a crueza e agressividade das letras, sem papas na língua. Digo isso com vergonha e faço aqui minha errata. Por isso digo que ninguém está isento dessa crescente glamourização do rap. Isso matou o rock e procura sua próxima vítima. Em Djonga vejo a autenticidade de alguém que segue preso a suas raízes a todo custo, que privilegia a letra frente a batida, que não tem pudores ao falar de sexo e nem medo de expressar sua opinião. Se trata de algo que realmente revivencia à essência do hip-hop. Em O Menino que Queria Ser Deus, seu álbum de 2018, já dizia: “Nem conhecem Racionaisvai ouvir um disco meu?”.

As rimas são, de longe, onde Djonga mais quer atenção. Literalmente no primeiro segundo do disco ele já começa seus versos. Hat Trick é uma carta de entrada que chega com o pé na porta pedindo para abrir alas para o rei. Uma sequência de versos velozes e sagazes que não servem de mera exaltação a si próprio como rapper, mas de orgulho da raça negra. O rapper foca na letra como o fundamental e mais precioso em sua obra. Em Ladrão, os beats conseguem ser bem eficientes e sempre funcionam de forma simbiótica junto a letra, dando base para um ritmo imparável. No entanto, é inegável que são batidas simples e reféns do flow e interpretação brilhantes de Djonga – em suma, nas mãos de outro rapper jamais teriam o mesmo impacto.

Bené é apenas um dos momentos que Djonga debate o ponto que levantei no início dessa crítica. “Pega a visão, não vá se perder” é um refrão que evidencia o foco nas raízes enquanto rimas atacam a “ostentação” de grupos da sociedade que usam os temas do hip-hop para se apropriar culturalmente de forma irresponsável. Também se trata de um tema que estreita relações com provavelmente o maior rapper da atualidade, Kendrick Lamar, alguém que o cantor deixa claro ser uma inspiração (“Ouvindo Kendrick Lamar/ Pra nunca me esquecer que ainda não sou bom”).

Na faixa homônima o artista discursa, através de uma série de magníficas metáforas, o seu impacto dentro da cena do hip-hop, “roubando” lugar dos playboys e servindo como um Robin Hood que “Não vai fazer disparos e nem fazer refém/ Só querem o conteúdo, irmão, que aí dentro tem”. Bença é o coração emocional do álbum, se trata de uma canção fortemente inspirada em sua vó, presente na capa e determinante na construção do álbum, uma vez que foi em sua casa que foi montado o estúdio de gravação. É a faixa mais pessoal da obra, fazendo uso da história familiar da avó do rapper a fim de estabelecer um ótimo debate sobre misoginia e preconceito racial.

Parece não existir sequer um verso menos do que excelente em Deus e o Diabo na Terra do Sol, o clímax do disco. Cada rima parece uma punchline, é de cair o queixo a sequência de sacadas inteligentíssimas, referências que vão de Canudos a Coltrane e críticas políticas e sociais que vão do presidente da república até os recentes eventos de Brumadinho. A base sonora – a melhor do álbum – complementa as rimas levantando um clima instigante e um flow preciso.

Por fim, Falcão é a síntese final de Djonga fazendo alusão aos resultados de um recente passado (“É, esse ano foi estranho”), ao mesmo tempo que mantém uma perspectiva de firmeza a respeito do futuro e de suas convicções. O artista deixa os últimos segundos do álbum reservados para um sample de Elis Regina e sua clássica Romaria, que ressoa perfeitamente com os temas explorados pelo rapper, fechando a obra com um olhar um tanto agridoce. Ladrão é Djonga caminhando cada vez mais em direção ao ápice e cravando que pouquíssimos possuem uma lírica comparável a dele. É um resgate para com a essência do rap em sua forma mais honesta. Um olhar direcionado a como e onde o gênero começou, de forma que não perca sua principal motivação: ser voz.

Aumenta!: Deus e o Diabo na Terra do Sol
Diminui!: Tipo

Ladrão
Artista: Djonga
País: Brasil
Lançamento: 15 de março de 2019
Gravadora: Independente
Estilo: Rap/Hip-Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.