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Crítica | Lakers: Hora de Vencer – 1ª Temporada

Arrancando sorrisos dos fãs de basquete.

por Kevin Rick
2.225 (a partir de agosto de 2020)

Desde criança, eu sempre tive três paixões no mundo do entretenimento: Cinema, quadrinhos e basquete. Minha infância pode ser resumida em idas a locadoras para alugar animações, comprar revistinhas da Turma da Mônica em bancas, e, claro, a tarefa mais difícil de todas: achar quadras que não tivessem pessoas jogando futebol. Eu cresci para me tornar obcecado pela Sétima e a Nona Arte, obviamente, mas também nunca abandonei o mundo da bola laranja. Assisto a NBA ao som dos berros de Rômulo Mendonça, adoro ler táticas e estatísticas de jogos e estou escrevendo esta crítica instantes antes do próximo embate dos playoffs entre Golden State Warriors e Memphis Grizzles.

Então, dizer que eu estava animado com a estreia de Lakers: Hora de Vencer é um eufemismo, afinal, pude ver a adaptação de histórias que li e ouvi desde criança: a rivalidade entre Lakers e Boston, e também de Magic Johnson e Larry Bird; o nascimento do Showtime Lakers que reviveu a NBA; a figura icônica de caras como Red Auerbach e Jerry West; e o sentimento de euforia ao assistir os skyhooks de Kareem Abdul-Jabbar e os passes de Magic. Confesso que assisti a temporada inteira com um sorriso no rosto, me divertindo com o tom nostálgico da narrativa e as várias referências da época, das mais escancaradas em torno do Lakers, até menções simples, como a rivalidade entre Wilt Chamberlain e Bill Russell, ainda que nada disso seja desculpa para fechar os olhos aos problemas da obra.

A base da história até parece simples, mostrando os bastidores de como o Lakers se tornou uma potência nos anos 80 através do empresário Jerry Buss (John C. Reilly), ganhando múltiplos títulos e tornando a NBA um show de entretenimento bilionário, mas a obra criada por Max Borenstein e Jim Hecht tem uma tarefa narrativa e temática complicada, porque existem diversos ângulos para contar a história. Nós temos a perspectiva pessoal e empresarial da família Buss que comanda a franquia, dos jogadores e treinadores criando uma cultura em volta do time e também do próprio Magic Johnson (Quincy Isaiah) como estrela do programa, além de muitos elementos tangenciais, como a ascensão da NBA, a rivalidade com o Boston Celtics e temáticas importantes como racismo e machismo. Existem diversas possibilidades de abordagem narrativa, mas os criadores têm uma escolha curiosa: abordar… tudo.

Para o mérito da obra, é uma decisão corajosa. Mas também é uma decisão que demanda bastante do roteiro, precisando conectar muitos núcleos e desenvolver vários personagens ao longo dos dez episódios. O saldo final é até positivo, mas não sem ressalvas, especialmente em termos de foco e profundidade. Alguns personagens não ganham o tempo que merecem, como Kareem (Solomon Hughes) e seu fascinante arco dramático entre religião, ativismo e esporte, ou então Norm Nixon (DeVaughn Nixon) que tem um certo protagonismo no começo da série e depois desaparece (aliás, todo o núcleo em torno dos jogadores, suas relações fora e dentro da quadra não são bem desenvolvidos); além de que alguns personagens ganham um certo destaque doméstico, como Pat Riley (Adrien Brody) e Jerry West (Jason Clarke), ou o próprio relacionamento entre Magic e Cookie (Tamera Tomakili), que acabam sem uma boa progressão dramática. Também sinto que a série passa superficialmente por muitos temas, como sexismo, preconceito, promiscuidade e vício em drogas – a subtrama de Spencer Haywood (Wood Harris), por exemplo, tem uma carga pesada e ótimas contextualizações do período, mas é narrativamente deslocada.

