Crítica | Lady Christina – 1ª Temporada

Lady Christina de Souza (sobrenome pronunciado pelos atores aqui no pior sotaque possível) foi uma das três mulheres de destino misterioso que vimos aparecer na Era do 10º Doutor, lista completada por River Song (futura esposa) e Jenny (filha). E para as três mulheres — dentre as quais apenas River teve uma ótima e bem-vinda trajetória na TV — a Big Finish realizou projetos que estendiam suas aventuras, guardando as particularidades das personagens e, pelo menos em essência, mantendo uma abordagem coerente de ação de cada uma delas, algo que vemos acontecer em O Diário de River Song e Jenny: A Filha do Doutor. Infelizmente esta série Lady Christina não entra para a lista, e pior, marca-se como um dos raros casos de temporada ruim vinda da Big Finish.

Composta por quatro episódios (It Takes a Thief, escrito por John DorneySkin Deep, escrito por James GossPortrait of a Lady, escrito por Tim Dawson e Death on the Mile, escrito por Donald McLeary) a série tem um início sólido. O episódio It Takes a Thief tem uma aura de “narrativas de assalto” que, em conceito, lembra Arsène Lupin. Já em características de produção (apelando para o visual), lembra Ladrão de Casaca ou até mesmo Diabolik, sendo Lady Christina uma versão muito interessante de Eva Kant. Basicamente a minha nota da temporada vem da qualidade e nível de entretenimento desse Piloto, que consegue criar um “novo caso de roubo” para a protagonista ao mesmo tempo que apresenta elementos externos a ela, dando a oportunidade de o espectador identificar características de sua personalidade e as mudanças ocorridas após o encontro com o Doutor em Planet of the Dead.

Mas aí vem os três outros episódios, e olha… fica difícil até escrever sobre. O principal ponto aqui é a dificuldade de manter o mínimo de interesse pela personagem à medida que o roteiro parece inventar uma nova mulher a cada aventura, escolha ainda piorada pelo fato de os elos de ligação com o que vimos no primeiro episódio praticamente não existirem. Nem os Sontarans, nem os Slitheen e nem a mãe de Donna conseguem tornar a presença de Lady Christina coerente  e seguimos até o fim com uma impressão que os roteiristas quiseram, cedo demais, criar um largo espaço de ações da personagem para em alguma momento do futuro poderem agir e construir um arco pessoal em cima disso.

Há, porém, formas e formas de se executar esse tipo de coisa. A série de Jenny é o exemplo mais propício para provar isso: trata-se de uma personagem que só teve uma aparição na TV e que terminou sua primeira aventura com um “final aberto”, abrindo as portas para futuras aparições, fosse na TV, fosse no Universo Expandido. Todavia, o que temos na maior parte dos episódios aqui são aventuras que se ligam pouco ou nada àquilo que conhecemos da personagem, não apresentando uma verdadeira costura nem mesmo para que apreciemos as ações da protagonista como um crescendo, como um franco desenvolvimento de sua personalidade. Mesmo a presença de um certo agente da UNIT em dois episódios falha em dar essa sensação para o espectador, afinal, é apenas um aspecto único da história e nada diz respeito à Sra. Souza, apenas a um segundo encontro dela com outro personagem.

Minha decepção com esta série foi enorme. Assim como Class, eu esperava que houvesse uma continuação em alto nível para a saga desses indivíduos, e no caso de Lady Christina, a facilidade de deslocamento (já que ela dirige o ônibus voador) e o fato de ser uma “ladra com princípios” poderia gerar um resultado bem mais instigante, digno da personagem e do Universo de Doctor Who. Infelizmente não foi dessa vez. Mesmo com alguns momentos engraçados e um primeiro episódio muito bom, a série cai da qualidade a partir do segundo capítulo e não se levanta mais.

Lady Christina: Series One (Reino Unidos, 23 de agosto de 2018)
Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: John Dorney, James Goss, Tim Dawson, Donald McLeary
Elenco: Michelle Ryan, Warren Brown, Matt Barber, Cristina Barreiro, Holly Jackson Walters, Gareth Corke, Matthew Brenher, Jacqueline King, William Gaminara, Suzy Bloom, Rebecca Yeo, Ewan Bailey, Emily Carewe, Jenny Lee, Christopher Ryan, Tracy Wiles, Melissa Collier, Richard Hansell
Duração: 4 episódios, c. 50 min. cada

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.