É como se os roteiristas quisessem dar importância para cada personagem que fez parte da Dinastia do Lakers. Eu não gosto disso, porque não estamos lendo um artigo da internet ou vendo um documentário, e sim acompanhando uma história de ficção. Não precisamos de uma trama para cada pessoa que aparece na história. Falta direcionamento narrativo e foco dramático nesta primeira temporada, apesar de também conter elementos positivos. Gosto bastante do jogo de inveja, interesses e traições nos bastidores da franquia, com especial destaque para a tensão entre os três treinadores, Riley, Paul Westhead (Jason Segel) e Jack McKinney (Tracy Letts), e também para o custo da vitória, algo melhor exemplificado com a raiva de West e as obsessões de Buss – também vemos isso em menores doses com os jogadores. Também há elementos apresentados que gostaria de ver sendo melhores explorados na vindoura segunda temporada, como a rivalidade cheia de conotações raciais entre Magic e Bird (adoro como transformaram ele num antagonista), a interação do time e os ideais feministas de Jeanie Buss (Hadley Robinson).

Para além dos roteiros, aprecio bastante o tom da obra. É uma história dramática com toques de humor, malandragem e sarcasmo, se vinculando às personalidades carismáticas e sorridentes das duas figuras centrais da série: Doutor Buss e Magic, que basicamente remodelaram a identidade da NBA. A linguagem visual vai de encontro com essas ideias de excessos cômicos e elementos nostálgicos, como a direção e a fotografia alternando entre filtros de 16mm, 35mm e imagens de VHS, ou então as várias quebras de quarta parede e o estilo de falso-documentário implementado pelos diretores, em especial Adam McKay no episódio de estreia. É uma configuração visual meio bagunçada, mas que estranhamente incorpora os exageros dos personagens e a qualidade retrô da história. Tenho alguns problemas com as filmagens dos jogos (mal montados e terrivelmente “coreografados”), mas a série não é sobre o que acontece nas quadras, e sim sobre a captura da época e o por trás das cenas, ambos visualmente bem estilizados e contextualizados.

Lakers: Hora de Vencer é uma carta de amor para a equipe do “Showtime” e para os envolvidos na ascensão da NBA, mas também não tem medo de mostrar retratos pouco generosos de suas figuras, sua franquia e seu período, afinal, toda Dinastia é erguida com tumultos, fracassos e escolhas duvidosas. Nesse sentido, a maior força da série está em seu elenco, com destaque especial para o carisma sorridente de Quincy Isaiah, o humor malandro e promíscuo de John C. Reilly, o estoicismo de Solomon Hughes, e a divertidíssima raiva de Jason Clarke, apesar das reclamações do verdadeiro Jerry West – aliás, não é meu lugar julgar fidelidades históricas, até porque não tenho ideia de como essas pessoas agiam de verdade. Ademais, a obra sofre com a exploração de alguns temas e na falta de foco narrativo que transforma a história quase num novelão, mas há muito o que gostar e muito o que esperar para futuras temporadas, especialmente para os fãs de basquete.

Lakers: Hora de Vencer (Winning Time: The Rise of the Lakers Dinasty) – 1ª Temporada — EUA, 2022
Criação: Max Borenstein, Jim Hecht
Direção: Adam McKay, Jonah Hill, Damian Marcano, Tanya Hamilton, Payman Benz, Salli Richardson-Whitfield
Roteiro: Rodney Barnes, Max Borenstein, Jim Hecht
Elenco: John C. Reilly, Quincy Isaiah, Jason Clarke, Sally Field, Adrien Brody, Gaby Hoffmann, Jason Segel, Hadley Robinson, DeVaughn Nixon, Tracy Letts, Solomon Hughes, Tamera Tomakili, Brett Cullen, Stephen Adly Guirgis, Spencer Garrett, Sarah Ramos, Molly Gordon, Rob Morgan, Delante Desouza, Austin Aaron, Jimel Atkins, Rachel Hilson, Wood Harris
Duração: 10 episódios de aprox. 60 min.

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